sábado, 25 de julho de 2026

O coletivo não pensa, funciona


A forma coletiva tende a absolutizar as suas próprias articulações simbólicas. Mas não há loucos coletivos, nem responsáveis coletivos. Só há responsabilidade quando há escolha. As escolhas são de indivíduos. 
Grupos não são loucos, povos não têm psicologia coletiva, épocas não enlouquecem. 
Não é correto interpretar a rigidez simbólica para que tendem os coletivos como loucura. Simplesmente, é a estrutura da vida coletiva. O ser coletivo, estadual, geral, dominante, maioritário, não confere nenhuma garantia de liberdade, nem para os indivíduos, nem para os grupos. É que o grupo, o coletivo, os povos, também não pensam. 
Pensar é coisa de indivíduo. O coletivo não pensa, funciona. E não há qualquer vantagem, nesse aspeto, em “serem muitos”. 
O indivíduo pensa e o coletivo repete, reproduz, segue. 
A quantidade não melhora a forma, apenas reforça a forma.

Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Luís Vaz de Camões


Nunca mais disseste nada

Mas o passado é maior do que a memória

A história é maior do que os arquivos

E a realidade é maior do que qualquer época pôde compreender.

 

É penoso perceber que o mundo é maior

Do que qualquer época pôde imaginar

Mais árduo ainda participar ativamente na revelação

Daquilo que parece estar sempre à beira de se tornar

Em algo diferente daquilo que parece

 

Um silêncio cheio de possibilidades

A descoberta

De passados reconstruídos

Da história

Que está perdida para sempre

 

O instante em que o sentido se insinua

Sem mostrar

Que sempre esteve à espera

 

Uma coerência secreta

Que a vida tem

Porque a tristeza a cria

 

Uma porta que nunca esteve ali

E pensamos que já tínhamos aberto

Palavras que nunca foram ditas

Nos mundos que abrem.

              Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A Poesia

A poesia é o mundo

Sempre prestes a dizer algo

E às vezes diz

O lugar onde o sentido não está dado

Mas em formação

ápice em que o mundo se torna inteligível

Antes de voltar a ser mistério.

          

                  Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 7 de maio de 2026

As implicâncias políticas com o Papa (autoridade moral e populismo)


O discurso que alterna entre a deslegitimação e a instrumentalização da autoridade moral conforme o alvo, revela um padrão de egocentrismo normativo. Tal padrão aproxima-se das estruturas pré‑operatórias descritas por Piaget como egocentrismo cognitivo das fases pré‑operatórias (aprox. 2–7 anos), nas quais a regra não é concebida como universal, mas como extensão do próprio interesse. A ausência de reciprocidade e a incapacidade de aplicar o mesmo critério a si e aos outros configuram uma moral heterónoma, típica de estádios pré‑convencionais.
A analogia é útil e não é insultuosa, porque não diz que esses agentes políticos são infantis, mas que atuam segundo uma lógica pré‑moral, anterior à aquisição do sentido da reciprocidade e da autonomia.
No plano político, esta oscilação não é um acidente retórico, porque é a própria técnica populista de captura seletiva da legitimidade.
Para estes políticos, o Papa é como o semáforo de uma criança de cinco anos: para eles deve estar sempre verde, o vermelho é para quem os incomoda.
São iguais a si próprios, sem contradição. É apenas o centro do universo a reclamar o seu lugar. A moral é um brinquedo que se usa quando diverte e que se arruma quando atrapalha.
Quem só aceita a regra quando lhe convém não tem princípios, tem idade moral.

 Carlos Ricardo Soares


sábado, 21 de março de 2026

Em tempos de barbaridades

Dizem o que é bárbaro
Que os bárbaros
São os que fazem barbaridades
E nós sabemos
E também sabemos quem eles são

Eles não roubam o fogo do céu
Por amor da humanidade
Nem carecem de humanismo
Que os defenda

Só o humanismo tem de ser defendido
Da fanfarronice insultuosa
Dos violadores
Dos que odeiam
E sendo poderosos
Semeiam devastação e terror
Sem limites nem contenção

Só o humanismo não se ufana
Não se camufla de retórica
Nem de sofismas
Não é idolatrado nem brande espadas
Não ostenta diademas
E o seu brilho não ofusca
Nem é ofuscado

O humanismo não é violento
É lhano e sano
Mesmo com as entranhas dilaceradas
O humanismo é invencível
Mas tem de haver quem o defenda
Tem de ser defendido

É isso que faz de alguém uma lenda
E as lendas fazem sentido
Se fizerem sentir
Que ninguém é estrangeiro
Em nenhum lugar
Não precisamos de perguntar
Quem são os bárbaros
Por mais que isso nos faça arrepiar.

                       Carlos Ricardo Soares


sábado, 7 de fevereiro de 2026

A questão do tempo é fascinante

A questão do tempo é fascinante. Mas, quando nos falam de coisas como “comprimento temporal da trajetória”, já entra a simplificação da geometria e da matemática e o fascínio passa a ser de outra ordem.
O comprimento temporal entre dois eventos é máximo quando não há movimento espacial. Se eu permanecer parado não há trajetória, não há velocidade, há tempo máximo entre o ponto em que me encontro A e outro qualquer B. Se o meu irmão se deslocar de A para B, há trajetória, há velocidade e há tempo menor para ele relativamente a A. Isto é perfeitamente compreensível. 
À componente espacial da trajetória chama-se velocidade. O tempo próprio depende da velocidade.
Se eu abstrair da velocidade, posso falar de um tempo de A e de um tempo de B, e de um espaço de A e de um espaço de B, como grandezas puras, só dependentes do facto de estarem em trajetórias diferentes? 
Não há como pôr tempos e espaços para A e B “independentemente da velocidade”. É precisamente a velocidade (isto é, a forma da trajetória no espaço‑tempo) que define esses tempos e esses espaços.
O comprimento temporal de uma trajetória só varia porque a trajetória tem uma componente espacial. E essa componente espacial é o que chamamos velocidade.
No exemplo que dei, se o meu irmão viajasse à velocidade máxima possível (próxima da da luz?), o comprimento temporal será mínimo.
Pelas minhas pesquisas de um leigo na matéria, seguindo a teoria, ele envelheceria menos que eu e o relógio que ele levasse, apesar de sincronizado com o meu, apresentaria um atraso possível de calcular de acordo com uma fórmula matemática.
Mas se eu, para tentar confirmar se era verdade, decidisse viajar como ele fez, seguindo a mesma trajetória, à mesma velocidade, ao seu encontro, enquanto ele esperava por mim, parado como eu fiz, enquanto ele viajava, quando eu lá chegasse, ainda segundo a teoria, confirmaria que os nossos relógios marcavam a mesma hora e o nosso envelhecimento seria igual. Mas isto não infirma a teoria do paradoxo dos gémeos. Até pode confirmá-la.
Eu e o meu irmão não teríamos qualquer razão empírica para suspeitar de que a velocidade afeta o tempo próprio.
Aventuro-me a dizer que o tempo próprio não se sente, a dilatação do tempo não se experimenta subjetivamente e que a relatividade não se vive como diferença.
A linguagem engana, porque “dilatação do tempo” parece algo que alguém sente. Mas é apenas geometria.

             Carlos Ricardo Soares