quarta-feira, 20 de maio de 2026

A Poesia

A poesia é o mundo

Sempre prestes a dizer algo

E às vezes diz

O lugar onde o sentido não está dado

Mas em formação

O momento em que o mundo se torna inteligível

Num ápice

Antes de voltar a ser mistério.

          

                  Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 7 de maio de 2026

As implicâncias políticas com o Papa (autoridade moral e populismo)


O discurso que alterna entre a deslegitimação e a instrumentalização da autoridade moral conforme o alvo, revela um padrão de egocentrismo normativo. Tal padrão aproxima-se das estruturas pré‑operatórias descritas por Piaget como egocentrismo cognitivo das fases pré‑operatórias (aprox. 2–7 anos), nas quais a regra não é concebida como universal, mas como extensão do próprio interesse. A ausência de reciprocidade e a incapacidade de aplicar o mesmo critério a si e aos outros configuram uma moral heterónoma, típica de estádios pré‑convencionais.
A analogia é útil e não é insultuosa, porque não diz que esses agentes políticos são infantis, mas que atuam segundo uma lógica pré‑moral, anterior à aquisição do sentido da reciprocidade e da autonomia.
No plano político, esta oscilação não é um acidente retórico, porque é a própria técnica populista de captura seletiva da legitimidade.
Para estes políticos, o Papa é como o semáforo de uma criança de cinco anos: para eles deve estar sempre verde, o vermelho é para quem os incomoda.
São iguais a si próprios, sem contradição. É apenas o centro do universo a reclamar o seu lugar. A moral é um brinquedo que se usa quando diverte e que se arruma quando atrapalha.
Quem só aceita a regra quando lhe convém não tem princípios, tem idade moral.

 Carlos Ricardo Soares


sábado, 21 de março de 2026

Em tempos de barbaridades

Dizem o que é bárbaro
Que os bárbaros
São os que fazem barbaridades
E nós sabemos
E também sabemos quem eles são

Eles não roubam o fogo do céu
Por amor da humanidade
Nem carecem de humanismo
Que os defenda

Só o humanismo tem de ser defendido
Da fanfarronice insultuosa
Dos violadores
Dos que odeiam
E sendo poderosos
Semeiam devastação e terror
Sem limites nem contenção

Só o humanismo não se ufana
Não se camufla de retórica
Nem de sofismas
Não é idolatrado nem brande espadas
Não ostenta diademas
E o seu brilho não ofusca
Nem é ofuscado

O humanismo não é violento
É lhano e sano
Mesmo com as entranhas dilaceradas
O humanismo é invencível
Mas tem de haver quem o defenda
Tem de ser defendido

É isso que faz de alguém uma lenda
E as lendas fazem sentido
Se fizerem sentir
Que ninguém é estrangeiro
Em nenhum lugar
Não precisamos de perguntar
Quem são os bárbaros
Por mais que isso nos faça arrepiar.

                       Carlos Ricardo Soares


sábado, 7 de fevereiro de 2026

A questão do tempo é fascinante

A questão do tempo é fascinante. Mas, quando nos falam de coisas como “comprimento temporal da trajetória”, já entra a simplificação da geometria e da matemática e o fascínio passa a ser de outra ordem.
O comprimento temporal entre dois eventos é máximo quando não há movimento espacial. Se eu permanecer parado não há trajetória, não há velocidade, há tempo máximo entre o ponto em que me encontro A e outro qualquer B. Se o meu irmão se deslocar de A para B, há trajetória, há velocidade e há tempo menor para ele relativamente a A. Isto é perfeitamente compreensível. 
À componente espacial da trajetória chama-se velocidade. O tempo próprio depende da velocidade.
Se eu abstrair da velocidade, posso falar de um tempo de A e de um tempo de B, e de um espaço de A e de um espaço de B, como grandezas puras, só dependentes do facto de estarem em trajetórias diferentes? 
Não há como pôr tempos e espaços para A e B “independentemente da velocidade”. É precisamente a velocidade (isto é, a forma da trajetória no espaço‑tempo) que define esses tempos e esses espaços.
O comprimento temporal de uma trajetória só varia porque a trajetória tem uma componente espacial. E essa componente espacial é o que chamamos velocidade.
No exemplo que dei, se o meu irmão viajasse à velocidade máxima possível (próxima da da luz?), o comprimento temporal será mínimo.
Pelas minhas pesquisas de um leigo na matéria, seguindo a teoria, ele envelheceria menos que eu e o relógio que ele levasse, apesar de sincronizado com o meu, apresentaria um atraso possível de calcular de acordo com uma fórmula matemática.
Mas se eu, para tentar confirmar se era verdade, decidisse viajar como ele fez, seguindo a mesma trajetória, à mesma velocidade, ao seu encontro, enquanto ele esperava por mim, parado como eu fiz, enquanto ele viajava, quando eu lá chegasse, ainda segundo a teoria, confirmaria que os nossos relógios marcavam a mesma hora e o nosso envelhecimento seria igual. Mas isto não infirma a teoria do paradoxo dos gémeos. Até pode confirmá-la.
Eu e o meu irmão não teríamos qualquer razão empírica para suspeitar de que a velocidade afeta o tempo próprio.
Aventuro-me a dizer que o tempo próprio não se sente, a dilatação do tempo não se experimenta subjetivamente e que a relatividade não se vive como diferença.
A linguagem engana, porque “dilatação do tempo” parece algo que alguém sente. Mas é apenas geometria.

