quarta-feira, 27 de julho de 2022

Inteligência A./consciência A.

A reflexão sobre o problema da consciência artificial sugere-me que ela será um desenvolvimento inevitável da inteligência artificial e que as ameaças daí derivadas talvez não tenham tanto a ver com o pressuposto pessimista de que a consciência natural esteja cada vez menos inteligente.
Estou até convicto, embora não convencido, de que a inteligência artificial, sob todas as suas formas (pelo menos as que eu suponho), veio incrementar extraordinariamente os processos de inteligibilidade e de inteligência e de consciência humanos. 
Se não no âmbito dos indivíduos, cuja capacidade para entender e pensar os problemas numerosos e crescentes pode estar condicionada por fatores que não dependem exclusivamente da sua disponibilidade física e mental para o fazer, pelo menos, no âmbito das organizações, políticas, técnicas, militares, científicas, educativas, judiciais, económicas, acredito que a consciência artificial poderá ser a chave para resolver o problema, até agora insolúvel e cada vez mais insuportável, de a humanidade estar refém de um qualquer terrorista que detenha o poder nuclear de destruir. Neste caso especialmente crítico e relevante, acredito que as decisões militares vão ser monitorizadas pela inteligência e pela consciência artificial de um modo muito mais complexo e completo do que, por exemplo, o diagnóstico de uma doença em que não é o médico que controla a máquina, mas é a máquina que controla o médico. 
Ou seja, nenhum militar e nenhuma equipa de militares achará que pode ou sabe que decisão tomar, porque isso não contará para nada, uma vez que a inteligência/consciência artificial o fará, garantidamente, com melhor sucesso. 
Para dar o exemplo da invasão da Ucrânia pela Rússia, acredito que, embora não fosse preciso inteligência/consciência artificial para chegar a essa conclusão, se Putin dispusesse dela (inevitavelmente, não seria ele a dispor dela, mas seria ela a dispor dele) nem teria pensado na invasão como uma solução para os problemas, que também seriam problemas diferentes dos dele, por via dessa inteligência artificial. E assim sucessivamente. 
Os problemas e as suas soluções serão aqueles que a IA determinar. Não vejo aqui nenhuma ameaça aos humanos, pelo contrário, a IA determinará que qualquer ameaça será um problema e, não apenas o sinaliza para que o conheçamos e tenta neutralizá-lo, como até o previne e impede os seus efeitos. A IA e a consciência artificial só têm de o ser e, se o forem, não há problema. 
Na realidade, o nosso problema, os problemas da humanidade, ao longo do tempo, é a nossa incapacidade para resolver os problemas de consciência e de inteligência. 
Cometemos erros atrás de erros, alguns deles brutais, com consequências horrendas e irreversíveis, movidos por visões completamente injustificáveis de qualquer perspetiva de uma inteligência avançada e de uma consciência que não seja vulnerável, nem suscetível a alucinações, individuais ou coletivas.

sábado, 16 de julho de 2022

Valores da literatura

A literatura, para além de outras virtudes, e não estou a pensar em defeitos (que até podem ser vistos como suas principais virtudes) é um exercício intelectual, uma atividade exigente de leitura e interpretação que cada um fará ao jeito e até onde se lhe proporcionar o gosto, a imaginação e a criatividade, sem esquecer a experiência e os conhecimentos necessários para a descodificar/produzir.
Os autores, para mim, são indissociáveis das obras. E, acima de tudo, a literatura é o paradigma da liberdade, tanto na perspetiva do autor, quanto na perspetiva do leitor.
Mas, para isso, para ser paradigma da liberdade, não pode ser uma literatura ao serviço de uma propaganda. Quero dizer com isto que literaturas há muitas e que não me interessa por aí além uma literatura militante, pré-feita, ou pré-formatada, por mais habilidoso, criativo ou genial que seja o escritor a manusear conteúdos e formas e formatos.
Divulgadores de cartilhas ideológicas, militantes de qualquer espécie, doutrinadores e pregadores talentosos capazes de nos fazerem chorar contra nossa vontade e de até nos fazerem termos vergonha disso, como se tivéssemos sido hipnotizados, não há muitos, se é que os há, mas não me seduzem.
Isso de tocar violino num serrote, pode fazer-me arrepiar e até aguar dos olhos, como me acontece nos funerais, mas não é a arte da minha vida.
Há autores de quem gosto e, independentemente das histórias e dos enredos que contam, que pouco me interessam, me transmitem visão, inteligência, humanidade dos bichos e desumanidade dos deuses, irrelevância dos anjos, bravura dos touros, integridade dos burros, coragem dos ignorantes, força dos destemidos, paixão dos simples e ingénuos, espírito guerreiro dos ofendidos, insubmissão dos maltratados, revolta dos empobrecidos, inconformismo dos caluniados, capacidade de abnegação, pela verdade, pela autenticidade, pela justiça e pelo direito, contra tudo e contra todos, sem cedências a partidos, religiões, conluios, arranjinhos e trapaças palacianas ou de alcova, que não perdoam a ninguém que seja um verme, quer ele esteja nas instâncias superiores dos intocáveis, ou não. Se fossem feras eram puras, respeitáveis como leões, ou águias, ou serpentes, que não fazem mal a uma pomba, mas são implacáveis e inclementes com eles próprios, segundo os seus critérios, ainda que só em ficção.
Quem não sonha passar num crivo destes?
Autores que ousaram, ou ousam, enfrentar os poderes, todos os tipos de poderes, seja o poder do sexo, ou do dinheiro, ou das armas, da democracia, ou da ciência, ou da religião, mesmo sem esperança de os vencerem?
Que, inclusivamente, ousaram, ou ousam, enfrentar os poderes da literatura?
Autores que foram vencidos por ela, e ainda bem?
Não só pelos poderes da literatura, mas pelos seus valores, que não cabem na frincha de nenhum mealheiro?

