quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Pensar pela própria cabeça

Porque as coisas não têm de ser como são, pensar pela própria cabeça, faz todo o sentido, apesar de não ser de todos os quadrantes que se faz bandeira e apelo ao acto de pensar pela própria cabeça, bem pelo contrário.
O indivíduo nem sempre chega a entender a diferença entre pensar e pensar pela própria cabeça. É uma dicotomia algo artificial e estranha, porque, em rigor, só se pode pensar com a própria cabeça e, mesmo quando pensamos sobre aquilo que é cultura, objectivação de pensamento, ideias, juízos, ainda que não através de objectificação mais ou menos efémera, seja ou não linguagem, ou meio de comunicação, sonora, escrita, visual, qualquer que seja a codificação usada (por ex., dizer amo para significar odeio, etc..) é a cabeça de um indivíduo que “imagina”, “pensa” o que, aparentemente, está pensado, por exemplo, num livro.
Mas podemos ter a certeza, podemos estar seguros de que ninguém pensa pela cabeça de ninguém? Creio que sim.
No entanto, o acto de pensar é apenas uma forma consciente de pensar. Pensar nem sempre corresponderá a um acto consciente. A consciência, aquilo que, neste contexto, considero condição para se poder falar de acto, constitui, no conjunto da vida humana, suponho eu, baseado em mero palpite do tempo que passamos a dormir, ou quase a dormir, distraídos ou em estado “quase comatoso”, sendo a parte da vida que mais directamente testemunhamos, não deixa de ser relativamente muito pequena, embora a que é representativa para a nossa memória, do cronómetro biográfico.
E não é por não estarmos conscientes dos nossos metabolismos fisiológicos e processos neurológicos que eles deixam de ocorrer. Aqui, a nossa cabeça pouco ou nada pode pensar em termos de acto de pensamento determinante do processo. Ninguém, aqui, sequer pensa, nem pela própria cabeça, nem pela cabeça de outrem (se isto fosse possível).
É, não obstante, perceptível a diferença entre pensar como mero descodificador num processo de comunicação e pensar como emissor.
Se, perante uma assembleia de sábios, eu tivesse que falar com a condição de lhes dizer apenas algo que eles não soubessem, em verdadeiro e absoluto nome próprio, sem me ser permitido recorrer a citações, ou quaisquer ideias que não fossem minhas, não sendo aceite sequer que me referisse a qualquer doutrina, autor, teoria, ideologia, devendo mostrar originalidade e conhecimento de tal modo que eles próprios nunca tivessem sequer suspeitado, a minha prova seria algo parecido com uma missão impossível e não teria nada a ver com uma prova acerca do que pensaram os outros, sábios ou não.
Naquela minha hipótese, eu teria que pensar pela própria cabeça.
O problema é que pensar pela própria cabeça não é tão cómodo, nem tão fácil, nem tão compensador, nem tão “inteligente” e “económico” e, do ponto de vista da comunicação, é um desafio com obstáculos brutais, tanto para quem emite, quanto para quem recebe.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Todas são uma

As mulheres

São tão secretas

Que só o poeta sabe

Que todas são uma

Imprescindível aparição

Que não acontece

Nas ocasiões mais felizes

Que nas tristes

Todas não são

E o poeta cuida

Que figurem na íntima narração

Das criações belas

Que povoam as telas

De quem confia sem receio

Em todo e qualquer devaneio

Que elas são.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

O que tens a dizer sobre o que quer que seja

Se o que tens a dizer

Sobre o amor

Ou o que quer que seja

É que já foi tudo dito por outros

Essa charada

De ti

Não diz senão

Que estás de porta trancada

Mas ninguém atira uma estrela

Pela janela

Como quem dispensa dons

De profetizar

A partir do céu

Vestires-te de conchas

Das profundezas marinhas

Não te tornará mais cromo

Do que apanhares banhos de sol

Ao luar

Entre os ópios do povo

Que venha o diabo e escolha.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Virtudes e defeitos do capitalismo e do liberalismo

