Num dos meus comentários, faz já algum tempo, falei do academismo pernicioso e fiquei à espera de reações.
Agora, aproveitando o ensejo que me dá o tema tão discutido dos problemas que a IA trouxe à escola, recupero aquela minha crítica para enfatizar os limites do academismo e os seus vícios,
no que toca à velha e nunca resolvida questão da autoria do aluno.
Refiro-me à autoria das respostas, sobretudo escritas, às perguntas, que conhece ou não de antemão, e ao teor e qualidade
dessas respostas, sempre dependentes dos textos de que se socorreu, como era seu mister, mas também daquilo que, relevantemente, inventou, inferiu ou pensou para além desses textos, e que nenhum manual, nem sequer toda a literatura, lhe podia dar.
É justamente esta distinção, entre reprodução e pensamento, que o academismo nunca soube avaliar e que a IA, ao nivelar a forma das respostas,
torna agora impossível disfarçar.
A
crise (do academismo) não é tecnológica, é ontológica. E isto é muito difícil de aceitar. A IA não ameaça a escola porque escreve, mas porque escreve sem pensar,
e tanto basta para mostrar que a escola nunca soube distinguir, nos textos dos alunos, entre o pensamento e a forma. A IA, espero eu, não rouba a autoria a ninguém, mas mostra que a autoria escolar sempre foi
uma ficção sustentada pela ausência de concorrência.
O alarmismo suscitado, em tão pouco tempo de existência da IA, não é porque ela destrua a aprendizagem, mas porque
desacredita inapelavelmente o modo como a aprendizagem foi tradicionalmente certificada. Ao defender o método que a IA torna insustentável, a escola não está a defender o pensamento.
É
bom que saibamos, por mais que custe, que a questão decisiva não é tecnológica, mas pedagógica. Talvez preferíssemos que, neste mundo alucinado pelos milagres das tecnologias, este
fosse apenas mais um dos problemas que a tecnologia veio para resolver. Infelizmente, ainda não será desta. Senão, vejamos: que tipo de autoria queremos reconhecer? Que tipo de pensamento queremos ver?
Que tipo de saber queremos formar?
Se a escola continuar a avaliar textos, a IA escreverá por ela, mas se a escola passar a avaliar processos, a IA ficará fora do jogo. Se a escola continuar a premiar a
reprodução, a IA será sempre melhor, mas se a escola passar a valorizar a invenção, a IA será sempre insuficiente.
A IA não ameaça a autoria, a inventividade, a
“voz com vida”, a descrição vivida, a resposta individual aos problemas reais, mas ameaça tudo o que seja suscetível de repetição, de reprodução e de recombinação
formal.
Quanto a estes aspetos, estou em crer que a IA já está a obrigar a escola, e não só, a abandonar a ficção da autoria textual e a tentar encontrar a realidade da autoria
cognitiva.
O academismo, embora não seja incapaz de reconhecer pensamento, é incapaz de o verificar formalmente. Até lá, a IA fará o seu caminho e esta incapacidade estrutural será
impossível de ignorar.
A IA generativa é uma das tecnologias que aparecem para tornar visíveis problemas que já existiam. Durante décadas o academismo habituou-se a confundir reprodução com saber, desempenho com compreensão, texto com pensamento, e autoria com mera conformidade formal. A escola viveu da
ficção de que o texto produzido pelo aluno, resposta, dissertação, relatório, comentário, era uma janela transparente para o seu pensamento. A autoria escolar era tomada como evidente,
porque não havia concorrência técnica que a pusesse em causa. O aluno escrevia, logo pensava, respondia, logo compreendia, organizava frases, logo inferia, produzia um texto, logo era autor.
A escola nunca teve acesso ao processo interior, apenas ao produto exterior que tomava como prova suficiente do processo. A IA destrói esta equivalência, não porque pense melhor do que o aluno, mas porque não pensa de todo e, ainda assim, produz textos que satisfazem todos os critérios formais da avaliação académica. Aquilo que o academismo sempre
avaliou como “pensamento” era, afinal, forma, não origem cognitiva, desempenho, não compreensão, adequação ao enunciado, não visão, competência textual, não autoria na boa
acepção.
Ora, defender o modelo de avaliação, que a IA torna obsoleto, é um problema sério.
A escola não sabe como enfrentar a IA porque nunca soube como enfrentar o pensamento humano. Sempre avaliou o que podia ver, o texto, e não o que precisava de ver,
o processo. Sempre certificou o que podia medir, a reprodução, e não o que devia medir, a compreensão. Sempre premiou quem decorava, e reproduzia, porque a memorização e a reprodução,
eram os únicos indícios disponíveis de que o aluno “sabia”.
A IA torna esta lógica impossível, porque é a prova de que decorar já não significa compreender, e reproduzir já não significa saber.
Habituados a uma pedagogia da repetição, vemo-nos agora obrigados a justificar a sua razão de ser.
A pergunta que a IA traz à tona não é
“como impedir que os alunos usem a IA?”, mas sim “como avaliar aquilo que a IA não pode simular?”. E esta pergunta é devastadora, porque obriga a escola a regressar ao que sempre deveria
ter sido o seu núcleo, o pensamento situado, a inferência viva, a invenção conceptual, a compreensão que é fruto de um mundo vivido e não de uma recombinação formal.
Carlos Ricardo Soares