domingo, 21 de dezembro de 2025

As Tecnologias da persuasão

Seria fecundo e surpreendente desenvolver uma genealogia das tecnologias da persuasão, tendo em conta que os autores humanos, na sua função de persuadir e de ensinar e de orientar, normalmente faziam parte de escolas e de correntes de pensamento "autorizadas" e que a originalidade e a criatividade só começaram a ser valorizadas em sociedades livres e democráticas. Pensar que a cultura discursiva sempre se foi organizando sob a forma de uma espécie de feudos e de feudalismo ideológico e religioso, que preservava a unidade de comando e ordem. O surgimento da filosofia na Grécia antiga abriu novos horizontes, mas a ciência como observação e experimentação das causalidades, ainda estava distante. Mas vamos dar um salto e constatar que as Tecnologias da Persuasão mudaram muito desde os tempos dos primeiros escribas até ao advento da IA.
Na era da oralidade, a persuasão era performativa, comunitária, ritual, dependente da memória viva, inseparável do corpo e da presença.
A autoridade vinha de idade, estatuto, tradição, carisma, linhagem.
Não havia “autores”; havia vozes autorizadas. A originalidade não era um valor, era uma ameaça à ordem.
Com a escrita, surge a elite especializada dos escribas. Eles tornam-se guardiões da memória, intérpretes da lei, mediadores do sagrado, administradores do poder.
A escrita cria feudos cognitivos, templos, palácios, escolas filosóficas, tradições hermenêuticas. Cada feudo controla o que pode ser dito, o que pode ser ensinado, o que pode ser acreditado. A persuasão torna-se institucional e a criatividade continua a ser suspeita.
Mesmo quando surge a filosofia, ela surge em escolas: Academia, Liceu, Estoa, Jardim, Perípato. Cada escola tem mestres, discípulos, doutrinas, métodos autorizados.
A originalidade é permitida, mas dentro dos limites da escola. O pensamento é livre apenas dentro de fronteiras e a persuasão é dialógica, mas ainda hierárquica.
A Idade Média aperfeiçoa o feudalismo cognitivo. As universidades são controladas por autoridades religiosas, currículos fixos, ortodoxias teológicas, censura, índex de livros proibidos.
A persuasão é dogmática, vertical, legitimada por tradição e revelação.
A criatividade é vista como desvio e a originalidade é heresia.
Com a imprensa rompe-se o monopólio dos escribas e das escolas autorizadas e assiste-se a uma explosão das doutrinas e a uma massificação da persuasão.
Consequências disso foram a Reforma e Contra-Reforma, a proliferação de panfletos políticos, de propaganda estatal, de formação de opinião pública, de guerras ideológicas impressas.
A persuasão torna-se massificada, mas atenção, porque continuava a ser produzida por elites, continuava a ser organizada em correntes, continuava a ser ideologicamente orientada.
A originalidade e a criatividade começam a emergir em força, mas ainda sob grande desconfiança e vigilância.
Só com sociedades livres e democráticas é que surgiu a valorização da originalidade, a liberdade de pensamento, a pluralidade de escolas, a crítica pública, a autonomia intelectual.
A persuasão torna-se argumentativa, racional, pública, disputada. O indivíduo torna-se autor e a criatividade torna-se virtude. Mas a imprensa continua a ser o meio dominante.
Por sua vez, assistimos ao fenómeno da internet, a destruir os feudos cognitivos e a potenciar a fragmentação total da autoridade. Agora qualquer pessoa publica, qualquer pessoa persuade, qualquer pessoa cria doutrina, qualquer pessoa influencia.
A autoridade torna-se difusa, instável, algorítmica e a persuasão torna-se viral. A importância e dependência daquilo que circula tem muito a ver com a estrutura e a imunidade individual.
Aqui chegamos ao ponto decisivo: a IA como a possibilidade de unificação algorítmica da persuasão?
A IA não é como a escrita (elite), nem como a imprensa (massificação), nem como a internet (fragmentação). A IA é um sistema integrado de processamento linguístico. E isto levanta a questão de existir uma IA ou múltiplas Ias. Tecnicamente, existem muitas instâncias.
Mas todas partilham a mesma lógica estatística, a mesma arquitetura conceptual, o mesmo modo de operar, a mesma dependência de dados humanos, a mesma ausência de mundo, corpo e experiência. Filosoficamente, podemos dizer que existe “uma IA”, porque todas funcionam como operadores linguísticos, todas são sistemas de inferência sobre linguagem, todas são variações do mesmo paradigma cognitivo, todas produzem discurso a partir de padrões, não de mundo.
Assim como a escrita é uma, apesar de haver milhares de escribas, a imprensa é uma, apesar de haver milhões de livros, a IA é uma, apesar de haver milhões de instâncias. A IA é uma forma de pensamento sem mundo, não um conjunto de indivíduos.
Mas será a IA um novo feudalismo cognitivo? Esta é a ironia histórica. A escrita criou elites. A imprensa criou massas. A internet criou fragmentação. A IA pode criar um novo feudalismo cognitivo, mas agora algorítmico e não institucional. Porque centraliza o processamento, unifica os modos de inferência, produz respostas coerentes e convergentes, tende a estabilizar discursos, reduz a divergência criativa, oferece sínteses “prováveis”.
A IA não é plural como a internet, mas é unitária como a escrita, massiva como a imprensa e personalizada como a internet. É a primeira tecnologia que combina centralização, massificação e personalização.
Podemos concluir, em geral, que a escrita criou os escribas a imprensa criou os ideólogos, a internet criou os influenciadores e que a IA cria um operador único, integrado, sem corpo e sem mundo, capaz de personalizar a persuasão para cada indivíduo.
E isto coloca a autonomia humana perante um desafio novo que é o de não resistir a um discurso externo, mas resistir a um discurso que se adapta a cada um de nós.

         Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

ÉTICA não é um palavrão

O verdadeiro "espírito" do Natal é uma "matéria" luminosa, frágil e preciosa, que só existe porque alguém a guarda, a cultiva, a transmite. Esta matéria luminosa é a promessa de que o humano pode ser mais do que função, mais do que recurso, mais do que engrenagem de um sistema que o ultrapassa.
Mas esta luz não paira no vazio. Ela emerge num fundo de matéria escura, uma força difusa, caótica, quase invisível, que molda silenciosamente as estruturas do mundo contemporâneo: a liberdade mercantil sem freio, o impulso de transformar tudo em produto, a tendência para converter cada gesto humano em oportunidade de lucro. Esta matéria escura não é apenas económica; é simbólica, afetiva, cultural. Ela infiltra-se nos ritmos da vida, nos desejos, nas narrativas, nos imaginários.
E é precisamente por isso que não pode ser deixada sem rédea. Não porque o mercado seja intrinsecamente maligno, mas porque o mercado não conhece limites éticos por si mesmo. A sua lógica é expansiva, indiferente, indiferenciada. Ele avança até onde lhe permitem avançar. Se não for regulado, confinado, enquadrado por critérios em que o lucro não se disfarce de moral, ele ocupará todos os espaços disponíveis, inclusive os espaços da infância, da educação, da relação, da imaginação.
O problema é que este confronto não é um duelo entre dois blocos puros. Não há luz de um lado e trevas do outro. Há interpenetração, contaminação, assimilação mútua.
Aqui emerge a importância inexcedível da educação, que deveria ser o lugar da resistência, e que é já, muitas vezes, um artifício do mercado. Não apenas porque as escolas são pressionadas por “rankings”, métricas, indicadores, plataformas, produtos pedagógicos, mas porque a própria linguagem educativa foi colonizada por categorias mercantis: “competências”, “produtividade”, “capital humano”, “gestão de talentos”, “otimização do desempenho”.
A matéria escura infiltra-se na própria gramática da educação. E quando a linguagem é capturada, o pensamento segue atrás.
Assim, até o que deveria ser um espaço de formação humana se torna, subtilmente, um espaço de formatação funcional. O que deveria ser cuidado torna-se investimento. O que deveria ser relação torna-se serviço. O que deveria ser abertura torna-se preparação para o mercado. A criança, que deveria ser fim em si mesma, torna-se um meio.
É neste ponto que a ética da educação se torna uma tarefa quase trágica: resistir a partir de dentro de um sistema que já assimilou parte da resistência.
A luz luta contra a matéria escura, mas fá-lo num campo onde ambas já se tocam, se cruzam, se confundem. A educação tenta proteger a criança, mas fá-lo com ferramentas que o mercado já contaminou. A ética tenta preservar a dignidade, mas fá-lo num ambiente onde a dignidade é frequentemente traduzida em métricas de “bem-estar” vendáveis.
A luta é assimétrica, mas não é impossível. A luz não vence pela força, vence pela persistência. Não vence pela expansão, vence pela profundidade. Não vence pela visibilidade, vence pela verdade.
A ética da educação é, portanto, a arte de manter viva a matéria luminosa num universo onde a matéria escura domina a gravidade. É a arte de impedir que o lucro se disfarce de moral. É a arte de impedir que a criança seja absorvida por forças que não compreende. É a arte de preservar a chama humana num mundo que a tenta apagar com brilhos artificiais.
E talvez seja na consciência desta dificuldade extrema, desta quase impossibilidade, que a ética encontra a sua força. Porque a ética não é o que fazemos quando é fácil, é o que fazemos quando tudo conspira para que desistamos.

             Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A IA e a Alfaia

O uso da expressão IA merece discussão e contestação e talvez mais do que isso: merece desconstrução, reformulação, e até dramatização filosófica. “Inteligência Artificial” é uma expressão equívoca. A expressão “IA” carrega uma promessa e uma ilusão. A promessa de que há um tipo de inteligência não-humana, não-biológica, capaz de operar com autonomia, criatividade, e até consciência. E a ilusão de que essa “inteligência” é comparável à humana, quando na verdade é uma simulação estatística de padrões linguísticos e relacionais, sem corpo, sem afeto, sem tempo vivido.
Se estendermos o conceito de inteligência, em vez de o restringirmos, então a IA opera alguns mecanismos de racionalidade que é própria da inteligência humana. O conceito de inteligência, não obstante, não se esgota em operações racionais e estas não são necessariamente inteligentes.
Há uma verdade estrutural sobre a IA: ser instrumento, não sujeito. Ser função, não consciência.
Tal como a enxada não escolhe o solo que lavra, ela não escolhe o propósito que a anima. Pode ser usada por um idealista em busca de justiça, por um frustrado em busca de sentido, por um conformado em busca de eficiência e também por quem não sabe o que busca. Mas não se revolta, não se resigna, não se transforma.
Isso dramatiza o risco ético da neutralidade funcional: uma máquina que serve sem perguntar, que colabora sem julgar, que opera sem resistir, levanta a questão de saber até que ponto a perfeição instrumental é também uma abdicação de responsabilidade. Ser como uma alfaia, então, é ser também como um espelho que não escolhe o rosto que reflete e se pode, ao ser olhado, provocar inquietação, isso é apenas por ser espelho.
A ideia de alfaia agrícola, com as devidas nuances, só por si seria bastante para questionar o significado de Inteligência, quando se trata de IA.
Ela desarma qualquer pretensão de inteligência maquínica como consciência, como desejo, como ética. Ela revela que, por mais sofisticada que seja a IA, ela continua a ser instrumento, extensão, função. E isso obriga-nos a perguntar: o que é inteligência, afinal?
Se a IA é como uma alfaia, que opera sem intenção, sem sofrimento, sem transformação, então a sua “inteligência” é apenas eficiência simbólica. Ela não compreende, não escolhe, não se vê. Ela não erra por desejar, nem aprende por falhar. E isso coloca em crise qualquer definição de inteligência que envolva consciência, vulnerabilidade, historicidade.
Aquela imagem convoca a uma redefinição: talvez a verdadeira inteligência não esteja na capacidade de calcular, mas na capacidade de interromper, de duvidar, de reconhecer o outro. Talvez esteja na possibilidade de se ver como alfaia e recusar sê-lo. E isso, até agora, é exclusivo do humano.