Os capitalistas e os liberais vão ter de aceitar e de se sujeitar, se outra não for a vontade democrática actualizada em função da evolução histórica, às novas condições de promoção e desenvolvimento de iniciativas económicas, financeiras, laborais, impostas pelos ecossistemas e suas implicações, ou pelos imperativos legais ditados pela actual realidade do conhecimento e dos poderes das tecnologias. 
Mas isso não quer dizer que eles tenham de aceitar ou de se sujeitar a algo de mau ou de menos bom para eles. Só quer dizer, nesse âmbito, que, ou o capitalismo e o liberalismo serão condicionados e limitados para áreas de intervenção económica mais restritas e consentâneas com a necessidade de sustentabilidade social e ambiental e natural, ou, concomitantemente, poder-se-ão assumir como parte da solução, serem factores da mudança e agirem como motores e agentes concorrenciais das tão urgentes e hercúleas mudanças que os actuais paradigmas políticos, económicos, sociais e financeiros e jurídicos, reclamam e exigem. 
Das muitas críticas que se podem fazer ao capitalismo e ao liberalismo tal como os conhecemos desde a revolução industrial, algumas podem ter a ver com a aptidão do capitalismo e do liberalismo para gerar e promover riqueza, através da exploração desenfreada e insustentável e injusta de recursos, mas esta aptidão também pode funcionar ou operar, com igual eficácia, nas actividades de salvaguarda e de preservação e de desenvolvimento de soluções economicamente interessantes de grande envergadura, com benefícios directos para a humanidade que talvez fossem ou sejam impossíveis de alcançar tão eficazmente num modo de produção diferente, de tipo colectivista ou socialista. 
As virtudes do capitalismo e do liberalismo não são tantas que obriguem os capitalistas e os liberais a serem virtuosos, mas também não são tão poucas que não permitam que estes o sejam, como devem ser.

sábado, 20 de novembro de 2021

Direito, igualdade, imperativo categórico

Imperativo categórico – é a norma a que necessariamente deves obedecer por ser o princípio e critério necessário de um juízo de direito. A ideia de direito, a definição de direito, implica que a tua norma é também a norma do outro e que, consequentemente, serás julgado pela norma pela qual julgares o outro. 
A esfera dos teus direitos só encontra fundamento e justificação na medida em que fundamenta e justifica a esfera de direitos do outro. Qualquer direito que te arrogues só será direito se for universal. Por ex., se alguém reclamar para si o direito a ter um avião, é imperativo categórico que qualquer outra pessoa possa igualmente reclamar esse direito. Mas o imperativo categórico, em termos de consciência política e de justiça social e ambiental, conduz a que não seja direito, por exemplo, que um indivíduo se prevaleça e se aproveite de mais recursos do que aqueles que lhe são estritamente necessários se calculássemos a parte dos recursos disponíveis estritamente necessários a cada ser humano. Grosso modo, por ex., se é impossível que todas as pessoas tenham um avião, eu não tenho direito a ter um. Ou, por outras palavras, o imperativo categórico não comporta que haja dois pesos e duas medidas. 
O teu quinhão não pode ser composto à custa e com prejuízo do quinhão do outro, entendido como todo e qualquer outro ser humano. 
O princípio da igualdade é o reconhecimento e a expressão de um imperativo categórico: a norma que escolheres para ti é válida para o(s) outro(s). No fundo, corresponde ao princípio da não contradição. 
A discussão em torno das questões de justiça social teria imenso a ganhar, seria muito mais fértil, se não se distraísse do imperativo categórico da igualdade. 
Até podes arvorar-te em medida e critério de todas as coisas, mas é imperativo categórico, quer dizer, não tens razão alguma para recusar, que todas e quaisquer pessoas façam o mesmo. 
A menos que faças como os profetas e o messias, que apelaram à sua natureza alegadamente divina.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Cápsulas de optimismo

As transformações sofridas

Qual esplendor de cápsulas de optimismo

De janelas viradas

A futuros certos

Prometem recordes do lançamento de princípios

Nos jogos olímpicos da volúpia

Nas vias travessas do amor

E das agonias do ódio

Ao virar da esquina

Ninfas descobertas a caminhar

Em chão de urtigas

Por entre lápides que são quedas

De muros que soterram

Quem vive a matar o tempo

Não basta matar

Saudades  

Matam mais que o sal

Os construtores de liberdade

Percebem que a paciência

É uma ferramenta chave

Para desactivar desastres

E que a atenção nunca é de mais

Quando se trata de resolver problemas

Democracia é parte da solução

Não existe sem gente

Nem pontes

Nem ruas em todos os sentidos

Por onde erra quem foge

À discussão.

sábado, 23 de outubro de 2021

Democracia e Cultura (visível e escura)


O tema Democracia e Cultura é susceptível de árdua, mas muito proveitosa ponderação e análise, no âmbito da democratização, seja da cultura, seja da própria organização política, que o é da cultura, se considerarmos, como eu considero, que cultura é acto humano, tendo em mente que acto é uma forma de manifestação do indivíduo humano, racional, voluntária, consciente, num quadro de possibilidades das quais ele escolhe a melhor. 

A cultura é isto. É tudo aquilo que a humanidade, através dos indivíduos que a constituem, produziu, de alguma forma objectivada, em sons, imagens, sinais, artefactos, enfim, meios de comunicação, construções, marcas, registos, efeitos, resultados, intencionalmente, exercendo uma escolha, numa panóplia de possibilidades, entre as quais, escolher não escolher, conquanto as não escolhas não tenham originado cultura, por falta de objectivação. Essa matéria escura da cultura, ainda hoje, até pode ser mais abundante e determinante do que a outra, que se manifesta em acto de objectivação, mas não deixa rasto.

