sábado, 8 de abril de 2023

Quantos gumes tem a faca

Desconhecia o poeta húngaro, Attila József, e este seu poema esplendoroso. 

Quando nasci tinha uma faca na mão.

Dizem: é poesia.

Mas peguei na pena, melhor ainda que a faca.

Nasci para ser homem.

Dos que ficam na memória a rebobinar, a rebobinar. Saltou-me à ideia o estereótipo de Luís de Camões com a espada numa mão e a pena na outra. Uma faca de dois gumes. Mas quantos gumes pode ter uma faca? E muito mais. Humano, simplesmente humano, como a páscoa.

domingo, 26 de março de 2023

É preciso dizer

O dia sem manhã

mas com versos

a abrir caminho

a felicidade pode chegar

através das palavras

muitas vezes

só as palavras têm poder

para tranquilizar

ou demover

é preciso dizer

certas palavras que têm o efeito

de serem as palavras certas

por parecerem certas

ainda que não façam crer

que aquilo que é preciso

que seja

é

ou será.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Não alimento mitos

Não te encontro defeitos

amor

mas a vida é imperfeita

por vezes bela

atordoa

estonteia

a aconchegar dois animais

que não cabem dentro de nós

que farejam tudo

e a miragem

na sua humanidade.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

As casas

Havia uma casa no nascente

donde esvoaçavam pássaros

aos raios de sol

pelas manhãs

à passagem da padeira

com sua voz de manteiga

enevoada

a atravessar o rio

num ligeiro batel

e isso era apenas uma parte

da vida nesse lado verde do mundo

dos incansáveis

também havia uma casa no poente

onde se recolhiam as sombras

das tardes

as fadigas desajeitadas

quando a última locomotiva

vinda de muito longe

entrava a roncar

no escuro

com um farol baço de mineiro

e fazia estremecer o cemitério

sem acordar as flores

em sono profundo

junto à linha.

 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Caminhar sem ver para onde

Na hora de dormir

olhei para as estrelas

e suspirei de preocupação

tinha a vaga ideia

de aquele lugar escuro

ser numa serra

afastada do mar

mas ouvia rebentações de ondas

e rajadas de vento uivante

nas árvores que vergavam

e pensei nas histórias

que ouvi na noite anterior

na taberna

junto às ruínas da ponte

acerca de pessoas desaparecidas

no desfiladeiro dos lobos

onde não há sinais de abrigo

nem trilhos visíveis

fiz de conta

fingindo de monstro

para assustar feras noturnas

e parei com muito cuidado

para não por os pés em falso

era muito arriscado

caminhar sem ver para onde.


domingo, 29 de janeiro de 2023

Paraísos terrestres

Paraísos terrestres

Querer elevar o corpo

Como se tivesse uma alma

Que lhe desse asas

Que o ajudasse a suportar

O peso

Que um pássaro tem

Para descer à terra

E sentir o chão debaixo dos pés

Não ser levado pelas nuvens

Não ser arrastado pelas correntes

E pousar

Oh como é bom pousar

Nos paraísos perdidos.

 

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

O princípio da igualdade jurídica

O princípio da igualdade jurídica, que atingiu pleno reconhecimento ao ser entendido como a essência da Ideia de Direito, que tem estado no cerne do sistema normativo do Estado de Direito Democrático, não se confunde com o conceito de igualdade geométrica, ou química, ou física. Justamente, ela emana do reconhecimento de que não há duas pessoas iguais e isto é muito interessante: a igualdade é o reconhecimento e o respeito da diferença, ou seja, a diferença jamais poderá ser razão de discriminação, sob pena de ninguém ter direito a não ser discriminado, o que seria o caos.

Em meu entender, esta foi a grande clarificação que se fez, desde os gregos atenienses até ao cristianismo e que veio a culminar politicamente nos iluministas franceses.

E não colide nem é hostil à desigualdade de estatuto social, desde que esta desigualdade deva ser respeitada, como devem ser respeitadas as diferenças.

O problema é quando o próprio estatuto social é já efeito da institucionalização de uma cultura de tratamento desigual, de indivíduos, de grupos, de populações, de povos...

sábado, 21 de janeiro de 2023

Natureza e cultura

Diria que, por natureza, nada é bom ou mau. Estes são atributos dos atos humanos entendidos numa escala de valores que são produto da cultura. 