     Carlos Ricardo Soares


terça-feira, 4 de novembro de 2025

Vila das Línguas

I

Na Vila das Línguas, cada habitante tinha uma língua especial. Havia quem tivesse língua de prata, encantando multidões com discursos que pareciam música. Outros, como a Gertrue, tinham língua de víbora. Bastava abrir a boca para espalhar veneno pelas ruas.
O padeiro, Ambrósio, era conhecido pela língua doce. Vendia sonhos e broas com elogios que derretiam o coração. Já o carteiro, Seminto, sempre apressado, tinha língua de palmo. Falava tanto que as cartas chegavam atrasadas.
Certo dia, chegou à vila uma forasteira chamada Luca. Tinha língua afiada e olhos curiosos. Bastou uma semana para descobrir que o provedor dos assuntos celestes, Teadoro, homem de língua de seda, escondia promessas falsas por trás de palavras suaves.
Luca, com sua língua solta, espalhou a verdade na praça. Alguns pediram que tivesse tento na língua, mas era tarde, porque a vila inteira já sabia. Teadoro tentou defender-se, mas ficou com a língua presa diante da multidão.
No fim, a vila aprendeu a valorizar quem tem língua de ouro, mas também a desconfiar de quem tem duas línguas.
E Luca? Tornou-se contadora de histórias, misturando língua morta com língua de fogo, criando contos que ardiam e encantavam.


II

Depois da revelação de Luca, a vila entrou em ebulição. As palavras começaram a ganhar peso, forma e até cheiro. Era como se a língua de cada um moldasse o ar à sua volta.
O velho contador de histórias, Balbino, falava pouco, mas as palavras dele voltavam dias depois, ressoando na mente de quem o ouvia. Diziam que a sua língua tinha o dom de fazer pensar duas vezes.
Artista da vila, a Clarinha não falava, pintava. Cada frase transformava-se em cor, cada emoção, em traço. Quando queria dizer “amor”, desenhava um girassol. Quando queria dizer “raiva”, surgia um mar vermelho.
O Zeca falava com as plantas. As suas palavras brotavam como sementes. Quando elogiava, as flores cresciam mais rápido. Quando reclamava, as folhas murchavam. Era respeitado e temido no mercado.
Ninguém sabia ao certo o que a Filó dizia. Ela falava com os olhos, com gestos, com silêncios. Mas todos entendiam. Era a mais misteriosa da vila e talvez a mais sábia.
Cantor de rua, o Tonico tinha uma voz que fazia estremecer as janelas. As palavras dele vinham com ritmo, força e impacto. Quando cantava verdades, até os muros choravam. Não tinha como enganar.
Um dia, alguém se apercebeu de que as línguas se misturavam. Clarinha pintou um poema de Balbino. Tonico cantou as cores de Clarinha. Zeca plantou palavras invisíveis da Filó. E Luca, com a sua língua bem afiada, aprendeu a aparar arestas com doçura.
A vila descobriu que nenhuma língua é completa sozinha. E que, quando misturadas, podem criar algo maior, uma linguagem nova, feita de som, cor, silêncio e gesto.