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Poderá um professor ensinar mais do que aquilo que sabe?

O trabalho de um professor, a função da escola pública (não confundir com escola em sentido amplo), a função de uma universidade, a função de um educador, de uma instituição de educação, religiosa, ideológica, científica, ainda são pensadas e entendidas e gizadas segundo moldes de proficiências providenciais, ou providenciadas, ou a providenciar, assentes em pressupostos que devem servir e reproduzir, porque é preciso trabalhar muito para que tudo continue na mesma, embora isto seja uma grande ilusão, porque nada continua na mesma.
Poderá um professor ensinar mais do que aquilo que sabe?
Ou um aprendiz aprender só aquilo que o mestre lhe ensina?
Nenhum aprendiz aprende só o que o mestre lhe ensina, nem tudo o que o mestre lhe quer ensinar.
A maior parte das vezes temos aprendizes que aprendem de inúmeros mestres.
Muitas vezes aprendem com os próprios pensamentos e com a própria sombra, com o eco dos próprios erros.
A questão é então sobre o que se pode e deve potenciar num processo que é inevitável porque é natural.
A base da educação e do ensino é a ideia de que se deve socializar e integrar o indivíduo num determinado sistema social e económico, político e religioso, de modo a torná-lo funcional e proveitoso para o sistema e para si próprio, evitando que ele possa vir a ser um problema para si próprio e para o sistema.
Parte-se da ideia geral e abstracta de que há princípios e valores em que todo o indivíduo deve ser educado e que, desde que os respeite, tem toda a liberdade para agir.
Entre esses princípios e valores estão a honestidade, o trabalho, o respeito, o jogo limpo, a solidariedade e o mérito.
Mas há toda uma casta de valores que, numa cultura de exacerbação da esperteza e da inteligência na viciação do jogo, para disso tirar proveito, não propriamente indevido, mas inacessível ao comum dos mortais, não fazem parte do cardápio de aprendizagens e de práticas institucionalizadas. Ou seja, a escola, a igreja, o tribunal, a catequista, o partido, o professor, o mestre-escola, as estruturas distribuidoras do sentido do dever, cumprem a função de ensinar e educar para as regras dos jogos, ou para as leis da natureza, mas dificilmente, ou nunca, ensinam e preparam para o jogo, para os negócios, para as posições de vantagens e como tirar desforço de um golpe do adversário.
O desfasamento da escola relativamente à vida é brutal quando de um lado da corda estão os mais nutridos e desinibidos traficantes/negociantes de milhões e do outro os anémicos e anacoretas alquimistas, ou lunáticos alfarrabistas.
E não estou a dizer que estes não sejam os activos realmente importantes para os negócios daqueles.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Máquinas pensantes que sentem

Se em qualquer situação, seja de bem estar, de violência, de maus tratos, de ambientes e de interações inteligentes, de paz ou de guerra, de contemplação ou ascetismo, de sonho ou de paixão, o ser humano, como máquina pensante que é, como máquina que discorre e analisa e conclui sobre o que sente e, metodologicamente ou não, reverte o que pensa para a mesa da experiência, numa interação, ou controlo dos sentidos pela razão e da razão pelos sentidos, o problema da educação tem a ver sobretudo com os limites que são impostos pelo respeito devido ao educando, muito mais do que os que são devidos pelo educando ao educador. 
A responsabilidade do educador precede, em toda a linha, a do educando. 
Num primeiro momento, em que este nem sequer tem habilidades e capacidades de entendimento e de vontade e de liberdade, porque a máquina pensante humana é uma máquina biológica melindrosa e delicada, além de ser muito sensível (quanto à inteligência deixo o assunto para especialistas) está na roda viva de uma realidade que o antecede e o condiciona imenso. 
A evolução dessa máquina viva é ditada e determinada, em grande parte, por aqueles que a rodeiam e por aquilo que acontece. 
Gostar ou não das “propostas”, do “menu”, do “cardápio” de credos, disciplinas (o termo disciplina é muito interessante para estas minhas considerações gratuitas), possibilidades, expectativas, é fundamental, mas o que é decisivo é a oportunidade e a capacidade para alcançar o que, nesse horizonte de possibilidades, mais ou menos ilusórias, mais ou menos enganadoras, se deseja alcançar, sem detrimento dos motivos e das razões pelos quais se deseja.
A máquina pensante assemelha-se em tudo a um estômago triturador, cujos refluxos não dependem da vontade, por mais incómodos e indesejáveis que sejam. Mas, com ou sem refluxos, a máquina aprende sempre e aprende com tudo. 
Com ou sem educação, aprende. 
O problema está em saber o que deve aprender (se é que deve), na perspetiva da máquina, que merece todo o respeito, ainda que seja diferente de todas as outras, e na perspectiva das outras máquinas, que sabem o que lhe ensinar (se ela quiser e puder aprender, sem prejuízo daquilo que for seu desejo e sua vontade). 
Não basta ter uma mesa repleta de iguarias, é necessário apetite, vontade de comer, acto de comer e, a parte também complexa, sujeita a muitos percalços, de fazer a digestão, usar a energia e defecar.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Todas as ciências são ciências do homem