Todo o homem, à luz desta escala, é suscetível de praticar atos bons ou maus. Não se nasce bom, nem mau, mas cada um pode tornar-se bom ou mau e isso não depende apenas de si, ou apenas da sociedade, uma vez que o modo como irá realizar a sua participação no "jogo" social depende de regras que requerem aprendizagem e treino e que, em grande medida, é feito na base de uma batota muito sofisticada.

 

sábado, 14 de janeiro de 2023

O prazer de escrever

Às vezes ainda me pergunto sobre o que me faz intervir com "likes" e comentários, seja em blogues, seja no "facebook". O aparecimento da internet, quanto a isso, veio potenciar imenso o que, para mim, já era um modo de estar na vida.
Em vez de escrever num caderno aquilo que me ocorria, ou de publicar num jornal ou revista, passei a escrever "online" e a experiência foi sendo estimulante e enriquecedora. Em alguns casos poderia ter sido mais interativa, mas depressa percebi que esse caminho não era o meu.
Os meus objetivos foram e continuam a ser um desenvolvimento e um aprofundamento de questões, temas e problemas que me surpreendem quando menos espero, nos quais entrevejo uma perspetiva ou um ângulo promissor.
Não procuro a discussão, nem o debate, nem ser assertivo, nem rebater e não me preocupo com proselitismos de nenhuma espécie. Se for para estar de acordo, se for para dizer amém, se for para parafrasear, não escrevo uma palavra, porque o meu objetivo não é esse.
Divirto-me imenso a escrever e leio e releio o que escrevo, para tentar certificar-me de que não estou a chover no molhado.
Escrever absorve demasiadas energias e demasiado tempo para que o faça só para não estar quieto e calado. É, no meu propósito, um investimento. Acredito nas vantagens de o fazer.
Com o passar dos anos e com o acumular de textos sinto cada vez mais fecunda esta disciplina de organizar as ideias agarrando-as como peças de um puzzle, ou, preferencialmente, como peças de legos, que permitem fazer combinações sempre novas.
Há situações em que os sábios se sentem incomodados se alguém ler o que escrevem e, mais ainda, fizerem algum comentário. Dão a entender que devemos deixá-los a "falar" sozinhos. Mas não podem decidir também sobre o tipo de comentário que aceitam que se faça.
Não ligo a isso, não é assim que funciono e, assim que me dispo do jargão, profissional e burocrático, escrevo como um compositor ou um maestro que tenta dirigir uma orquestra, de autores, para fazer um concerto que seja o menos aborrecido possível.
Por prazer e divertimento, sem constrangimentos, exercendo ao máximo a liberdade de pensar, sem nenhum compromisso com ninguém, a assistir ao surgimento dos frutos que, investir no pensamento crítico, pode dar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

O amor

O amor nunca é aos poucos

Nunca é pássaro antes de ser mar

Sol antes de ser delírio

Noite antes de se tornar

Canto do entardecer

Dos loucos

O amor

Nunca é aos poucos.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Saciar a sede

E quando

Já longevos

Se abeirarem da fonte

Saciarão

Pela última vez

A sede imaginária.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Nada isenta de peso

Nada é isento de peso

Nem esta sensação de ser elevado

Pela música da claridade

Deste pensamento que não tenho

Neste estar com saudade

Por não levar nada

Nem deixar nada para trás

Nem a impressão desta palavra

Nem a paz

Nem o futuro

Nem o passado

Nada é isento de peso

Nem um olhar imaculado

Na ponta de um espinho indefeso.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