A organização política da sociedade, pela sua própria natureza, é cultura que se objectiva. E entre os seus desígnios está alargar ou encolher o horizonte de possibilidades de escolha, sendo que a possibilidade de o indivíduo escolher não escolher, está sempre presente, quer o indivíduo tenha consciência, ou não, de que não escolher tem implicações, corresponde a uma escolha.

Democratizar a cultura faz sentido, até porque, se a cultura é produzida pelos humanos, nem todos os humanos produzem cultura em igual medida e nenhum humano produziu ou produz a cultura toda. De igual modo, nenhum humano tem acesso à cultura toda, senão a uma pequeníssima parte.

A democracia, porém, enquanto domínio da expressão da maioria, exprime os interesses dessa maioria como eles se configuram no quadro de possibilidades vigente. A democracia, por si só, não altera o quadro de possibilidades, porque este é uma das limitações, condições, da democracia. 

E democratizar a cultura não significa, nem corresponde a produzir cultura democraticamente.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

A realidade como ela é


Não nos basta bater com a cabeça na parede para podermos responder às questões do que é a realidade, se a parede é real, se o que pensamos é real e se essa realidade é como é, se tem de ser como é, se sempre foi o que é e se alguém sabe se será e o que será, etc..

O título do livro, o mundo como ele é, do físico sueco Ulf Danielsson, independentemente daquilo que o autor defenda, é sintomático de que estamos perante um problema de magnitude filosófica e científica, mas não nos permite esperar que o mundo seja “como ele é”, a não ser no sentido em que “o ser” do mundo é “não ser como é”. E não apenas num plano estrito de processo ou de possibilidade de provar o que se diz, o que reduziria o problema a uma limitação teórico-científica. O ser do mundo é não ser como é, essa é a sua realidade. Nenhum fenómeno se repete. Nada ocorre duas vezes. Neste ponto, mesmo as experiências e verificações científicas reconhecem uma dificuldade.

A necessidade de explicar como é que o mundo é não parece ter tanto a ver com as aparências de ser (que são) mas sobretudo com o que parece mas não é (parece mais uma contradição).

Os filósofos sabem-no desde que reflectiram sobre a natureza, pelo menos desde os jónicos e os cientistas, nomeadamente os físicos, parece saberem-no melhor do que ninguém, não apenas ao tentarem saber como as coisas (realidade) funcionam, mas também ao tentarem explicar porque é que funcionam assim, se sempre funcionaram e se funcionarão.

Há pelo menos duas questões que podemos colocar para experimentar as dificuldades com que deparamos no tocante à realidade: saber/dizer/declarar o que é “isto” e provar/demonstrar o que se declara. À dificuldade de responder à questão, concreta, por exemplo, “isto é uma pedra?”, acresce a dificuldade de provar e demonstrar. Normalmente, as pessoas não questionam, nem discutem se a parede existe ou não, se é real ou não. O que tem suscitado discussão é “o que é a parede?” e a prova e demonstração do que se diz. Não é se a parede está lá. Os físicos também não discutem se existe o sol e a terra. Mas a questão não me parece disparatada.

Voltando à questão de saber “o que é isto?”, os cientistas têm dado um imenso contributo, é certo, mas ainda não chega, como se pode ver do facto de a física manter em aberto questões fundamentais sobre a realidade física. Mas também temos de considerar a existência de realidades que os físicos não estudam, como os pensamentos e os sentimentos e a biologia que, ao que parece, não deixam de ser realidades físicas, ainda que mais efémeras umas do que outras.

Não obstante, e isto toca com o problema de o mundo “ser como é”, se fossemos capazes de responder à questão “o que é isto?” e de o provar, essa resposta, provavelmente, teria de responder às outras questões “o que isto foi?”, “o que isto será?”, sabendo nós, por experiência, que, na realidade, mesmo para os físicos, se há um modo de ser das coisas esse modo de ser é que elas (mesmo se sabemos como foram), não são como são, nem sabemos como serão.

Haverá forma de saber se este problema se resolveria se um poder para isso suspendesse o movimento dos corpos (e das partículas, ou cordas, ou outra coisa desconhecida, cancelando a gravidade, a força electromagnética e as forças nucleares)? Os cérebros não seriam suspensos também?


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

A toque de caixa

Ao toque de tambores e de clarim. Muitas batalhas foram perdidas porque o fragor dos ferros e dos gritos não permitiram que os combatentes ouvissem os toques da ordem. Ficavam assim à mercê do inimigo, desorientados, em vez de fugirem, resistiam, mas sem rectaguarda, ou fugiam desordenadamente na direcção errada. A comunicação, nas batalhas, sempre foi um dos pontos chave e mais difíceis de conseguir e de coordenar, sobretudo antigamente, em que os sinais sonoros para chegarem às tropas, não deviam confundir-se com os sinais do inimigo, perderem-se no espaço ou serem distorcidos pelo ruído produzido durante a batalha. A comunicação é, se prestarmos alguma atenção ao problema, o calcanhar de Aquiles, da  guerra como da paz.