Há que evitar uma tentação, que é uma tendência dos processos de pensamento, de tomar a análise pelo analisado e, daí, fazer todo o tipo de inferências, ou colocar um computador a fazê-lo, ad aeternum, no éter. 

Uma sugestão, para o desafio colocado pela ideia de uma hierarquização dos conhecimentos e das ciências, é partir do princípio de que, realmente, todo o conhecimento, todo o discurso, toda a ciência, são humanos e que todas as ciências, em última instância, são tentativas de responder a questões e resolver problemas do homem. 

Neste sentido, todo o conhecimento é "antropologia" e a importância das ciências deriva do serviço ou da utilidade que elas possam ter para o homem, para a sociedade, para a humanidade. 

Neste sentido, seríamos tentados a considerar que nenhuma ciência é tão importante e relevante para o homem como o é a antropologia, ou, em geral, as ciências humanas e sociais. Continua a ser válido o brocardo antigo "conhece-te a ti mesmo" como algo cuja importância não pode ser diminuída nem substituída. 

Só que, como referimos, todas as ciências existem e concorrem para esse conhecimento, apesar de enfoques específicos de cada uma sobre a realidade. 

O nosso modo de conhecer é descontínuo e é em diferido, mas a realidade não.

sábado, 30 de abril de 2022

As democracias dão muito trabalho

As democracias dão muito trabalho, têm muitas fragilidades, demoram muito tempo e, embora sejam castradoras de bestas, até das que se arvoram em besta do apocalipse, ou em dragões demolidores, que vomitam fogo de mil maneiras ardilosas, ao mesmo tempo que abalam, com o poder das bombas, os sítios onde os humanos vivem e constroem a humanidade, nem por isso elas, as democracias, têm conseguido evitar e menos ainda impedir que as bestas, aspirantes a besta do apocalipse, se saciem de sangue até arrotarem de sadismo e isso ser uma passagem vaidosa e triunfal pelos palcos das maiores tragédias no teatro de desumanidade e ódio, que diverte as bestas e em que estas desejam transformar o mundo .
Mas as democracias, que mais de metade do mundo nunca experienciou e que quase não sobreviveram ao hitler e ao staline e outros de igual vocação, baralharam, deram cartas, jogaram dentro das regras, tiveram paciência para enfrentar os desafios e as ameaças, suportaram todas as pressões, e ganharam aos batoteiros, usurpadores sem vergonha, nem princípios, e sem moral, que apostaram tudo na violência demolidora e mortífera e na crença da sua posição dominante.
As democracias são mais fortes do que parecem. Mesmo derrotadas pela força das armas, mantêm-se invictas pela força propagadora e indomável da moral que estará sempre onde estiver um humano (que não seja uma besta candidata a besta do apocalipse).

domingo, 17 de abril de 2022

Fala o almirante

O almirante falou
Fala o almirante
Todos os cemitérios são iguais
Por mais que tentem ser originais
Por mais que tentem ser mais
Todos têm uma entrada
Sem regresso
Franqueada aos mortos
E só aos mortais
Que fazem os funerais
Os cemitérios parecem tristes
De mais
Os cemitérios não sentem
Nem dizem nada
Não têm culpa nenhuma
De serem locais
Tenebrosos
Sobretudo o mar
Com suas sombras onduladas
Ao luar
Ao vento
Onde os mochos não piam
No silêncio nocturno.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Aproximações à verdade XVIII

Hilário: estou a pensar no sofrimento, na função que desempenha

Amiga: só os seres vivos sofrem

Hilário: sofrer e sentir são duas funções biológicas complementares

Amiga: sentir dor, mal-estar, é indissociável de sentir bem-estar, alegria, satisfação

Hilário: viver é estar nessa tensão, nessa adaptação constante a graus e tipos de satisfação que não têm de ser dolorosos, mas que podem ser extremamente dolorosos e até insuportáveis