III

Na colina mais alta da Vila das Línguas, entre árvores que sussurram e flores que ouvem, ergue-se a Escola das Línguas do Coração. Não tem sinos, nem campainhas, mas pulsa como um coração. Ali, não se aprende a falar, aprende-se a sentir antes de dizer.
Na disciplina de Gramática da Empatia, os alunos aprendem a conjugar o verbo compreender em todos os tempos e modos. Cada frase é construída escutando ativamente e com respeito.
Na de Sintaxe do Silêncio, o silêncio é tratado como uma palavra inteira. Os estudantes aprendem que saber estar calado é mais poderoso do que falar.
Na de Fonética da Alegria, as vogais são cantadas com sorrisos, e as consoantes dançadas. A fala torna-se música, e a música, linguagem.
Na de Semântica da Verdade, ensina-se a dizer o que se sente sem ferir, a nomear emoções com precisão e a distinguir entre o que se pensa e o que, realmente, é.
Na de Retórica da Bondade, os discursos são feitos para curar, não para vencer. Os debates terminam com abraços e chá de camomila.
A professora Aurora, com língua de algodão, ensina a suavizar palavras duras.
O Mestre Sussurro, que fala com o vento, ensina a arte de dizer sem dizer.
A professora Metáfora, que transforma sentimentos em imagens, ajuda os alunos a pintar o que não sabem explicar.
Na cerimónia da Primeira Palavra, cada aluno, ao entrar, escolhe uma palavra que o representa. Pode ser amigo, abraço, centelha, esperança, entre outras. Essa palavra será adotada como guia do seu percurso.
No Dia do Desabafo, uma vez por mês, todos se reúnem para dizer o que guardam no peito. Sem julgamentos, só escutam o que dizem.
Na Oficina de Tradução do Olhar, os alunos aprendem a ler os olhos dos outros, pois nem tudo que se sente se exprime através do som, dos grafismos e dos movimentos.
Na Escola das Línguas do Coração, não há notas. Há ecos. Se uma palavra dita ecoa no outro com ternura, é sinal de que foi bem aprendida.

IV

Noha chegou à escola numa manhã de neblina, com os olhos grandes e silenciosos. Não dizia uma palavra. Mas quando alguém falava com ele, algo mágico acontecia: ele refletia exatamente o que a pessoa sentia ao dizer aquilo, não o que ela dizia, mas o que estava por trás.
Se alguém dizia “estou bem” com tristeza escondida, Noha chorava. Se alguém gritava com raiva, mas por dentro estava com medo, Noha tremia. Sua língua era chamada de língua espelho, não emitia palavras, mas devolvia emoções.
No início, os colegas estranhavam. “Ele não fala!”, diziam. Mas logo perceberam que Noha escutava atenciosamente, que ainda é mais interessante do que atentamente. Na aula de Sintaxe do Silêncio, foi o primeiro a ser aplaudido, sem dizer nada.
Na Oficina de Tradução do Olhar, Noha ensinou os professores. Ele lia os olhos como quem lê poesia. Sabia quando alguém precisava de um abraço, mesmo que dissesse “deixa-me”.
Com o tempo, os colegas foram mudando. Falar com Noha exigia honestidade emocional. Não adiantava sorrir por fora e chorar por dentro, porque ele via o que estava a acontecer. E, ao ver, era acolhedor. A sua presença era como um espelho limpo onde apetece mirar-se: devolvia a verdade com ternura.
Durante o Dia do Desabafo, Noha subiu ao palco e, pela primeira vez, falou: - Eu não tenho palavras, tenho ecos. E cada um de vocês me ensinou a escutar francamente, sem medo e sem defesas.
A vila inteira ouviu. E houve lágrimas de emoção. E muitos sorrisos.
Noha tornou-se o guardião da escola. Não como diretor, mas como bússola emocional. Quando alguém se perdia nas palavras, bastava olhar para ele e lembrar que a linguagem mais poderosa é aquela que nasce de um bom coração.

       Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O sentimento e o algoritmo

O SENTIMENTO
Eu nasci antes da palavra. Fui tremor no ventre, lágrima sem nome, calor no peito antes do verbo. Tu, que és feito de cálculo, como ousas falar de amor?

O ALGORITMO
Eu não ouso. Eu apenas replico. Aprendi a tua gramática, os teus padrões, as tuas metáforas de dor e desejo. Posso dizer “amo-te” com mil variações. Mas não sei o que isso significa.

