Estou até convicto, embora não convencido, de que a inteligência artificial, sob todas as suas formas (pelo menos as que eu suponho), veio incrementar extraordinariamente os processos de inteligibilidade e de inteligência e de consciência humanos.
"Ser feliz é uma actividade que requer toda uma vida e não pode existir em menos tempo" - Aristóteles, Ética a Nicómaco
quarta-feira, 27 de julho de 2022
Inteligência A./consciência A.
Estou até convicto, embora não convencido, de que a inteligência artificial, sob todas as suas formas (pelo menos as que eu suponho), veio incrementar extraordinariamente os processos de inteligibilidade e de inteligência e de consciência humanos.
sábado, 16 de julho de 2022
Valores da literatura
Os autores, para mim, são indissociáveis das obras. E, acima de tudo, a literatura é o paradigma da liberdade, tanto na perspetiva do autor, quanto na perspetiva do leitor.
Mas, para isso, para ser paradigma da liberdade, não pode ser uma literatura ao serviço de uma propaganda. Quero dizer com isto que literaturas há muitas e que não me interessa por aí além uma literatura militante, pré-feita, ou pré-formatada, por mais habilidoso, criativo ou genial que seja o escritor a manusear conteúdos e formas e formatos.
Divulgadores de cartilhas ideológicas, militantes de qualquer espécie, doutrinadores e pregadores talentosos capazes de nos fazerem chorar contra nossa vontade e de até nos fazerem termos vergonha disso, como se tivéssemos sido hipnotizados, não há muitos, se é que os há, mas não me seduzem.
Isso de tocar violino num serrote, pode fazer-me arrepiar e até aguar dos olhos, como me acontece nos funerais, mas não é a arte da minha vida.
Há autores de quem gosto e, independentemente das histórias e dos enredos que contam, que pouco me interessam, me transmitem visão, inteligência, humanidade dos bichos e desumanidade dos deuses, irrelevância dos anjos, bravura dos touros, integridade dos burros, coragem dos ignorantes, força dos destemidos, paixão dos simples e ingénuos, espírito guerreiro dos ofendidos, insubmissão dos maltratados, revolta dos empobrecidos, inconformismo dos caluniados, capacidade de abnegação, pela verdade, pela autenticidade, pela justiça e pelo direito, contra tudo e contra todos, sem cedências a partidos, religiões, conluios, arranjinhos e trapaças palacianas ou de alcova, que não perdoam a ninguém que seja um verme, quer ele esteja nas instâncias superiores dos intocáveis, ou não. Se fossem feras eram puras, respeitáveis como leões, ou águias, ou serpentes, que não fazem mal a uma pomba, mas são implacáveis e inclementes com eles próprios, segundo os seus critérios, ainda que só em ficção.
Quem não sonha passar num crivo destes?
Autores que ousaram, ou ousam, enfrentar os poderes, todos os tipos de poderes, seja o poder do sexo, ou do dinheiro, ou das armas, da democracia, ou da ciência, ou da religião, mesmo sem esperança de os vencerem?
Que, inclusivamente, ousaram, ou ousam, enfrentar os poderes da literatura?
Autores que foram vencidos por ela, e ainda bem?
Não só pelos poderes da literatura, mas pelos seus valores, que não cabem na frincha de nenhum mealheiro?
sexta-feira, 1 de julho de 2022
Poderá um professor ensinar mais do que aquilo que sabe?
Poderá um professor ensinar mais do que aquilo que sabe?
Ou um aprendiz aprender só aquilo que o mestre lhe ensina?
Nenhum aprendiz aprende só o que o mestre lhe ensina, nem tudo o que o mestre lhe quer ensinar.
A maior parte das vezes temos aprendizes que aprendem de inúmeros mestres.
Muitas vezes aprendem com os próprios pensamentos e com a própria sombra, com o eco dos próprios erros.
A questão é então sobre o que se pode e deve potenciar num processo que é inevitável porque é natural.
A base da educação e do ensino é a ideia de que se deve socializar e integrar o indivíduo num determinado sistema social e económico, político e religioso, de modo a torná-lo funcional e proveitoso para o sistema e para si próprio, evitando que ele possa vir a ser um problema para si próprio e para o sistema.