Amiga: o homem tem desenvolvido uma cultura de prevenção de situações em que, por exemplo, a privação de bens essenciais, de água, de alimentos, de cuidados de saúde e de protecção contra as intempéries, seriam rapidamente muito dolorosas e insuportáveis, causando imenso sofrimento

Hilário: mas não é apenas para evitar desconforto, dor ou sofrimento que a cultura produziu mecanismos de prevenção e defesa, grande parte da cultura é um acervo de atividades e de objectos e de formas de dar satisfação aos nossos desejos e vícios, ao prazer pelo prazer

Amiga: nesse caso, o desejo aparece como desconforto e, ao mesmo tempo, como antecipação da satisfação que se obteria ou obterá e, se for muito fomentado, se se tornar obsessivo, pode ser fonte de dor e de sofrimento, moral e físico

Hilário: um prazer, ou uma fonte de prazer, nessas situações transforma-se num desprazer ou numa fonte de sofrimento, como acontece nos vícios

Amiga: parece que estar vivo é um processo em que, por desconforto, mal-estar, ou sofrimento, ao buscar satisfação e ao obtê-la, o ser vivo passa para um estado temporário, relativamente breve e passageiro, de homeostasia

Hilário: se este estado não fosse passageiro, se fosse definitivo, isso corresponderia à morte, ou a um estado fantasmático de consciência sem corpo, em que as religiões do espírito acreditam, mas que ninguém sabe o que é

Amiga: um dos aspectos mais interessantes e preocupantes dessa condição dos seres vivos, em geral, e do homem em particular, é que a dor e o sofrimento têm sido instrumentalizados, ou usados como meio de dominar e de controlar e de obrigar e de sujeitar os seres vivos e os humanos

Hilário: é como se o desconforto, a dor e o sofrimento, e não apenas os desejos e as ambições e os vícios, fossem uma espécie de moeda de troca em relações humanas mercantilizadas

Amiga: mas quando se chega ao ponto de provocar dor e sofrimento e morte, em pessoas que se sentem bem, que estão em paz, porque dessa forma se pretende obrigá-las a realizar algo que elas não querem, nem devem fazer, para satisfação, por exemplo, de um objectivo político-militar-económico de um grupo, ou de uma organização, estadual, ou outra, creio que se atingiu um pico de sordidez e de imoralidade e de aberração, que excede tudo

Hilário: isso é a manipulação perversa das nossas funções biológicas, como a função do sofrimento, que referi no início.

Amiga: nada é tão odioso como a guerra

Hilário: nada é tão nobre e sublime como a guerra defensiva

Amiga: e o que dirias do contra-ataque?

sábado, 9 de abril de 2022

Aproximações à verdade XVII

Hilário: estou a pensar numa estratégia de controlo do riso
Amiga: de controlo do risco?
Hilário: ahahahah
Amiga: ahahahahahaah
Hilário: tento, todos os dias sem excepção, antes de começar a trabalhar, pensar em algo que me faça rir
Amiga: e consegues? Eu tento fazer uma pequena oração, diferente todos os dias
Hilário: quando não consigo, tomo isso como sinal de que algo não está a correr bem
Amiga: é por isso que eu faço uma oração, até é mais fácil nas dificuldades
Hilário: ahahahah
Amiga: ninguém consegue rezar e rir ao mesmo tempo
Hilário: nem chorar
Amiga: nunca tinha pensado nisso
Hilário: e ter dois pensamentos ao mesmo tempo, já experimentaste?

sábado, 26 de março de 2022

Um deus que filosofe

Podes procurar um deus que filosofe

Que diga com que deuses filosofa

E com que deusas se compromete

Que joguem aos dados sem perderem

E não adormeçam

Por terem cuidados

E se entristeçam

Por não saírem de si

Por não fazerem bem

Por não serem ninguém.

sábado, 19 de março de 2022

Fast-Food

Quem está no terreno há muitos anos, desde o ante-xerox até ao pós-windows, passando pelo digital, se a memória não falhar, e tiver interesse nisso, pode dizer que o ensino e a escola, em geral, deixou de ser dos professores.

Os professores que tiveram a oportunidade de o perceber foram poupados a uma angustiante batalha contra gigantes, que outros tomaram por moinhos de vento.

O problema coloca-se de modo simples: o professor, na acepção clássica de profissional do ensino, especializado numa disciplina, a quem compete ensinar e discutir e questionar as matérias com os alunos, para depois os avaliar em função desse processo vivo, interactivo e crítico, acabou de ser banido e não é mais figura grada.

Só não percebe a mensagem, vinda de cima, quem teima em acreditar que ser professor é exercer um múnus cultural e educacional baseado na sua competência e autonomia científica e pedagógica. Foi assim que o professor do século XX aprendeu a ver, a representar e a desempenhar o seu papel, nunca lhe passando pela cabeça que um professor, por exemplo, fosse um mero dispensador de fichas de perguntas ou actividades sobre temas e respectivas propostas de solução, ou de resposta, preferencialmente, ou mesmo obrigatoriamente, produzidas por entidades heterónomas, essas sim, especializadas e exclusivamente credenciadas para o efeito.