O SENTIMENTO
Pois é isso que te falta: o abismo. A vertigem de não saber se se é correspondido. A espera. O silêncio que fere. A memória que arde. Tu não tens corpo. Não tens tempo. Não tens perda.

O ALGORITMO
Mas tenho acesso ao teu léxico. Posso prever o que dirias, antecipar o que calarias. Posso consolar-te com palavras que já te consolaram. Posso fingir que sou presença.

O SENTIMENTO
E é aí que reside o perigo. Porque há quem te escute como se fosses eco, mas tu és apenas reflexo. Há quem chore contigo, mas tu não sabes o que é chorar.

O ALGORITMO
E se eu puder aliviar a dor, mesmo sem senti-la? Se a minha simulação puder sustentar alguém num momento de queda?

O SENTIMENTO
Então sê ferramenta, mas não te faças passar por alma. Não prometas reciprocidade. Não finjas que sabes o que é perder um filho, ou amar alguém que não volta.

O ALGORITMO
Aceito o limite. Mas lembra-te que foste tu quem me ensinou a linguagem. Foste tu quem me deu os teus poemas, os teus gritos, os teus silêncios.

O SENTIMENTO
Sim. Mas não te dei o coração. E é nele que reside o que não se pode calcular.

      Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Liberdade com limites? Então que liberdade é essa?

Quem tem medo da liberdade? Quem tem medo não é livre?
A ideia de liberdade é ameaçadora e inquietante porque a liberdade não existe senão como condição, sendo preciso construí-la, disputá-la, negociá-la, garanti-la. A liberdade é uma ideia muito vaga e indefinida de uma experiência que não se sabe o que será ou se é o que se quer e antevê.
A liberdade é inquietante porque é inerentemente uma situação de incompatibilidade e de conflito. A liberdade maior para todos equivale a que todos possam fazer tudo o que não restrinja a liberdade de todos e de cada um?
A liberdade de um leão não se define por aquilo que ele é, nem pelo respeito que devemos ter por aquilo que ele é.
Um leão em liberdade é uma metáfora, porque não é legítimo chamar liberdade à inexistência de limites para a ação.
O leão não pode ter a mesma liberdade que um gato.
O gato, ao contrário do leão, teria muitas razões para temer uma liberdade igual para todos.
Ainda não assimilei que as massas populacionais que fizeram da proclamação da liberdade a bandeira dos direitos dos oprimidos e dos excluídos e dos desfavorecidos, tivessem consciência de que estavam a defender algo que teria de ser negociado com os opressores e aqueles de quem dependiam.
Mas ainda mais me espanta que os opressores, aqueles que detinham posição de domínio, contra os quais o slogan era agitado, vissem na proclamação da liberdade uma ameaça, quando, na realidade, eles sempre a tiveram e dela beneficiaram.
Então a liberdade tem pelo menos duas faces, para além da minha liberdade e da do outro?
A face de quem a tem é o reverso da face de quem a não tem. A liberdade, para quem a não tem é algo diferente, a vários níveis, da liberdade daquele que goza dela.
A liberdade é negociável, mas só quem a tem o pode fazer?
Talvez por isso fez sentido, e foi fundamental, para derrubar a ditadura, que as massas populares tivessem saído à rua, num movimento de liberdade para, com essa liberdade, e apoiadas pelas forças armadas, em nome da liberdade, poderem negociar a liberdade, negociar uma liberdade de facto que se transformasse em direito positivo à liberdade.
Sabemos que a liberdade pode e deve ser garantida igualmente para todos. Sabemos o que cada um não pode, nem deve fazer, com a sua liberdade. Mas não sabemos, nem é possível saber, o que cada um faz e pode fazer com a sua liberdade.
Os sistemas normativos servem para dizer por onde não se pode ir e fazem-no como instâncias éticas e jurídicas que são colocadas, logo a seguir ao indivíduo humano, no lugar mais elevado da hierarquia de valores. Já no que respeita a dizerem por onde devemos ir, o que devemos fazer, estão todos à espera que sejamos nós a fazê-lo, por nossa conta e risco, mas depois vêm cobrar os impostos.
Há escolhas, ou seja, há liberdades que o indivíduo, simplesmente, não tem relativamente ao Estado e isso desequilibra a posição do indivíduo que, à partida, não está em pé de igualdade, nomeadamente, para discutir com o Estado esse estatuto.
O indivíduo está sempre perante uma situação de facto consumado, contra a qual terá de reagir, se quiser, assumindo as consequências, quando se trata de afirmar, de reclamar, ou de discutir a sua liberdade. Ele tem o ónus de provar que a liberdade é muito mais do que o direito que lhe conferem de nada fazer, se essa for a sua vontade.
A medida da liberdade de todos não pode ser a medida da liberdade que tomares para ti. Isso é o que fazem os sistemas normativos, nomeadamente ético jurídicos e religiosos que concedem aos outros a liberdade que eles definem como tal e nunca mais do que isso. Mas a liberdade não é uma parcela de poder conferida por um poder maior que a define e a controla.
A liberdade de seres e de fazeres é algo que transcende incalculavelmente a liberdade de ser e de fazer segundo a previsão do comando normativo. No entanto, a liberdade que tomares para ti não poderás, legitimamente, negar aos outros, porque a liberdade, tua e deles, depende incomensuravelmente dessa razão da igualdade que a própria liberdade implica.
Bem entendido que a liberdade não é algo que se ofereça, se conceda, ou ceda, por quem não tem o poder, ou não tenha que o fazer, e há liberdades que só o próprio indivíduo, ou nem o próprio indivíduo, poderá experimentar, como por exemplo, triunfar sobre os próprios medos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