De cigarro na boca

Havia homens e mulheres procurando

Sombras atrás de uma cortina

Escutando música para preencher vazios

Das palavras da canção clássica

No momento de abraçar a imortalidade

Eram abraçados pela novidade

De estarem num cantinho escuro

Que os olhares não devassassem

Com um significado mesquinho

Que não via magia na dança impossível

Nessas devoções em templos improvisados

Invocando deuses e deusas do cabelo

E da roupa perdida

Com tanta humanidade na comoção

Como estavam implorando à solidão

Por felicidade que ninguém alcança

De cigarro na boca.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Estrada

Encontrei uma estrada

Que estava perdida

Que ia de um lado para o outro

E não saía daí

E só então percebi

Por que estava abandonada

A razão de ninguém seguir aquela estrada

Era que ela não levava a nada

E eu quis que essa estrada fosse minha

Como já alguma vez pensei que era

Para um mundo que tivesse sido criado

Só para mim porque sim

E dado assim

Para que eu pudesse fantasiar

O porquê de ter sido abandonada

Antes de saber o que é ser abandonado

Um poema que fosse a resposta ao desejo

De encontrar o fim

Desse poema ainda inconsistente

Que é fundamental escrever

Que é urgente concluir

Mas como? Mas qual?

Se a estrada continua para o desconhecido

Se o poema não resolve a ânsia

E torna maior a dor

Da distância donde vim

Até ali

E não torna menor a dor

Dali

Para diante

Por nada e sem nada

Cada vez mais sem nada

Porque encontrei

Uma estrada.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Se ao menos

Se ao menos fosse cavaleiro pela neve

Sem saber a hora nem o dia

Se ao menos fosse o passo ou a neve

Que pensamento seguiria

Sabendo apenas que a beleza morde

Como um lobo salta para as gargantas?

domingo, 4 de dezembro de 2022

Felicidade dos bichos da fruta

Dizer que me fazes tanta falta

Que muitas vezes me recolho ainda

No pomar onde me surpreendias nua

Quando andava a estudar a felicidade

Dos bichos da fruta

Sem fazer ideia de quem tu eras

Te tomava por uma depravada astuta

Destapando-se maliciosamente

De entre as videiras

Atravessando-se nos meus olhos incrédulos

Que te fixavam

Como ofegante me apressava para ti

Dizendo espera espera

Enquanto desaparecias

Furtando o sexo ao meu desejo

E eu ficava com as uvas

E o sol

Em todas as partes que tocava

Projetava a tua sombra.

 

sábado, 19 de novembro de 2022

Falar idiota

Os estranhos sentidos das coisas transformadas

Em sombras de outras coisas

Que não foram

Em barcos ancorados sobre o dorso

Que alguma vez tiveram

Quando foram nadas

Ou apenas eram

Desejadas

Estranhas ilusões

Que nos povoam realmente

E nos percorrem

Como se fossemos estradas

Que deixamos para trás

Porque não imaginamos

Que viriam sequer a existir

De uma forma que está longe

De ser a melhor possível

De alguém sentir outonos

Ou falar idiota.

 

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Sensacional


O hábito ao que é sonante

E ensurdece

Ao que destoa e preocupa

Ao ruído esgotante

Às ladainhas e às rimas

Ao esquerdo direito

“Up” is...

Esquerdo

Como um rio murmurante

Que fica para trás

E se ouve constante

Ao que é doce

E viciante

Ao se não é

Que fosse

Comediante

À espoleta do relógio

E ao monólogo do lente

Entediante

É uma azáfama

Frustrante

E por aí adiante.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O poeta é o criador das musas

Sem pretender acrescentar um chavo ao que se tem dito e escrito sobre poesia e poetas, não resisto a expender algumas notas sobre uma matéria que sempre tive no centro dos meus circunlóquios, não apenas para escapar a uma força centrípeta insuportável, mas também para não me perder em coisa nenhuma, porque, sem poesia, a função da vida é muito mecânica e, com poesia, pode ser menos satânica.
De modo que o poeta, se constrói memórias, é sem o saber e evita essa cilada que o tempo coloca no caminho de que reflete e sente o que lembra e pensa isso tudo de um modo que não é de todo inocente e ingénuo e "naïf".
O poeta desconstrói memórias, dele e dos demais, do que aconteceu fora e dentro do seu mundo, como se elas desconstruíssem os mundos, interiores e exteriores, de tal modo que ele não encontra o seu lugar, por mais que lho reservem.
O poeta é desconstruído pelas memórias, que tem, que perdeu e que não foi capaz de reconhecer, como um corpo pelo oxigénio em que arderam as suas células.
O poeta é o criador das musas que o enjeitam e julga saber disso, até certo ponto.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Se o coração falasse