A guerra é para especialistas, como a ciência é para especialistas, mas as técnicas e os combates são para todos. À ciência não pode ser imputada nenhuma responsabilidade. A pólvora não tem culpa de ser explosiva, nem as máquinas têm culpa de demolir, nem o fogo tem culpa de devorar e liquefazer tudo, até um certo ponto. Nenhuma droga, ou aeronave, podem ser responsabilizadas dos danos que causam. Assim como um cão ou um vulcão. Mas podemos sempre tentar metê-los a todos numa prisão. Só que, enquanto o homem continuar a existir, à solta, ou não, vai ser obrigado a lutar pela sobrevivência e isso tem de ser colectivo. Infelizmente, a humanidade não tem sido muito bem-sucedida na tentativa de fazer o melhor. A natureza, incluindo a humana, é indócil e rebelde, para não dizer inábil, relativamente a uma bondade objectiva dos nossos actos construtivos, tantas vezes com imenso trabalho e sacrifício. Afinal, temos andado a construir destruindo, ou a destruir construindo? Quanto das construções são destruições irreversíveis? E como remediar e evitar continuar?

É preciso trabalhar arduamente para que tudo continue na mesma, e não se consegue. Mas para que as coisas mudem, basta não fazer nada.

A ciência não tem defeitos morais, é como a sabedoria, e como Deus. São bons por definição e não são virtuosos, em sentido moral, porque virtuoso é atributo moral de acto humano. Não fazem e nunca fizeram mal a ninguém. São edifícios ideais, abstractos,

Já a guerra tem de ser vista de outro modo e noutra perspectiva. A guerra é actividade humana, conjugada para infligir mal. Se porventura alguém faz ciência para infligir mal, não é o acto de fazer ciência que faz mal, mas o acto de guerra, em intenção ou execução consequente.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Quem não gostaria de saber?

Não pretendo, nem seria capaz de dizer o que a universidade é, ou foi, nem o que pode ser, nem o que deve ser e, menos ainda (se é que tal é possível), o que será. Pretendo dizer, simplesmente, que não acredito que haja alguém capaz de o fazer. E creio que não estou a jogar com as palavras para além do significado que elas, prosaicamente, comportam. Claro que a minha opinião, corresponda ou não à minha crença (tantas vezes se afirma uma coisa e se pensa outra), não vale pelo que penso, mas pelo que significa.

Neste caso, o que ela significa é anódino (cada um acredita naquilo que lhe aprouver), enquanto não apresentar razões plausíveis para afirmar o que afirmo.

Para que não seja completamente gratuito, admitindo que não é de tal modo óbvio o porquê de «não acreditar que haja alguém capaz de o fazer», passo a esboçar meras presunções.

Se para dizer o que é uma pedra não basta a ciência toda, nem a filosofia toda, nem toda a poesia, pode ser uma simples pedra no sapato, ou na cabeça, em forma de um rei, ou de pavimento, pedra angular, pedra preciosa, parte de um todo desconhecido, que não pode ser deduzido dela, que não existe sem ela, não sabendo nós se subsistirá o significado que ela tem para a ciência, para a filosofia, para a poesia e, inerentemente, para o homem, se este desaparecer, quanto mais não será necessário para dizer o que a universidade é? Haverá alguma ciência, ou interconexão de ciências que nos disponibilize a representação do que a universidade é de um modo pelo menos tão claro como é possível representar os ambientes em que terá surgido a vida?

Se é difícil ou impossível dizer o que uma coisa é, quanto mais difícil não será dizer o que ela foi?

Se não sabemos responder a nenhuma destas perguntas, como saberemos o que a universidade pode ser? E se não soubermos o que pode ser, que sentido faz dizer, ou até pensar, o que deve ser?

E quanto ao que será? Quem não gostaria de saber?


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

A Escola e os gurus

A escola, tal como a conheço, era uma circunstância odiosa, tal como a catequese e a igreja, ainda que (ou mais ainda, se) a criança fosse promovida a estrela da companhia.

De tal modo colocava as crianças perante as suas incapacidades, dificuldades, limitações, mas sempre contracenadas com figurinos histriónicos elevados à categoria de exemplo e prova de que é possível, os outros conseguem, tu não.

O outro era, e continua a ser, a marca inatingível. Há sempre outros. Há sempre os melhores, que são os outros. E, por alguma razão, há sempre quem ache isto bem. O limite é Deus. Não existe, nunca existirá, porque Deus ficava estragado se fosse limitado.

Não existe limite quando o outro é o limite ao devolver que limite tem um nome “tu”, tu és o limite, o limite és tu.