Parte-se da ideia geral e abstracta de que há princípios e valores em que todo o indivíduo deve ser educado e que, desde que os respeite, tem toda a liberdade para agir.
Entre esses princípios e valores estão a honestidade, o trabalho, o respeito, o jogo limpo, a solidariedade e o mérito.
Mas há toda uma casta de valores que, numa cultura de exacerbação da esperteza e da inteligência na viciação do jogo, para disso tirar proveito, não propriamente indevido, mas inacessível ao comum dos mortais, não fazem parte do cardápio de aprendizagens e de práticas institucionalizadas. Ou seja, a escola, a igreja, o tribunal, a catequista, o partido, o professor, o mestre-escola, as estruturas distribuidoras do sentido do dever, cumprem a função de ensinar e educar para as regras dos jogos, ou para as leis da natureza, mas dificilmente, ou nunca, ensinam e preparam para o jogo, para os negócios, para as posições de vantagens e como tirar desforço de um golpe do adversário.
O desfasamento da escola relativamente à vida é brutal quando de um lado da corda estão os mais nutridos e desinibidos traficantes/negociantes de milhões e do outro os anémicos e anacoretas alquimistas, ou lunáticos alfarrabistas.
E não estou a dizer que estes não sejam os activos realmente importantes para os negócios daqueles.
segunda-feira, 13 de junho de 2022
Máquinas pensantes que sentem
A máquina pensante assemelha-se em tudo a um estômago triturador, cujos refluxos não dependem da vontade, por mais incómodos e indesejáveis que sejam. Mas, com ou sem refluxos, a máquina aprende sempre e aprende com tudo.
sexta-feira, 3 de junho de 2022
Todas as ciências são ciências do homem
Há que evitar uma tentação, que é uma tendência dos processos de pensamento, de tomar a análise pelo analisado e, daí, fazer todo o tipo de inferências, ou colocar um computador a fazê-lo, ad aeternum, no éter.
Uma sugestão, para o desafio colocado pela ideia de uma hierarquização dos conhecimentos e das ciências, é partir do princípio de que, realmente, todo o conhecimento, todo o discurso, toda a ciência, são humanos e que todas as ciências, em última instância, são tentativas de responder a questões e resolver problemas do homem.
Neste sentido, todo o conhecimento é "antropologia" e a importância das ciências deriva do serviço ou da utilidade que elas possam ter para o homem, para a sociedade, para a humanidade.
Neste sentido, seríamos tentados a considerar que nenhuma ciência é tão importante e relevante para o homem como o é a antropologia, ou, em geral, as ciências humanas e sociais. Continua a ser válido o brocardo antigo "conhece-te a ti mesmo" como algo cuja importância não pode ser diminuída nem substituída.
Só que, como referimos, todas as ciências existem e concorrem para esse conhecimento, apesar de enfoques específicos de cada uma sobre a realidade.
O nosso modo de conhecer é descontínuo e é em diferido, mas a realidade não.
sábado, 30 de abril de 2022
As democracias dão muito trabalho
Mas as democracias, que mais de metade do mundo nunca experienciou e que quase não sobreviveram ao hitler e ao staline e outros de igual vocação, baralharam, deram cartas, jogaram dentro das regras, tiveram paciência para enfrentar os desafios e as ameaças, suportaram todas as pressões, e ganharam aos batoteiros, usurpadores sem vergonha, nem princípios, e sem moral, que apostaram tudo na violência demolidora e mortífera e na crença da sua posição dominante.