Esteja onde estiver

Faça o que fizer

Pense o que pensar

Diga o que disser

Tenha o que tiver

Sinta o que sentir

Está onde não estou

Estou onde não está

A pedra a ouvir

Se o coração falasse

Diria mil poemas

À tentativa de possuir

Outros mil ao sentir

A falta

Muitos mais ao engano

Que há nisso tudo

E no que falta sentir

Que nunca é de mais

Se for beleza

Por mais que confunda

A céu aberto

Até o desejo doer

Na cava profunda

Da sombra suave

De castelos de areia

Diria mil tolices

Às flores por perto

Sem fazer ideia do tempo

Sem sepultura

A voltar para trás

Aos gritos

Para fazer a vontade

Aos versos aflitos.

domingo, 23 de outubro de 2022

Emboscadas

Por onde vão sem estradas

Nem marcas de ninguém

Se houver escadas 

Para o além

Por onde vai sem música  

O deambulo sem senão

Das ninfas disfarçadas 

De mulheres de alguém

E o alvoroço que resta

Um pouco mais aquém

Por onde vão não há senão

Mundo de ninguém

E não conforta senão

A quem liberta

Não ter porta

Nem cerca.


sábado, 15 de outubro de 2022

Viver

Ai o sublime prazer de coçar

A metafísica comichão

A divagar

Com pródiga comoção

Que ora enxota a pulga

Ora exalta o cão

A elevar a imagem

Que não faz questão

Senão do valor

Da opinião esfarrapada

Sobre uma ópera interrompida

Por uma sorte avara

Que mudou a vida

E esquecer que a saudade

É a última a morrer

Que não se mata saudades

De ter sido

E de não ter sabido

Viver

Peculiares são os rios

Que tortos dançam

Na nitidez dos olhos

Avançam

Na noite alcançam

Definires 

De momentos belos

Que nos esquecem

Quando menos esperamos

Onde havia castelos

Só nós estamos.

domingo, 9 de outubro de 2022

Confesso que vivi

Confesso que vivi 

Sem pensar em preservar o que tinha

O espaço e a minha liberdade

A visão do meu mundo

Da casa grande

Das vistas largas

Onde cabiam

Quase todos os sonhos

Que havia

Da tranquilidade

Da interminável vinha

Onde nidificavam as aves

Que eu conhecia pelos nomes

Todos os sóis e chuvas

E todas as luas

Que ali me encontravam

Com a alegria e as uvas

Que não faltavam

Na paz criativa da fantasia

De falar incansavelmente

Com as coisas

E de elas falarem comigo

Como se fossem encarnações

Do maior amigo

Que era Deus

Anunciando o outono

E o inverno

E a primavera

Naquele paraíso privado

Em que havia mistérios

Sombras por todo o lado

E estrelas no firmamento

Mas tudo com tal significado

Que até a tristeza

Ali acontecia

Como concretização

De alguma profecia

De milhões de anos

Nem nos dias de nevoeiro denso

Me perdia

Porque havia no ar

Um cheiro dos lugares

Da beira rio

Ou o ladrar dos cães

À passagem das muares

Do moleiro pelos socalcos

Se a noite caísse nos becos

Sem chegar a casa

Bastava um assobio

Para ouvir os ecos

De socorro

Do mundo inteiro.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Metáforas

Os que fecharam as portas

Deixaram o silêncio de fora

A vadiar como um penitente

Até que o silêncio

Tomou conta de tudo

E quando as portas se abriram com o vento

Ele saiu de dentro

E pos-se a vadiar como um rio novo

A que não se chamaria rio ainda

E talvez não venha a ser

Senão metáfora de deus.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Derivas ideológicas

Vale a pena pensar no problema das derivas ideológicas e equacioná-lo no tempo, para termos uma perspectiva espácio-temporal que nos ajude a medir proporcionalidades e tentar compreender os fenómenos. 