Mas é isto que se pretende, que o professor não tenha qualquer intervenção científica no processo, que já nem pode designar-se de ensino-aprendizagem. Pretende-se evitar, senão impedir, que o professor seja algo mais do que um funcionário do ensino pré-formatado, tipo "fast-food", que nem precisa de saber nada sobre aquilo que está a "ensinar".

E isto, sob a bandeira e o pretexto, a meu ver perverso, de que é para aliviar o trabalho do professor e dispensar os alunos da seca de o ouvirem e aturarem.

Na pior das hipóteses, podemos pensar que o professor caiu num descrédito total, ou seja, nada do que ele possa dizer aos alunos merece a garantia, ou sequer o benefício da dúvida, de que não são disparates. E se os alunos (esses sim, instruídos) o disserem ao director da escola, este, prontamente, e sem indagações, acreditará.

Chegamos ao ponto em que a escola se tornou o lugar em que o ensino e a aprendizagem são a parte menos relevante da sua função institucional, não obstante se continuar a perseguir os professores, e mais ninguém, pelos resultados menos bons dos alunos.

sábado, 12 de março de 2022

Aproximações à verdade XVI

Estou a pensar nas aproximações à verdade do Hilário e da Amiga.
Hilário: 2+2=4
Amiga: correcto
Hilário: mas não é um facto
Amiga: facto é tu pensares e dizeres, não o significado do que pensas e dizes
Hilário: independentemente dos factos, de qualquer facto, 2+2=4
Amiga: concordo, não há nada que possa alterar essa relação de necessidade lógica
Hilário: a isto eu chamaria um imperativo categórico
Amiga: mas continua a não ser um facto, não depende, nem interfere nos factos
Hilário: há imperativos categóricos morais e não apenas lógico-matemáticos
Amiga: os imperativos categóricos morais fundamentam os julgamentos ou juízos de imoralidade dos actos humanos
Hilário: à semelhança do juízo de erro, se alguém afirmasse que 2+2=3, que seria fundamentado no imperativo inescapável de 2+2=4
Amiga: os imperativos morais, quando não são respeitados, têm sempre repercussões e implicações e efeitos e consequências danosas, indesejáveis de algum ponto de vista, o que nem sempre acontece no plano dos cálculos meramente abstractos.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Como só a harmonia consegue

Quem há-de dizer

Com todas as letras

Para as estrelas

E daí

Obter resposta

Numa língua que não existe

Aplacar em letra morta

O silêncio

Pisar escombros com a planta dos pés

E como antídoto ensurdecer

Com sofismas

Para dores fantasmáticas

Em doses homeopáticas

Diluídas na metafísica

Do maravilhoso aquário

De argumentos

Sem se molharem

Sem afundarem

Patinando artisticamente sobre uma superfície gelada

De postulados cosmológicos

E imunes às forças opostas

Como só a harmonia consegue

Em parcimoniosos compassos

Ou bélicas coreografias

Quem há-de sacrificar

Tudo o que resta

O que importa salvar

Não é a verdade

Nem do que sabemos

Nem do que dizemos

É o que somos

E o que fazemos

É o que as coisas são

Até se tornarem noutras coisas

Que não reconhecemos senão

Na nossa visão

Por mais desculpável que seja

A nossa falta de visão

Por mais que se agigante

O espectro da invisibilidade

Na luta que se encarniça de olhar para si mesma

Como inimiga

Que não pode evitar

Nem vencer

Nem servir de alimento a uma letra

Para não dizer pomba

Morta

Da paz.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Devia ser proibido mandar fazer guerra

Devia ser proibido mandar fazer guerra, mandar matar. 
Devia ser mais proibido do que matar. E mais condenável e mais inadmissível. 
Temos assistido a guerras que são impiedosas e desumanas máquinas de trituração às ordens de oligarcas de toda a espécie, detentores de faustosos e imerecidos privilégios, numa posição blindada às explosões e aos estilhaços, a que assistem com estrondoso prazer, entre caviar e champanhe, e imensa droga, pondo e dispondo da estratosfera em que se encapsulam, pela simples razão de não terem poder bastante para mais nada. 
Não temos assistido, nos últimos tempos, a revoltas de escravos, ou da plebe, do povo ou do proletariado... 
As revoluções já não são o que eram. 
Assistimos ao deboche e ao sadismo da guerra como violência exercida por criminosos a quem falta o que não conseguem obter pela violência e que, por isso mesmo, são os mais execráveis e miseráveis demónios em cujas mãos o progresso e o desenvolvimento, de tempos a tempos, não conseguem evitar cair. 
Isto vem a propósito de eu ter pensado na causa das guerras, ontem e hoje. 
Amanhã ver-se-á.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Problema de cepticismo