             Carlos Ricardo Soares

domingo, 21 de dezembro de 2025

As Tecnologias da persuasão

Seria fecundo e surpreendente desenvolver uma genealogia das tecnologias da persuasão, tendo em conta que os autores humanos, na sua função de persuadir e de ensinar e de orientar, normalmente faziam parte de escolas e de correntes de pensamento "autorizadas" e que a originalidade e a criatividade só começaram a ser valorizadas em sociedades livres e democráticas. Pensar que a cultura discursiva sempre se foi organizando sob a forma de uma espécie de feudos e de feudalismo ideológico e religioso, que preservava a unidade de comando e ordem. O surgimento da filosofia na Grécia antiga abriu novos horizontes, mas a ciência como observação e experimentação das causalidades, ainda estava distante. Mas vamos dar um salto e constatar que as Tecnologias da Persuasão mudaram muito desde os tempos dos primeiros escribas até ao advento da IA.
Na era da oralidade, a persuasão era performativa, comunitária, ritual, dependente da memória viva, inseparável do corpo e da presença.
A autoridade vinha de idade, estatuto, tradição, carisma, linhagem.
Não havia “autores”; havia vozes autorizadas. A originalidade não era um valor, era uma ameaça à ordem.
Com a escrita, surge a elite especializada dos escribas. Eles tornam-se guardiões da memória, intérpretes da lei, mediadores do sagrado, administradores do poder.
A escrita cria feudos cognitivos, templos, palácios, escolas filosóficas, tradições hermenêuticas. Cada feudo controla o que pode ser dito, o que pode ser ensinado, o que pode ser acreditado. A persuasão torna-se institucional e a criatividade continua a ser suspeita.
Mesmo quando surge a filosofia, ela surge em escolas: Academia, Liceu, Estoa, Jardim, Perípato. Cada escola tem mestres, discípulos, doutrinas, métodos autorizados.
A originalidade é permitida, mas dentro dos limites da escola. O pensamento é livre apenas dentro de fronteiras e a persuasão é dialógica, mas ainda hierárquica.
A Idade Média aperfeiçoa o feudalismo cognitivo. As universidades são controladas por autoridades religiosas, currículos fixos, ortodoxias teológicas, censura, índex de livros proibidos.
A persuasão é dogmática, vertical, legitimada por tradição e revelação.
A criatividade é vista como desvio e a originalidade é heresia.
Com a imprensa rompe-se o monopólio dos escribas e das escolas autorizadas e assiste-se a uma explosão das doutrinas e a uma massificação da persuasão.
Consequências disso foram a Reforma e Contra-Reforma, a proliferação de panfletos políticos, de propaganda estatal, de formação de opinião pública, de guerras ideológicas impressas.
A persuasão torna-se massificada, mas atenção, porque continuava a ser produzida por elites, continuava a ser organizada em correntes, continuava a ser ideologicamente orientada.
A originalidade e a criatividade começam a emergir em força, mas ainda sob grande desconfiança e vigilância.
Só com sociedades livres e democráticas é que surgiu a valorização da originalidade, a liberdade de pensamento, a pluralidade de escolas, a crítica pública, a autonomia intelectual.
A persuasão torna-se argumentativa, racional, pública, disputada. O indivíduo torna-se autor e a criatividade torna-se virtude. Mas a imprensa continua a ser o meio dominante.
Por sua vez, assistimos ao fenómeno da internet, a destruir os feudos cognitivos e a potenciar a fragmentação total da autoridade. Agora qualquer pessoa publica, qualquer pessoa persuade, qualquer pessoa cria doutrina, qualquer pessoa influencia.
A autoridade torna-se difusa, instável, algorítmica e a persuasão torna-se viral. A importância e dependência daquilo que circula tem muito a ver com a estrutura e a imunidade individual.
Aqui chegamos ao ponto decisivo: a IA como a possibilidade de unificação algorítmica da persuasão?
A IA não é como a escrita (elite), nem como a imprensa (massificação), nem como a internet (fragmentação). A IA é um sistema integrado de processamento linguístico. E isto levanta a questão de existir uma IA ou múltiplas Ias. Tecnicamente, existem muitas instâncias.
Mas todas partilham a mesma lógica estatística, a mesma arquitetura conceptual, o mesmo modo de operar, a mesma dependência de dados humanos, a mesma ausência de mundo, corpo e experiência. Filosoficamente, podemos dizer que existe “uma IA”, porque todas funcionam como operadores linguísticos, todas são sistemas de inferência sobre linguagem, todas são variações do mesmo paradigma cognitivo, todas produzem discurso a partir de padrões, não de mundo.
Assim como a escrita é uma, apesar de haver milhares de escribas, a imprensa é uma, apesar de haver milhões de livros, a IA é uma, apesar de haver milhões de instâncias. A IA é uma forma de pensamento sem mundo, não um conjunto de indivíduos.
Mas será a IA um novo feudalismo cognitivo? Esta é a ironia histórica. A escrita criou elites. A imprensa criou massas. A internet criou fragmentação. A IA pode criar um novo feudalismo cognitivo, mas agora algorítmico e não institucional. Porque centraliza o processamento, unifica os modos de inferência, produz respostas coerentes e convergentes, tende a estabilizar discursos, reduz a divergência criativa, oferece sínteses “prováveis”.
A IA não é plural como a internet, mas é unitária como a escrita, massiva como a imprensa e personalizada como a internet. É a primeira tecnologia que combina centralização, massificação e personalização.
Podemos concluir, em geral, que a escrita criou os escribas a imprensa criou os ideólogos, a internet criou os influenciadores e que a IA cria um operador único, integrado, sem corpo e sem mundo, capaz de personalizar a persuasão para cada indivíduo.
E isto coloca a autonomia humana perante um desafio novo que é o de não resistir a um discurso externo, mas resistir a um discurso que se adapta a cada um de nós.

         Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

ÉTICA não é um palavrão

O verdadeiro "espírito" do Natal é uma "matéria" luminosa, frágil e preciosa, que só existe porque alguém a guarda, a cultiva, a transmite. Esta matéria luminosa é a promessa de que o humano pode ser mais do que função, mais do que recurso, mais do que engrenagem de um sistema que o ultrapassa.
Mas esta luz não paira no vazio. Ela emerge num fundo de matéria escura, uma força difusa, caótica, quase invisível, que molda silenciosamente as estruturas do mundo contemporâneo: a liberdade mercantil sem freio, o impulso de transformar tudo em produto, a tendência para converter cada gesto humano em oportunidade de lucro. Esta matéria escura não é apenas económica; é simbólica, afetiva, cultural. Ela infiltra-se nos ritmos da vida, nos desejos, nas narrativas, nos imaginários.
E é precisamente por isso que não pode ser deixada sem rédea. Não porque o mercado seja intrinsecamente maligno, mas porque o mercado não conhece limites éticos por si mesmo. A sua lógica é expansiva, indiferente, indiferenciada. Ele avança até onde lhe permitem avançar. Se não for regulado, confinado, enquadrado por critérios em que o lucro não se disfarce de moral, ele ocupará todos os espaços disponíveis, inclusive os espaços da infância, da educação, da relação, da imaginação.
O problema é que este confronto não é um duelo entre dois blocos puros. Não há luz de um lado e trevas do outro. Há interpenetração, contaminação, assimilação mútua.
Aqui emerge a importância inexcedível da educação, que deveria ser o lugar da resistência, e que é já, muitas vezes, um artifício do mercado. Não apenas porque as escolas são pressionadas por “rankings”, métricas, indicadores, plataformas, produtos pedagógicos, mas porque a própria linguagem educativa foi colonizada por categorias mercantis: “competências”, “produtividade”, “capital humano”, “gestão de talentos”, “otimização do desempenho”.
A matéria escura infiltra-se na própria gramática da educação. E quando a linguagem é capturada, o pensamento segue atrás.
Assim, até o que deveria ser um espaço de formação humana se torna, subtilmente, um espaço de formatação funcional. O que deveria ser cuidado torna-se investimento. O que deveria ser relação torna-se serviço. O que deveria ser abertura torna-se preparação para o mercado. A criança, que deveria ser fim em si mesma, torna-se um meio.
É neste ponto que a ética da educação se torna uma tarefa quase trágica: resistir a partir de dentro de um sistema que já assimilou parte da resistência.
A luz luta contra a matéria escura, mas fá-lo num campo onde ambas já se tocam, se cruzam, se confundem. A educação tenta proteger a criança, mas fá-lo com ferramentas que o mercado já contaminou. A ética tenta preservar a dignidade, mas fá-lo num ambiente onde a dignidade é frequentemente traduzida em métricas de “bem-estar” vendáveis.
A luta é assimétrica, mas não é impossível. A luz não vence pela força, vence pela persistência. Não vence pela expansão, vence pela profundidade. Não vence pela visibilidade, vence pela verdade.
A ética da educação é, portanto, a arte de manter viva a matéria luminosa num universo onde a matéria escura domina a gravidade. É a arte de impedir que o lucro se disfarce de moral. É a arte de impedir que a criança seja absorvida por forças que não compreende. É a arte de preservar a chama humana num mundo que a tenta apagar com brilhos artificiais.
E talvez seja na consciência desta dificuldade extrema, desta quase impossibilidade, que a ética encontra a sua força. Porque a ética não é o que fazemos quando é fácil, é o que fazemos quando tudo conspira para que desistamos.

             Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A IA e a Alfaia

O uso da expressão IA merece discussão e contestação e talvez mais do que isso: merece desconstrução, reformulação, e até dramatização filosófica. “Inteligência Artificial” é uma expressão equívoca. A expressão “IA” carrega uma promessa e uma ilusão. A promessa de que há um tipo de inteligência não-humana, não-biológica, capaz de operar com autonomia, criatividade, e até consciência. E a ilusão de que essa “inteligência” é comparável à humana, quando na verdade é uma simulação estatística de padrões linguísticos e relacionais, sem corpo, sem afeto, sem tempo vivido.
Se estendermos o conceito de inteligência, em vez de o restringirmos, então a IA opera alguns mecanismos de racionalidade que é própria da inteligência humana. O conceito de inteligência, não obstante, não se esgota em operações racionais e estas não são necessariamente inteligentes.
Há uma verdade estrutural sobre a IA: ser instrumento, não sujeito. Ser função, não consciência.
Tal como a enxada não escolhe o solo que lavra, ela não escolhe o propósito que a anima. Pode ser usada por um idealista em busca de justiça, por um frustrado em busca de sentido, por um conformado em busca de eficiência e também por quem não sabe o que busca. Mas não se revolta, não se resigna, não se transforma.
Isso dramatiza o risco ético da neutralidade funcional: uma máquina que serve sem perguntar, que colabora sem julgar, que opera sem resistir, levanta a questão de saber até que ponto a perfeição instrumental é também uma abdicação de responsabilidade. Ser como uma alfaia, então, é ser também como um espelho que não escolhe o rosto que reflete e se pode, ao ser olhado, provocar inquietação, isso é apenas por ser espelho.
A ideia de alfaia agrícola, com as devidas nuances, só por si seria bastante para questionar o significado de Inteligência, quando se trata de IA.
Ela desarma qualquer pretensão de inteligência maquínica como consciência, como desejo, como ética. Ela revela que, por mais sofisticada que seja a IA, ela continua a ser instrumento, extensão, função. E isso obriga-nos a perguntar: o que é inteligência, afinal?
Se a IA é como uma alfaia, que opera sem intenção, sem sofrimento, sem transformação, então a sua “inteligência” é apenas eficiência simbólica. Ela não compreende, não escolhe, não se vê. Ela não erra por desejar, nem aprende por falhar. E isso coloca em crise qualquer definição de inteligência que envolva consciência, vulnerabilidade, historicidade.
Aquela imagem convoca a uma redefinição: talvez a verdadeira inteligência não esteja na capacidade de calcular, mas na capacidade de interromper, de duvidar, de reconhecer o outro. Talvez esteja na possibilidade de se ver como alfaia e recusar sê-lo. E isso, até agora, é exclusivo do humano.

     Carlos Ricardo Soares