A mim, intriga-me e instiga a minha curiosidade, por exemplo, que no extraordinário curto período de cerca de 60 anos, numa época sem TV, de analfabetismo generalizado, muito longe das comunicações do nosso tempo, o marxismo, os movimentos sindicais, as lutas e reivindicações dos trabalhadores se tenham generalizado e disseminado por toda a parte, com grande sucesso. 

E que, o muito que a esses movimentos devemos, apesar dos custos de revoluções, guerras e conflitos de todo o tipo, tenha sido tão facilmente ofuscado e ignorado numa época em que dispomos de meios sofisticadíssimos de comunicação social. 

Parece que as condições que explicam o sucesso daqueles movimentos socialistas foram sendo afastadas a tal ponto que o sucesso desses movimentos ditou que perdessem algum do seu sentido, como alguém que abandona a medicação por se sentir curado. 

Ora, estamos a assistir a um recrudescer das infecções por abrandamento de anticorpos. 

É certo que já não estamos nos alvores da revolução industrial e da exploração do proletariado e que podemos contar com um armário cheio de medicamentos e de terapias. Os próprios vírus sofreram mutações irreversíveis. 

Tudo isto exigirá que se actualizem os antídotos, uma vez que as vacinas já não produzem efeitos.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Elogios

Elogio a pluma

Que toca a tua face

A rapsódia de luzes

Do teu cabelo

O disfarce

No escuro dos teus olhos

Submersos acenos

Do fino traço

Da tua silhueta

Amenos

Dardos pestanejam

De estrela para planeta

Recados sem venenos

Almejam

De uma caneta

Da espessura da boca

Elogio a seda

Da tua nuca

A escorregar dos ombros

Para o dorso

Destapando íntimos contornos

Ao suave decalque

Dos dedos

Num código tátil

Que abre

Sem quaisquer medos

Algemas secretas

Túmidos fonemas

Numa excitação desenfreada

Elogio as tuas pernas

No centro da tempestade

Bonança de poemas.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Perfeito só Deus

Até a ideia de perfeição está longe de ser perfeita.
Deus tem de ser perfeito, porque não seria Deus se o não fosse. Mas isto é circular, é o homem a inventar a hipótese de um absoluto que devia existir.
Deus foi criado porque devia existir.
Mas, tal como a perfeição, não existe.
Faz falta? Não sei se faz e não temos outro remédio senão tentar fazer aquilo que é preciso, tanto do ponto de vista dos juízos de ciência, como dos juízos estéticos, éticos, morais e religiosos.
Aliás, e esta é uma teoria inovadora, que estou a trabalhar e a testar desde há algum tempo, o homem, quer como indivíduo, quer como pessoa individual, escolhe o melhor em todo o tipo de situação em que poderemos falar de escolha, racional, consciente, ainda que a melhor escolha não seja boa e, muitas vezes, seja má.
Parece-me plausível que a noção de perfeição tenha sido trabalhada e cultivada sistematicamente na esfera do entendimento do que sejam as virtudes e como prato forte da moral religiosa e das teologias, incluindo as pagãs.
Ao entrarmos nesse capítulo, vamos abrir a porta a um museu em que podemos entrar para aprender sempre muito, até da história dos homens que acreditaram que a perfeição é algo que já existiu, que tem vindo a degenerar sucessivamente e que até Deus não consegue, ou não quer remediar, convivendo com a imperfeição de todas as coisas, excepto dele próprio, o que parece ser insólito.
De acordo com a teoria que estou a desenvolver, tudo parece mais simples e coerente se aceitarmos que não há cultura para além da humana, que só o homem dá sentido à realidade, que nenhuma outra realidade senão o homem dá sentido ao homem e que as escolhas do homem são as melhores.
Se assim for, estamos naturalmente determinados a uma melhoria tendencial, por via dos nossos actos individuais e das deliberações sociais a que não chamaria progresso, mas efeito de vivermos sob a égide do dever-ser, no sentido em que, para o homem o ser é o que deve ser (categórico, por imperativos de verdade, de necessidade, de lógica, hipotético, nas situações em que as escolhas têm como critérios meras crenças, de ordem estética, ética, moral, política, económica...).