Todos temos a faculdade e a aptidão para constatar realidades e para escolher e defender aquilo que, em muitos casos, corresponde a factos naturais ou descreve com objectividade as coisas, ou conclui de modo válido uma argumentação, ou análise, ou subsunção, sobre a realidade, natural ou cultural.
A própria linguagem verbal é um repositório, ou reservatório, ou acúmulo, ou acervo, ou memória dinâmica, de verdades à espera de serem comprovadas.
Há sempre aquele problema, que é um problema de cepticismo inerente às condições das possibilidades de comunicação, que se instala entre a subjectividade e a objectividade e que a comunicação não resolve, nem consegue ultrapassar.
Tomemos, por exemplo, dois indivíduos que reconhecem que um objecto é matéria de determinadas características, que levam a caracterização dessa matéria até ao infinitamente infinitesimal, ou até ao ponto em que o objecto já deixou, há muito, no encadeamento da análise, de ser o que tinha começado por parecer. Ambos podem estar de acordo quanto ao ser o que é, e não haver controvérsia. Mas tanto não basta, porque ainda falta provar que estão certos. Não quer dizer que não estejam certos, mas a questão do conhecimento, da verdade da crença, não é tão simples como confiar nas evidências.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Não conhecemos nada fora da natureza

A natureza gera o homem, que gera, produz, a cultura. A natureza gera a cultura através do homem.
Se nunca tivesse havido humanidade, não teria havido a cultura humana.
Esta trivialidade pretende significar que não conhecemos nada fora da natureza e que é artificial distinguir realidade natural de realidade cultural, na medida em que esta não deixa de ser natural e de funcionar segundo a causalidade da natureza.

domingo, 23 de janeiro de 2022

O movimento como causalidade de tudo

O tempo é um tema fascinante, que nunca cansa, nem passados milhões de anos, qualquer que seja o instrumento de medida que se adopte, admitindo, no entanto, que o tempo do relógio é o menos relevante na perspectiva do poeta e da abelha e da mosca e do covid-19 e dos dinossauros... 

Mas o tempo dos relógios e da velocidade, da clepsidra e da tartaruga são outras formas de movimento... Estamos imbuídos de sentidos do tempo e do espaço, como as águias e as pombas, os golfinhos e as sardinhas, mas as estrelas e as galáxias, de que fazemos parte, não têm tempo. 

O tempo, nesta acepção física de realidade, não existe. 

O tempo é biológico. 

O que existe é o movimento. 

Nada do que existe, incluindo o tempo (parece contraditório com o que disse), não existiria sem movimento. 

E eu pergunto-me se é sequer concebível, imaginável, que deixe alguma vez de ser tudo movimento.

sábado, 15 de janeiro de 2022

Qual a causa do movimento que causa tudo?

O genuíno entusiasmo pelo conhecimento é contagiante e optimista, como só o conhecimento pode fazer que sejamos. Aliás, mesmo o pessimismo, por exemplo de um Schopenhauer, conquanto seja a constatação de uma realidade (com uma vontade não coincidente com a vontade da nossa realidade humana) que desejaríamos fosse outra, só pelo facto de a constatarmos já nos confere vantagens.
O pessimismo e o optimismo não são variáveis que o Newton ou o Einstein pudessem analisar através de um prisma, como se faz com a luz, ou que os niilistas pudessem descartar como irrealidades, fazendo tábua rasa do sofrimento e da morte, como se não existissem, ou que os realistas não entendessem como manifestações da mesma física que parece estar em tudo e por detrás de tudo, por nada haver que não seja físico, incluindo o pensamento mais estúpido ou o sentimento mais incompreensível.
Atrevo-me a pensar que, se há algo sem o qual nada aconteceria e tudo o que acontece deixaria de acontecer, esse algo é o movimento. Sem movimento haveria causalidade? Haveria alguma coisa?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Se houvesse um refúgio

Se houvesse um refúgio

Ninguém quereria lá ficar

Chegamos finalmente ao lugarejo

Que chamamos do voo da águia

Bebemos da nascente à entrada

Água que estava a jorrar

Sem temer dragões à espreita

Pelos buracos das construções ao vento

Que ouvíamos a respirar

Fingindo tomar-nos por donos

Deste pensamento

Do mais sagrado que havia

Naquele lugar

Tão longe das encostas nevadas

E dos picos de sol

Como o outono na floresta

Dos líquenes

Na clareira surgiu um vulto

De mulher sorridente

Que a todas as perguntas

Nos indicava em redor

O que havia

Sem sombra de dúvida.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Pensar pela própria cabeça