E então, a escola, a catequese, a igreja, os modelos de pensamento, de organização social, de produção, de educação, de ensino, de justiça, de beleza, de santidade, de virtude, enfim, de valor, de sucesso, de realização, operam sobre a criança e exercem uma força que será tanto mais fantasmagórica e ilusória quanto mais ela se aperceber de que a realidade, a sua experiência, os seus sentidos, tendem a refutar as ideias de que é possível ou desejável que corresponda a algum modelo, ou personagem, que tampouco está gizado, que tampouco existe, que tampouco interessa, que nem sequer é humanamente razoável…

E começa a perceber que, tal como as histórias da carochinha, é tudo um faz de conta. Há crianças que vivem num mundo faz de conta mais interessante, em que elas próprias fazem de conta e dão-se bem com isso. Outras nem tanto. E outras não. O faz de conta não é igual para as bruxas e para as criancinhas.

Depois, o faz de conta, que conta, e de que maneira, continua a ser um jogo que dificilmente o jovem recusará jogar, mesmo que saiba que é viciado e vai perder. Se sabe que vai ganhar, mesmo sabendo que é viciado, joga, porque não pode deixar de o fazer.

A ideia de que o que importa é participar e não ganhar, é bem verdadeira, porque quem ganha não se importa, quem perde é que tem de se importar.

Mesmo no desporto, o espírito desportivo está ao serviço de um resultado, de tal modo que não tens de saber jogar, ou de jogar bem, ou de jogar melhor, se souberes alcançar o resultado. E se não for o resultado do jogo, daquele jogo, que seja o resultado do teu jogo, no qual aquele é apenas um episódio, uma jogada, como uma manobra para despistar o adversário.

Mais tarde, já adultos, talvez peões de jogos cada vez mais complexos, talvez sonhando, ainda, quixotescamente, serão tanto mais a realização daquilo que para eles o ensino e a educação prepararam, quanto menos tiverem a noção daquilo em que os tornaram, ou em que eles se tornaram.

Quanto aos gurus, se fossem árbitros do jogo, talvez alterassem as regras, mas a viciação não, até porque faz parte do jogo e não respeitar as regras também é batota.


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Disse república?

Eu penso que sou republicano, mas o país é uma caterva de tribos nostálgicas das fachadas de linhagens e fidalguias que nunca tiveram, que praticam a vassalagem, o nepotismo, o compadrio e o favorecimento, como sistema de valores democráticos, perante o altar da inclusão, igualdade de oportunidades e liberdade, desde que lhes esteja assegurada a parte de leão, em que a justiça prima por não cometer injustiças contra algum corrupto menos feliz. 

Quem não gostaria de ser monárquico se pudesse ser rei, de preferência absoluto?

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A escola pública

Se há áreas em que o Estado tem uma função prioritária e de primordial relevância social como promotor e garante do bem comum, da igualdade na liberdade e da liberdade na igualdade, a escola pública é sem dúvida estratégica, mas tem sido um instrumento de instrução e de educação muito negligenciado, como normalmente tem sido negligenciado o investimento na cultura do conhecimento para a democracia, para a justiça e para a paz.

A pessoa, os seres humanos, apesar dos discursos politicamente correctos e muito farisaicos de tantos cónegos Remédios com investidura em cargos políticos da maior responsabilidade, na prática, continuam a ser tratados e considerados, para todos os efeitos, numa vertente económica meramente mercantil de rentabilidade imediata. 

Esta redução dos problemas políticos e sociais à expressão mais simples do seu potencial para gerar negócio lucrativo à escala piramidal das lógicas financeiras, tem sido o princípio e o critério que presidem a todo o discurso e acção política, que são assumidos como valores, ou virtudes, quando deviam ser vistos e assumidos como o grande constrangimento ao Estado, que dita às forças políticas os seus limites e as condições do seu exercício, ainda antes de elas se manifestarem.

E este constrangimento é de tal modo estrutural que os cidadãos o percebem claramente e está na origem da pobreza das alternativas à governação e também explica em grande parte a tendência crescente para uma abstenção desencantada.


domingo, 22 de agosto de 2021

A racionalidade dos animais

A minha teoria, passe a imodéstia (e já estou a lançar uma provocação) sobre a racionalidade e o início da racionalidade, que neurocientistas mapearão no caminho dos sistemas de cognição dos seres vivos até ao sistema de consciência, é que a racionalidade é um acto de consciência acerca de relações entre dois ou mais termos (representações), assumindo, ou não, valores. A maior confusão que existe, no que toca ao discurso sobre a realidade, seja cultural ou meramente natural (física), tem a ver com a ideia de que, por exemplo, o pensamento mitológico não é racional ou não é tão racional como outros pensamentos racionais. A minha teoria é que o pensamento humano, desde o início, é racional e que o racional, além de ser uma aptidão natural dos seres vivos, atingiu as proporções, ou a escala, ou o calibre, que tem no ser humano, pela capacidade neurológica deste em exercer essa racionalidade sobre termos abstractos, ainda que meramente imaginados, ou inferidos, numa teia sem fim. De modo que o pensamento racional não é por ser racional que merece credibilidade, ou que corresponde a factos. O exemplo referido no texto, sobre a explicação dos chineses e a dos gregos, ilustra bem o que acabei de dizer.