As democracias são mais fortes do que parecem. Mesmo derrotadas pela força das armas, mantêm-se invictas pela força propagadora e indomável da moral que estará sempre onde estiver um humano (que não seja uma besta candidata a besta do apocalipse).
domingo, 17 de abril de 2022
Fala o almirante
quarta-feira, 13 de abril de 2022
Aproximações à verdade XVIII
Hilário: estou a pensar no sofrimento, na função que desempenha
Amiga: só os seres vivos sofrem
Hilário: sofrer e sentir são duas funções biológicas complementares
Amiga: sentir dor, mal-estar, é indissociável de sentir bem-estar, alegria, satisfação
Hilário: viver é estar nessa tensão, nessa adaptação constante a graus e tipos de satisfação que não têm de ser dolorosos, mas que podem ser extremamente dolorosos e até insuportáveis
Amiga: o homem tem desenvolvido uma cultura de prevenção de situações em que, por exemplo, a privação de bens essenciais, de água, de alimentos, de cuidados de saúde e de protecção contra as intempéries, seriam rapidamente muito dolorosas e insuportáveis, causando imenso sofrimento
Hilário: mas não é apenas para evitar desconforto, dor ou sofrimento que a cultura produziu mecanismos de prevenção e defesa, grande parte da cultura é um acervo de atividades e de objectos e de formas de dar satisfação aos nossos desejos e vícios, ao prazer pelo prazer
Amiga: nesse caso, o desejo aparece como desconforto e, ao mesmo tempo, como antecipação da satisfação que se obteria ou obterá e, se for muito fomentado, se se tornar obsessivo, pode ser fonte de dor e de sofrimento, moral e físico
Hilário: um prazer, ou uma fonte de prazer, nessas situações transforma-se num desprazer ou numa fonte de sofrimento, como acontece nos vícios
Amiga: parece que estar vivo é um processo em que, por desconforto, mal-estar, ou sofrimento, ao buscar satisfação e ao obtê-la, o ser vivo passa para um estado temporário, relativamente breve e passageiro, de homeostasia
Hilário: se este estado não fosse passageiro, se fosse definitivo, isso corresponderia à morte, ou a um estado fantasmático de consciência sem corpo, em que as religiões do espírito acreditam, mas que ninguém sabe o que é
Amiga: um dos aspectos mais interessantes e preocupantes dessa condição dos seres vivos, em geral, e do homem em particular, é que a dor e o sofrimento têm sido instrumentalizados, ou usados como meio de dominar e de controlar e de obrigar e de sujeitar os seres vivos e os humanos
Hilário: é como se o desconforto, a dor e o sofrimento, e não apenas os desejos e as ambições e os vícios, fossem uma espécie de moeda de troca em relações humanas mercantilizadas
Amiga: mas quando se chega ao ponto de provocar dor e sofrimento e morte, em pessoas que se sentem bem, que estão em paz, porque dessa forma se pretende obrigá-las a realizar algo que elas não querem, nem devem fazer, para satisfação, por exemplo, de um objectivo político-militar-económico de um grupo, ou de uma organização, estadual, ou outra, creio que se atingiu um pico de sordidez e de imoralidade e de aberração, que excede tudo
Hilário: isso é a manipulação perversa das nossas funções biológicas, como a função do sofrimento, que referi no início.
Amiga: nada é tão odioso como a guerra
Hilário: nada é tão nobre e sublime como a guerra defensiva
Amiga: e o que dirias do contra-ataque?
sábado, 9 de abril de 2022
Aproximações à verdade XVII
sábado, 26 de março de 2022
Um deus que filosofe
Podes procurar um deus que filosofe
Que diga com que deuses filosofa
E com que deusas se compromete
Que joguem aos dados sem perderem
E não adormeçam
Por terem cuidados
E se entristeçam
Por não saírem de si
Por não fazerem bem
Por não serem ninguém.
sábado, 19 de março de 2022
Fast-Food
Quem está no terreno há muitos anos, desde o ante-xerox até ao pós-windows, passando pelo digital, se a memória não falhar, e tiver interesse nisso, pode dizer que o ensino e a escola, em geral, deixou de ser dos professores.
Os professores que tiveram a oportunidade de o perceber foram poupados a uma angustiante batalha contra gigantes, que outros tomaram por moinhos de vento.
O problema coloca-se de modo simples: o professor, na acepção clássica de profissional do ensino, especializado numa disciplina, a quem compete ensinar e discutir e questionar as matérias com os alunos, para depois os avaliar em função desse processo vivo, interactivo e crítico, acabou de ser banido e não é mais figura grada.