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

A democracia dá muito trabalho

A democracia, enquanto conceito e prática cultural e política, tem evoluído ao longo dos séculos de um modo sempre perturbador para doutrinas, sejam liberais, socialistas, comunistas, religiosas, quer no que tange à vertente educativa e socializante destas, quer no que respeita à pretensão mais ou menos totalitária e ditatorial derivada do facto de serem monolíticas e incompatíveis entre si.
A democracia pode ser sempre mais democrática, mas o liberalismo, o socialismo, o comunismo, as religiões, não são democráticos. Diferentemente destes, a democracia não é doutrina.
A democracia é o que permite e obriga à coexistência do que, sem essa coexistência, a democracia não existia. Todos os poderes tendem a usar a democracia para a aniquilarem.
No fundo, ninguém, nenhum partido, nenhuma doutrina política, nenhuma igreja, é democrática, ou, se o são, é porque não têm outro remédio.
Apesar disso, a democracia, entre nós, e por notáveis pergaminhos nos EUA, tem sido capaz de obter as mais cínicas declarações de amor, de todos os partidos, com destaque dos partidos comunistas, que se aproveitam dela, enquanto puderem, enquanto ela o permitir.
A democracia tem estado debaixo dos ataques de todos e há cada vez mais loucos que acreditam que acabar com a democracia é uma verdadeira expressão de democracia, mas isso já é uma subversão dos termos, é pretender anular a evolução das realidades políticas e regredir para épocas anteriores às grandes conquistas da cultura.
A democracia, o estudo da democracia, devia ser uma disciplina para ser trabalhada numa perspectiva científica, como se estuda, por exemplo, o Direito do Direito.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Falar de amor

Quando nos encontramos

Já tinha percebido

Que não iriamos falar de amor

Porque não sabíamos como

Senão ficarmos a olhar

As palavras não faziam falta

Não havia perspectiva

De nós próprios

Nem do que é amar

Os silêncios ancoravam

Naquele bar sem música

Sem imaginação

Sem perspectiva nenhuma

Quando estávamos a olhar

Se viessem os ensurdecedores

Com foguetes e tambores

Sairíamos daquele lugar

Em que nos encontrávamos

De mãos dadas

E só pararíamos nalgum sítio

Por alguma razão que desconhecemos.

sábado, 20 de agosto de 2022

Não há sonhos que o sejam mais

Todos temos os nossos momentos únicos

Os nossos tempos de glória divertida

Para recordar e fazer a história

Depois vêm outras experiências

Demonstrar que todos estiveram no centro

Do que vale a pena ou já não vale a pena

Recordar

E é triste perceber que não somos especiais

Porque cada um é especial à sua maneira

Com a história que ninguém sabe contar

Ou simplesmente não conta

Porque não conta

Senão para si próprio

Mas nada impede

E nada dispensa

Nem substitui

A própria narrativa da vida

Não há duas iguais

E os sonhos não se trocam por nada

Nem há sonhos que o sejam mais.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

A criação e a descrição dos processos criativos


Quando ficarem descritos e conhecidos e explicados os processos criativos, continuar-se-á sem saber e sem poder prever o que vai ser criado. E isto já era assim, quando no princípio era o verbo (dos processos criativos).
Até as descobertas científicas com mais repercussão nos nossos tempos, não criaram as coisas existentes mas deram-lhes uma "existência", ou representação, que elas não tinham. O que, por exemplo, Newton e Einstein descobriram, e que corporizaram nas suas teorias, não são realidades novas, não são naturezas novas. São realidades culturais novas (e nesse sentido são naturais, porque são humanas), entendimentos sobre realidades que talvez já existissem, acontecessem, funcionassem, muito antes do aparecimento do homem.
Até que ponto esses entendimentos, representações, modelos explicativos, podiam ter sido outros, ou serão substituídos por outros, é um dos aspectos mais intrigantes e fascinantes da aventura do conhecimento.
E é, no fundo, o intrigante e fascinante funcionamento da relação entre realidade, linguagem e conhecimento, ou, de como é viável falar de realidade senão pela linguagem e que conhecimento é esse.

sábado, 13 de agosto de 2022

Seca e sede

Este ano tem sido seco

Como a eternidade

Não há palavras que molhem

A palha que arde

Nem chuvas que deem de beber às fontes

Que têm sede

De verdade.