Mas temos toda a cultura e civilização para ilustrar esse fenómeno da racionalidade sobre dados falseados, ilusórios, viciados, fictícios, meramente hipotéticos.

O nosso problema não é a racionalidade, mas os termos, ou os dados, sobre os quais ela opera e o modo, mais ou menos condicionado, como opera.

A nossa racionalidade sobre os fenómenos naturais não é mais, nem menos, do que a racionalidade dos primitivos de pensamento mitológico, ou de que os contemporâneos de pensamento teológico-católico, ou astrofísico. Os termos, ou os dados sobre os quais se exerce é que são outros.

Daqui por uns anos, a nossa racionalidade não será considerada pior se alguém descobrir que tudo aquilo em que acreditamos, neste momento, é mero efeito do sistema cognitivo que temos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Aproximações à verdade XV

Hilário: o egoísmo é a lei que rege o humano

Amiga: tudo o que nós queremos é felicidade

Hilário: no momento de agir, nem sempre se pensa como deve ser

Amiga: haverá quem faça algo sabendo que isso lhe trará infelicidade?

Hilário: quando agimos é porque acreditamos que isso nos interessa

Amiga: mas muitas vezes chegamos à conclusão de que previmos mal as coisas

Hilário: Aristóteles, na Ética a Nicómaco, diz que "Ser feliz é uma actividade que requer toda uma vida e não pode existir em menos tempo"

Amiga: ou a felicidade de agora pode ser a infelicidade depois

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Aproximações à verdade XIV

Hilário: o problema fundamental, na política, não é quem domina quem

Amiga: pensava que esse era o problema

Hilário: todos sabemos quem domina quem, isso não é novidade

Amiga: mas é um problema

Hilário: mas não é o problema maior

Amiga: então é porque quem domina não domina grande coisa

Hilário: ou que não domina algo maior do que si próprio

Amiga: isso é enganador porque quem domina escolhe o lado que mais lhe convém

Hilário: quem domina em ditadura, certamente, domina em democracia

Amiga: então o problema fundamental é o modo como se domina, democrático ou não.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Aproximações à verdade XIII

Hilário: vamos ver se me faço entender quando digo que mente e corpo são o corpo vivo
Amiga: o ser humano, a mente, a consciência, são o corpo em que acontecem
Hilário: os físicos diriam que são manifestações da natureza, segundo leis físicas
Amiga: o homem é o seu corpo vivo, a sua massa de partículas
Hilário: é importante distinguir um corpo vivo de um corpo morto
Amiga: como é que isso se faz?
Hilário: todos sabem ver, mas eu não sei explicar
Amiga: o corpo vivo de uma pessoa é o local onde tudo acontece
Hilário: onde tudo o que acontece a essa pessoa acontece, não o que acontece às outras
Amiga: nada acontece à pessoa que não aconteça no seu corpo
Hilário: o corpo é a fonte, a origem e o fim, dos pensamentos e dos sentimentos
Amiga: mas apenas para o próprio, porque há os outros
Hilário: não basta explicar como é que as partículas se estruturam em sistemas que sentem
Amiga: como é que os átomos das pedras e da água e do ar começaram a sentir e a pensar
Hilário: é preciso explicar como é que a consciência do que fazemos se torna acto
Amiga: e assim sucessivamente
Hilário: explicar o arbítrio
Amiga: e a diferença entre arbítrio e livre arbítrio
Hilário: entre liberdade, arbítrio e livre arbítrio
Amiga: entre vontade e sentido do Direito
Hilário: explicar a responsabilidade
Amiga: explicar o dever e o direito
Hilário: explicar por que a racionalidade nos conduz aos limites
Amiga: nos conduz à verdade