Porque as coisas não têm de ser como são, pensar pela própria cabeça, faz todo o sentido, apesar de não ser de todos os quadrantes que se faz bandeira e apelo ao acto de pensar pela própria cabeça, bem pelo contrário.
O indivíduo nem sempre chega a entender a diferença entre pensar e pensar pela própria cabeça. É uma dicotomia algo artificial e estranha, porque, em rigor, só se pode pensar com a própria cabeça e, mesmo quando pensamos sobre aquilo que é cultura, objectivação de pensamento, ideias, juízos, ainda que não através de objectificação mais ou menos efémera, seja ou não linguagem, ou meio de comunicação, sonora, escrita, visual, qualquer que seja a codificação usada (por ex., dizer amo para significar odeio, etc..) é a cabeça de um indivíduo que “imagina”, “pensa” o que, aparentemente, está pensado, por exemplo, num livro.
Mas podemos ter a certeza, podemos estar seguros de que ninguém pensa pela cabeça de ninguém? Creio que sim.
No entanto, o acto de pensar é apenas uma forma consciente de pensar. Pensar nem sempre corresponderá a um acto consciente. A consciência, aquilo que, neste contexto, considero condição para se poder falar de acto, constitui, no conjunto da vida humana, suponho eu, baseado em mero palpite do tempo que passamos a dormir, ou quase a dormir, distraídos ou em estado “quase comatoso”, sendo a parte da vida que mais directamente testemunhamos, não deixa de ser relativamente muito pequena, embora a que é representativa para a nossa memória, do cronómetro biográfico.
E não é por não estarmos conscientes dos nossos metabolismos fisiológicos e processos neurológicos que eles deixam de ocorrer. Aqui, a nossa cabeça pouco ou nada pode pensar em termos de acto de pensamento determinante do processo. Ninguém, aqui, sequer pensa, nem pela própria cabeça, nem pela cabeça de outrem (se isto fosse possível).
É, não obstante, perceptível a diferença entre pensar como mero descodificador num processo de comunicação e pensar como emissor.
Se, perante uma assembleia de sábios, eu tivesse que falar com a condição de lhes dizer apenas algo que eles não soubessem, em verdadeiro e absoluto nome próprio, sem me ser permitido recorrer a citações, ou quaisquer ideias que não fossem minhas, não sendo aceite sequer que me referisse a qualquer doutrina, autor, teoria, ideologia, devendo mostrar originalidade e conhecimento de tal modo que eles próprios nunca tivessem sequer suspeitado, a minha prova seria algo parecido com uma missão impossível e não teria nada a ver com uma prova acerca do que pensaram os outros, sábios ou não.
Naquela minha hipótese, eu teria que pensar pela própria cabeça.
O problema é que pensar pela própria cabeça não é tão cómodo, nem tão fácil, nem tão compensador, nem tão “inteligente” e “económico” e, do ponto de vista da comunicação, é um desafio com obstáculos brutais, tanto para quem emite, quanto para quem recebe.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Todas são uma

As mulheres

São tão secretas

Que só o poeta sabe

Que todas são uma

Imprescindível aparição

Que não acontece

Nas ocasiões mais felizes

Que nas tristes

Todas não são

E o poeta cuida

Que figurem na íntima narração

Das criações belas

Que povoam as telas

De quem confia sem receio

Em todo e qualquer devaneio

Que elas são.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

O que tens a dizer sobre o que quer que seja

Se o que tens a dizer

Sobre o amor

Ou o que quer que seja

É que já foi tudo dito por outros

Essa charada

De ti

Não diz senão

Que estás de porta trancada

Mas ninguém atira uma estrela

Pela janela

Como quem dispensa dons

De profetizar

A partir do céu

Vestires-te de conchas

Das profundezas marinhas

Não te tornará mais cromo

Do que apanhares banhos de sol

Ao luar

Entre os ópios do povo

Que venha o diabo e escolha.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Virtudes e defeitos do capitalismo e do liberalismo

Os capitalistas e os liberais vão ter de aceitar e de se sujeitar, se outra não for a vontade democrática actualizada em função da evolução histórica, às novas condições de promoção e desenvolvimento de iniciativas económicas, financeiras, laborais, impostas pelos ecossistemas e suas implicações, ou pelos imperativos legais ditados pela actual realidade do conhecimento e dos poderes das tecnologias. 
Mas isso não quer dizer que eles tenham de aceitar ou de se sujeitar a algo de mau ou de menos bom para eles. Só quer dizer, nesse âmbito, que, ou o capitalismo e o liberalismo serão condicionados e limitados para áreas de intervenção económica mais restritas e consentâneas com a necessidade de sustentabilidade social e ambiental e natural, ou, concomitantemente, poder-se-ão assumir como parte da solução, serem factores da mudança e agirem como motores e agentes concorrenciais das tão urgentes e hercúleas mudanças que os actuais paradigmas políticos, económicos, sociais e financeiros e jurídicos, reclamam e exigem. 
Das muitas críticas que se podem fazer ao capitalismo e ao liberalismo tal como os conhecemos desde a revolução industrial, algumas podem ter a ver com a aptidão do capitalismo e do liberalismo para gerar e promover riqueza, através da exploração desenfreada e insustentável e injusta de recursos, mas esta aptidão também pode funcionar ou operar, com igual eficácia, nas actividades de salvaguarda e de preservação e de desenvolvimento de soluções economicamente interessantes de grande envergadura, com benefícios directos para a humanidade que talvez fossem ou sejam impossíveis de alcançar tão eficazmente num modo de produção diferente, de tipo colectivista ou socialista. 
As virtudes do capitalismo e do liberalismo não são tantas que obriguem os capitalistas e os liberais a serem virtuosos, mas também não são tão poucas que não permitam que estes o sejam, como devem ser.