Só não percebe a mensagem, vinda de cima, quem teima em acreditar que ser professor é exercer um múnus cultural e educacional baseado na sua competência e autonomia científica e pedagógica. Foi assim que o professor do século XX aprendeu a ver, a representar e a desempenhar o seu papel, nunca lhe passando pela cabeça que um professor, por exemplo, fosse um mero dispensador de fichas de perguntas ou actividades sobre temas e respectivas propostas de solução, ou de resposta, preferencialmente, ou mesmo obrigatoriamente, produzidas por entidades heterónomas, essas sim, especializadas e exclusivamente credenciadas para o efeito.
Mas é isto que se pretende, que o professor não tenha qualquer intervenção científica no processo, que já nem pode designar-se de ensino-aprendizagem. Pretende-se evitar, senão impedir, que o professor seja algo mais do que um funcionário do ensino pré-formatado, tipo "fast-food", que nem precisa de saber nada sobre aquilo que está a "ensinar".
E isto, sob a bandeira e o pretexto, a meu ver perverso, de que é para aliviar o trabalho do professor e dispensar os alunos da seca de o ouvirem e aturarem.
Na pior das hipóteses, podemos pensar que o professor caiu num descrédito total, ou seja, nada do que ele possa dizer aos alunos merece a garantia, ou sequer o benefício da dúvida, de que não são disparates. E se os alunos (esses sim, instruídos) o disserem ao director da escola, este, prontamente, e sem indagações, acreditará.
Chegamos ao ponto em que a escola se tornou o lugar em que o ensino e a aprendizagem são a parte menos relevante da sua função institucional, não obstante se continuar a perseguir os professores, e mais ninguém, pelos resultados menos bons dos alunos.
sábado, 12 de março de 2022
Aproximações à verdade XVI
quinta-feira, 10 de março de 2022
Como só a harmonia consegue
Quem há-de dizer
Com todas as letras
Para as estrelas
E daí
Obter resposta
Numa língua que não existe
Aplacar em letra morta
O silêncio
Pisar escombros com a planta dos pés
E como antídoto ensurdecer
Com sofismas
Para dores fantasmáticas
Em doses homeopáticas
Diluídas na metafísica
Do maravilhoso aquário
De argumentos
Sem se molharem
Sem afundarem
Patinando artisticamente sobre uma superfície gelada
De postulados cosmológicos
E imunes às forças opostas
Como só a harmonia consegue
Em parcimoniosos compassos
Ou bélicas coreografias
Quem há-de sacrificar
Tudo o que resta
O que importa salvar
Não é a verdade
Nem do que sabemos
Nem do que dizemos
É o que somos
E o que fazemos
É o que as coisas são
Até se tornarem noutras coisas
Que não reconhecemos senão
Na nossa visão
Por mais desculpável que seja
A nossa falta de visão
Por mais que se agigante
O espectro da invisibilidade
Na luta que se encarniça de olhar para si mesma
Como inimiga
Que não pode evitar
Nem vencer
Nem servir de alimento a uma letra
Para não dizer pomba
Morta
Da paz.
quinta-feira, 3 de março de 2022
Devia ser proibido mandar fazer guerra
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
Problema de cepticismo
Todos temos a faculdade e a aptidão para constatar realidades e para escolher e defender aquilo que, em muitos casos, corresponde a factos naturais ou descreve com objectividade as coisas, ou conclui de modo válido uma argumentação, ou análise, ou subsunção, sobre a realidade, natural ou cultural.A própria linguagem verbal é um repositório, ou reservatório, ou acúmulo, ou acervo, ou memória dinâmica, de verdades à espera de serem comprovadas.Há sempre aquele problema, que é um problema de cepticismo inerente às condições das possibilidades de comunicação, que se instala entre a subjectividade e a objectividade e que a comunicação não resolve, nem consegue ultrapassar.Tomemos, por exemplo, dois indivíduos que reconhecem que um objecto é matéria de determinadas características, que levam a caracterização dessa matéria até ao infinitamente infinitesimal, ou até ao ponto em que o objecto já deixou, há muito, no encadeamento da análise, de ser o que tinha começado por parecer. Ambos podem estar de acordo quanto ao ser o que é, e não haver controvérsia. Mas tanto não basta, porque ainda falta provar que estão certos. Não quer dizer que não estejam certos, mas a questão do conhecimento, da verdade da crença, não é tão simples como confiar nas evidências.
sábado, 29 de janeiro de 2022
Não conhecemos nada fora da natureza
domingo, 23 de janeiro de 2022
O movimento como causalidade de tudo
O tempo é um tema fascinante, que nunca cansa, nem passados milhões de anos, qualquer que seja o instrumento de medida que se adopte, admitindo, no entanto, que o tempo do relógio é o menos relevante na perspectiva do poeta e da abelha e da mosca e do covid-19 e dos dinossauros...