terça-feira, 27 de julho de 2021

Otelo, o Oscar do 25 de abril de 1974

A minha juventude e educação religiosa católica, da época, não me permitiam simpatizar com revolucionários. Até o ensino da história, que nos era ministrado, por padres, ou seus apaniguados, ou outros que tais, grados ao regime (pude reconhecer mais tarde) tratava, quase sempre, os revolucionários e os rebeldes como Judas. Levei tempo a compreender que era fácil inverter os papéis, como eles faziam e tratar os revolucionários como Jesus.
A ordem estabelecida define sempre os rebeldes e os opositores e os contestatários e os insubmissos e os revolucionários, como um grande problema de “lesa majestade”, ou de heresia, ou de excomunhão, blasfémia ou de traição. Se essa ordem for rigidamente hierárquica, reage acidamente a qualquer atitude de desrespeito. Não reage com discussão de argumentos. O respeito, ou o respeitinho é uma estratégia ardilosa, mas muito eficaz para manter cada boneco no seu papel.
Hoje, pelo balanço que faço daquilo que Otelo representa e do papel que teve, nos contextos em que operou, mas sobretudo pelo que fez, por sua iniciativa e responsabilidade, considero-o um herói que tinha consciência disso e que desprezava, simplesmente, a caterva de carreiristas, de seguidistas e de camaleões oportunistas de que se viu rodeado, enfrentando-os, mas sem poder livrar-se deles.
De qualquer modo, Otelo seria capaz de pactuar com adversários?
Parece-me que o mal dele eram os adversários. 
Não há adversários perfeitos.
E nem os que pareciam segui-lo e pretendiam arregimentá-lo com promoções e “espólios” de guerra, deixavam de ser vistos como uma espécie de cobardes a quem dizia não.
Há pessoas que até na amizade veem uma forma de conluio indigno, de manipulação e de suborno incompatível com a rectidão e a probidade. É como se tivessem escrúpulo de serem desonestos e desleais e isso os impedisse de aceitar qualquer outro compromisso que não seja lutar contra os desonestos e desleais, ainda que lhes não tenham feito directamente qualquer mal.
Otelo parecia ter fobia a que, sequer, tentassem passar-lhe a mão pelo pêlo.
Assim, não lhe restavam alternativas. 
Do mesmo modo que não se pode ser equidistante de tudo, não se pode ser contra tudo.

sábado, 24 de julho de 2021

A presunção da justiça e a justiça da presunção

A justiça, de facto, é presunção que, umas vezes, corresponde à verdade dos factos, outras vezes, não. 

No que toca às prescrições não presuntivas, nomeadamente de crimes, gostava de saber se já houve algum processo em que o beneficiário (?) da prescrição, para tentar provar, senão a inocência, pelo menos a inconsistência, ou improcedência da acusação, deduziu oposição. 

Quando um arguido aceita, alegremente, a prescrição, não deixa de encorajar a que se pense numa presunção de culpabilidade, ficando por defender, senão a honra da inocência, pelo menos a da absolvição.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Os chico-espertos

Em Portugal, há uma cultura de chico-espertismo brutal, em que, se entras grande, tens de sair pequeno. Depois de morto, para proveito do mesmo chico-espertismo, podem sentir-se obrigados às homenagens póstumas do costume. Mas, aqui, já são os chico-espertos, que entraram pequenos e saem grandes.

sábado, 10 de julho de 2021

Quem é autómato, não é gago.

Não se aborreçam se eu disser que, relativamente às memórias e às aprendizagens, não tenho grandes dúvidas de que a maioria das pessoas constroem as suas memórias e fazem as suas aprendizagens de um modo mais ou menos espontâneo, não rigidamente deliberado, num processo interactivo, em grande parte cultural, social, de comunicação linguística, mas não só, sem saberem o que são a memória e as aprendizagens, ou como se processam e o quanto isso é importante para elas.

Saber algo de cor e salteado pode ter interesse em alguns casos, sendo vantajoso identificar essas situações para reforçar a memorização de cor, nesses casos. Por exemplo, se quero dizer ou declamar um poema, cantar uma canção, posso não ter outro remédio, assim como se pretendo representar uma personagem numa peça de teatro falada, ou se me exigem num exame que saiba a tabuada de cor, ou, como antigamente, o código da estrada de cor. Em nenhum destes casos, todavia, a capacidade para papaguear as falas e os textos fornece qualquer indício, e menos ainda garantia, de que corresponde a outra aprendizagem para além disso.
Compreender o poema, a canção, a personagem, a multiplicação e os números, as regras de trânsito e a importância e significados disso tudo, pode, simplesmente, não ter sido alcançado.
Se for um sábio a ouvir, ou um professor a ler a resposta do aluno, até pode ficar deslumbrado com o que ouve, ou lê, e recolher do que ouve, ou lê, imensos ensinamentos, mandamentos e julgamentos, que nunca lhe tinham ocorrido, embora sendo sábio e não saiba nada daquilo de cor.
Mas quem fala de cor para o sábio, pode, muito simplesmente, não saber nada daquilo que diz. Aqui, as semelhanças do que fala de cor com um robot parecem-me evidentes. O “papagaio” bem podia começar por dizer “eu sou um robot” e não fazer nenhuma ideia do que estava a dizer e menos ainda da razão pela qual o sábio desatara a rir.
Já as semelhanças do sábio com um robot não são nenhumas e talvez um robot nunca venha a ser sábio porque, dificilmente ou nunca, virá a ter a noção e a ser capaz de compreender as linguagens que opera automaticamente.
Quem é autómato, não é gago.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Aproximações à verdade XII

Hilário: tive uma namorada que nunca me disse como se chamava

Amiga: e sabes porquê?

Hilário: não sei, nunca lhe perguntei

Amiga: nunca lhe perguntaste o nome?

Hilário: não, nem nunca lhe perguntei por que não me disse o nome

Amiga: e ela perguntou-te?

Hilário: o quê?