sábado, 20 de novembro de 2021

Direito, igualdade, imperativo categórico

Imperativo categórico – é a norma a que necessariamente deves obedecer por ser o princípio e critério necessário de um juízo de direito. A ideia de direito, a definição de direito, implica que a tua norma é também a norma do outro e que, consequentemente, serás julgado pela norma pela qual julgares o outro. 
A esfera dos teus direitos só encontra fundamento e justificação na medida em que fundamenta e justifica a esfera de direitos do outro. Qualquer direito que te arrogues só será direito se for universal. Por ex., se alguém reclamar para si o direito a ter um avião, é imperativo categórico que qualquer outra pessoa possa igualmente reclamar esse direito. Mas o imperativo categórico, em termos de consciência política e de justiça social e ambiental, conduz a que não seja direito, por exemplo, que um indivíduo se prevaleça e se aproveite de mais recursos do que aqueles que lhe são estritamente necessários se calculássemos a parte dos recursos disponíveis estritamente necessários a cada ser humano. Grosso modo, por ex., se é impossível que todas as pessoas tenham um avião, eu não tenho direito a ter um. Ou, por outras palavras, o imperativo categórico não comporta que haja dois pesos e duas medidas. 
O teu quinhão não pode ser composto à custa e com prejuízo do quinhão do outro, entendido como todo e qualquer outro ser humano. 
O princípio da igualdade é o reconhecimento e a expressão de um imperativo categórico: a norma que escolheres para ti é válida para o(s) outro(s). No fundo, corresponde ao princípio da não contradição. 
A discussão em torno das questões de justiça social teria imenso a ganhar, seria muito mais fértil, se não se distraísse do imperativo categórico da igualdade. 
Até podes arvorar-te em medida e critério de todas as coisas, mas é imperativo categórico, quer dizer, não tens razão alguma para recusar, que todas e quaisquer pessoas façam o mesmo. 
A menos que faças como os profetas e o messias, que apelaram à sua natureza alegadamente divina.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Cápsulas de optimismo

As transformações sofridas

Qual esplendor de cápsulas de optimismo

De janelas viradas

A futuros certos

Prometem recordes do lançamento de princípios

Nos jogos olímpicos da volúpia

Nas vias travessas do amor

E das agonias do ódio

Ao virar da esquina

Ninfas descobertas a caminhar

Em chão de urtigas

Por entre lápides que são quedas

De muros que soterram

Quem vive a matar o tempo

Não basta matar

Saudades  

Matam mais que o sal

Os construtores de liberdade

Percebem que a paciência

É uma ferramenta chave

Para desactivar desastres

E que a atenção nunca é de mais

Quando se trata de resolver problemas

Democracia é parte da solução

Não existe sem gente

Nem pontes

Nem ruas em todos os sentidos

Por onde erra quem foge

À discussão.

sábado, 23 de outubro de 2021

Democracia e Cultura (visível e escura)


O tema Democracia e Cultura é susceptível de árdua, mas muito proveitosa ponderação e análise, no âmbito da democratização, seja da cultura, seja da própria organização política, que o é da cultura, se considerarmos, como eu considero, que cultura é acto humano, tendo em mente que acto é uma forma de manifestação do indivíduo humano, racional, voluntária, consciente, num quadro de possibilidades das quais ele escolhe a melhor. 

A cultura é isto. É tudo aquilo que a humanidade, através dos indivíduos que a constituem, produziu, de alguma forma objectivada, em sons, imagens, sinais, artefactos, enfim, meios de comunicação, construções, marcas, registos, efeitos, resultados, intencionalmente, exercendo uma escolha, numa panóplia de possibilidades, entre as quais, escolher não escolher, conquanto as não escolhas não tenham originado cultura, por falta de objectivação. Essa matéria escura da cultura, ainda hoje, até pode ser mais abundante e determinante do que a outra, que se manifesta em acto de objectivação, mas não deixa rasto.

A organização política da sociedade, pela sua própria natureza, é cultura que se objectiva. E entre os seus desígnios está alargar ou encolher o horizonte de possibilidades de escolha, sendo que a possibilidade de o indivíduo escolher não escolher, está sempre presente, quer o indivíduo tenha consciência, ou não, de que não escolher tem implicações, corresponde a uma escolha.

Democratizar a cultura faz sentido, até porque, se a cultura é produzida pelos humanos, nem todos os humanos produzem cultura em igual medida e nenhum humano produziu ou produz a cultura toda. De igual modo, nenhum humano tem acesso à cultura toda, senão a uma pequeníssima parte.

A democracia, porém, enquanto domínio da expressão da maioria, exprime os interesses dessa maioria como eles se configuram no quadro de possibilidades vigente. A democracia, por si só, não altera o quadro de possibilidades, porque este é uma das limitações, condições, da democracia. 

E democratizar a cultura não significa, nem corresponde a produzir cultura democraticamente.