Mas o tempo dos relógios e da velocidade, da clepsidra e da tartaruga são outras formas de movimento... Estamos imbuídos de sentidos do tempo e do espaço, como as águias e as pombas, os golfinhos e as sardinhas, mas as estrelas e as galáxias, de que fazemos parte, não têm tempo.
O tempo, nesta acepção física de realidade, não existe.
O tempo é biológico.
O que existe é o movimento.
Nada do que existe, incluindo o tempo (parece contraditório com o que disse), não existiria sem movimento.
E eu pergunto-me se é sequer concebível, imaginável, que deixe alguma vez de ser tudo movimento.
sábado, 15 de janeiro de 2022
Qual a causa do movimento que causa tudo?
O pessimismo e o optimismo não são variáveis que o Newton ou o Einstein pudessem analisar através de um prisma, como se faz com a luz, ou que os niilistas pudessem descartar como irrealidades, fazendo tábua rasa do sofrimento e da morte, como se não existissem, ou que os realistas não entendessem como manifestações da mesma física que parece estar em tudo e por detrás de tudo, por nada haver que não seja físico, incluindo o pensamento mais estúpido ou o sentimento mais incompreensível.
Atrevo-me a pensar que, se há algo sem o qual nada aconteceria e tudo o que acontece deixaria de acontecer, esse algo é o movimento. Sem movimento haveria causalidade? Haveria alguma coisa?
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
Se houvesse um refúgio
Se houvesse um refúgio
Ninguém quereria lá ficar
Chegamos finalmente ao lugarejo
Que chamamos do voo da águia
Bebemos da nascente à entrada
Água que estava a jorrar
Sem temer dragões à espreita
Pelos buracos das construções ao vento
Que ouvíamos a respirar
Fingindo tomar-nos por donos
Deste pensamento
Do mais sagrado que havia
Naquele lugar
Tão longe das encostas nevadas
E dos picos de sol
Como o outono na floresta
Dos líquenes
Na clareira surgiu um vulto
De mulher sorridente
Que a todas as perguntas
Nos indicava em redor
O que havia
Sem sombra de dúvida.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2021
Pensar pela própria cabeça
O indivíduo nem sempre chega a entender a diferença entre pensar e pensar pela própria cabeça. É uma dicotomia algo artificial e estranha, porque, em rigor, só se pode pensar com a própria cabeça e, mesmo quando pensamos sobre aquilo que é cultura, objectivação de pensamento, ideias, juízos, ainda que não através de objectificação mais ou menos efémera, seja ou não linguagem, ou meio de comunicação, sonora, escrita, visual, qualquer que seja a codificação usada (por ex., dizer amo para significar odeio, etc..) é a cabeça de um indivíduo que “imagina”, “pensa” o que, aparentemente, está pensado, por exemplo, num livro.
Mas podemos ter a certeza, podemos estar seguros de que ninguém pensa pela cabeça de ninguém? Creio que sim.
No entanto, o acto de pensar é apenas uma forma consciente de pensar. Pensar nem sempre corresponderá a um acto consciente. A consciência, aquilo que, neste contexto, considero condição para se poder falar de acto, constitui, no conjunto da vida humana, suponho eu, baseado em mero palpite do tempo que passamos a dormir, ou quase a dormir, distraídos ou em estado “quase comatoso”, sendo a parte da vida que mais directamente testemunhamos, não deixa de ser relativamente muito pequena, embora a que é representativa para a nossa memória, do cronómetro biográfico.