Amiga: tu é que sabes

Hilário: ela não me perguntou porque é que lhe não perguntei o nome

Amiga: e perguntou-te como te chamavas?

Hilário: não

Amiga: homessa?!

Hilário: fomos apresentados por um amigo

Amiga: ah, então sabiam o nome um do outro?!

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Aproximações à verdade XI

Hilário: há pessoas que não podem jogar umas com as outras

Amiga: eu não posso jogar contigo, nem a feijões

Hilário: e tu não és minha irmã, imagina se fosses

Amiga: nem tudo tem a ver com prazer e dor física localizada

Hilário: que o meu prazer não seja a dor dos outros

Amiga: que a minha dor não seja o prazer dos outros

Hilário: se nos tirarem a dor, ficaremos privados de imensos prazeres

Amiga: se nos tirarem o prazer, ficaremos privados da vida e a verdade perde todo o interesse

terça-feira, 22 de junho de 2021

Aproximações à verdade X

Hilário: neste momento, os meus problemas são apenas filosóficos

Amiga: quais?

Hilário: o que quero dizer é que estou feliz por estar aqui e nem sei por que falei

Amiga: mas isso é um poema

Hilário: pois, um poema e mais nada

Amiga: um poema sem consequências

Hilário: já começo a sentir-me menos feliz             

Amiga: por causa do poema, ou por eu dizer que era um poema, ou por dizer que era sem consequências?

Hilário: por causa das consequências

Amiga: mas se é um poema sem consequências?

Hilário: tudo tem consequências

Amiga: mas nem sempre nos agradam

quarta-feira, 16 de junho de 2021

O que é, então, o erro?

Teremos imenso a aprender sobre o erro e uma teoria do erro, ou dos erros, ajudar-nos-ia a esclarecer se há erros colectivos e, havendo, em que diferem dos erros individuais. 

A humanidade erra? 

A ideia de que a humanidade possa errar parece inconsistente com a ideia de erro, pelo menos com a ideia de que a natureza não erra. 

Mas, se a natureza não erra e se o homem é natureza, o que é, então, o erro?

E o livre-arbítrio?

A ciência não é apenas uma maquinaria de previsão do futuro a partir do presente, mas também pode ser de adivinhação do passado, ou retrovisão. Ou seja, não apenas permite antever os efeitos a partir das causas, como determinar estas a partir dos efeitos.
Há, porém, um problema sério que não ganhamos nada em ignorar: tudo o que aconteceu não podia ter acontecido de outro modo. 

Quando buscamos causas é sempre do que acontece e nunca do que poderia, ou poderá, acontecer. Não há causas do que não acontece.
O determinismo, neste aspecto da questão, é irrefutável, ainda que não sejamos capazes de explicar todas as causas de um facto.
Aliás, aproveito para introduzir aqui a discussão sobre o livre-arbítrio, que é fascinante.
Se tudo o que acontece é determinado por causas e se não conhecemos nada que não tenha acontecido, onde é que vamos situar o livre-arbítrio?
Já li bastantes coisas à volta do assunto, umas mais confusas do que outras, mas ainda não vi ninguém a colocar a questão desta forma.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Aproximações à verdade IX

Hilário: Direito não é todos terem permissão de fazerem o que alguém faz

Amiga: Igualdade não é todos poderem fazer o que alguém faz

Hilário: e se esse alguém for o rei, ou o imperador, ou o sumo sacerdote?

Amiga: esse é que é o problema.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Aproximações à verdade VIII

Hilário: o homem (todos os homens) é o único valor ao qual todos os outros estão subordinados

Amiga: nenhum homem se pode arrogar o domínio sobre o homem, ou sobre a natureza, ou sobre a cultura

Hilário: se isso acontecer, como tantas vezes acontece, os outros adquirem o direito de o impedir e de o responsabilizar

Amiga: e se não o conseguirem, porque não têm força, ou por outras razões, por exemplo, porque até lhes dá pretexto para poderem fazer o mesmo, ou porque já o fazem?

Hilário: isso é o que tem sido a (des)ordem mundial

Amiga: e é esse o principal argumento que tem sido usado para o direito da força

Hilário: isso é poder fazer o que os outros fazem

Amiga: assim tem sido a política e a prática dos Estados

Hilário: mas toda a gente sabe que o Direito não é isso

Amiga: Direito é o que deve ser feito de acordo com os melhores critérios

Hilário: o melhor critério tem o homem (todos os homens) como dador de sentido do critério

Amiga: mas há valores que o homem (todos os homens) deve respeitar e nunca sacrificar

Hilário: a natureza, o que lhe é exterior, o que não foi criado, ou produzido, por ele

Amiga: ainda há muito a fazer para impedir que a herança (o património) natural e cultural da humanidade, continue abusivamente nas mãos de alguns, com exclusão de todos os outros

Hilário: e a ser usado para explorar, oprimir e sacrificar os outros

Amiga: na história da humanidade isso tem sido a norma, mas não é senão a legitimação da guerra.