E não é por não estarmos conscientes dos nossos metabolismos fisiológicos e processos neurológicos que eles deixam de ocorrer. Aqui, a nossa cabeça pouco ou nada pode pensar em termos de acto de pensamento determinante do processo. Ninguém, aqui, sequer pensa, nem pela própria cabeça, nem pela cabeça de outrem (se isto fosse possível).
É, não obstante, perceptível a diferença entre pensar como mero descodificador num processo de comunicação e pensar como emissor.
Se, perante uma assembleia de sábios, eu tivesse que falar com a condição de lhes dizer apenas algo que eles não soubessem, em verdadeiro e absoluto nome próprio, sem me ser permitido recorrer a citações, ou quaisquer ideias que não fossem minhas, não sendo aceite sequer que me referisse a qualquer doutrina, autor, teoria, ideologia, devendo mostrar originalidade e conhecimento de tal modo que eles próprios nunca tivessem sequer suspeitado, a minha prova seria algo parecido com uma missão impossível e não teria nada a ver com uma prova acerca do que pensaram os outros, sábios ou não.
Naquela minha hipótese, eu teria que pensar pela própria cabeça.
O problema é que pensar pela própria cabeça não é tão cómodo, nem tão fácil, nem tão compensador, nem tão “inteligente” e “económico” e, do ponto de vista da comunicação, é um desafio com obstáculos brutais, tanto para quem emite, quanto para quem recebe.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2021
Todas são uma
As
mulheres
São
tão secretas
Que
só o poeta sabe
Que
todas são uma
Imprescindível
aparição
Que
não acontece
Nas
ocasiões mais felizes
Que
nas tristes
Todas
não são
E
o poeta cuida
Que
figurem na íntima narração
Das
criações belas
Que
povoam as telas
De
quem confia sem receio
Em
todo e qualquer devaneio
Que
elas são.
segunda-feira, 29 de novembro de 2021
O que tens a dizer sobre o que quer que seja
Se
o que tens a dizer
Sobre
o amor
Ou
o que quer que seja
É
que já foi tudo dito por outros
Essa
charada
De
ti
Não
diz senão
Que
estás de porta trancada
Mas
ninguém atira uma estrela
Pela
janela
Como
quem dispensa dons
De
profetizar
A
partir do céu
Vestires-te
de conchas
Das
profundezas marinhas
Não
te tornará mais cromo
Do
que apanhares banhos de sol
Ao
luar
Entre
os ópios do povo
Que
venha o diabo e escolha.
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
Virtudes e defeitos do capitalismo e do liberalismo
sábado, 20 de novembro de 2021
Direito, igualdade, imperativo categórico
A esfera dos teus direitos só encontra fundamento e justificação na medida em que fundamenta e justifica a esfera de direitos do outro. Qualquer direito que te arrogues só será direito se for universal. Por ex., se alguém reclamar para si o direito a ter um avião, é imperativo categórico que qualquer outra pessoa possa igualmente reclamar esse direito. Mas o imperativo categórico, em termos de consciência política e de justiça social e ambiental, conduz a que não seja direito, por exemplo, que um indivíduo se prevaleça e se aproveite de mais recursos do que aqueles que lhe são estritamente necessários se calculássemos a parte dos recursos disponíveis estritamente necessários a cada ser humano. Grosso modo, por ex., se é impossível que todas as pessoas tenham um avião, eu não tenho direito a ter um. Ou, por outras palavras, o imperativo categórico não comporta que haja dois pesos e duas medidas.
O teu quinhão não pode ser composto à custa e com prejuízo do quinhão do outro, entendido como todo e qualquer outro ser humano.
O princípio da igualdade é o reconhecimento e a expressão de um imperativo categórico: a norma que escolheres para ti é válida para o(s) outro(s). No fundo, corresponde ao princípio da não contradição.
A discussão em torno das questões de justiça social teria imenso a ganhar, seria muito mais fértil, se não se distraísse do imperativo categórico da igualdade.
Até podes arvorar-te em medida e critério de todas as coisas, mas é imperativo categórico, quer dizer, não tens razão alguma para recusar, que todas e quaisquer pessoas façam o mesmo.
A menos que faças como os profetas e o messias, que apelaram à sua natureza alegadamente divina.