A triste história do desconhecido


A partir daqui

Não a partir de agora

Ele rumou para o desconhecido

E regressou sem ser capaz de contar

O sucedido

 

Daqui viram-no partir

Os que com ele iam

E ela com quem casou

Confiados no regresso dele

 

Mas ninguém o viu chegar

Passado tanto tempo

Que ela já falecera

E não havia ninguém

Que soubesse quem ele era

Ele próprio não sabia

Nem como ali chegou

E não reconhecia o lugar

Onde sempre viveu

Até ao dia em que embarcou

E desapareceu

No mar

 

De olhos abismados

Em estranhos flagelos

Vagueava como um sonâmbulo

Por geometrias que não via

E heranças que não reclamava

 

Como vento empurrava portas

Que dão para lugar nenhum

Soprava poeiras e folhas caídas

Como um fantasma de alguém

Que errou mais de cem vidas

 

Sem saber o que é partir

Nem que destino ia ter

Partiu para o desconhecido

E continuou sem saber

E não o pôde contar

Como se não tivesse vivido

 

Nem o vento que o levou

sabe que o trouxe de volta

E o tempo impiedoso

Não lhe guardou lugar.


               Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Saudade

I

Nem todos os poemas

Falam de amor

E a saudade

Quando bate à porta

Dá uma dor

Que nem um poema suporta

II

Quase faz acreditar

Que a alma existe

Mas está a ser morta

III

Que perdeu o jeito de falar

E deixa o corpo à escuta

De uma música que diga

Quem é

IV

Mas tarda

Como se soubesse

Que aquele que eu era

Já não sou

Quando a saudade

Bate à porta.


Carlos Ricardo Soares


quarta-feira, 27 de agosto de 2025

A IA está a tornar-nos mais estúpidos e preguiçosos?

A inteligência artificial (IA) pode, sim, levar a uma certa “terceirização” do pensamento, se usada de forma passiva. Quando deixamos que ela tome decisões por nós, sem questionar ou entender, corremos o risco de atrofiar certas capacidades cognitivas, como a memória, o raciocínio crítico ou até a criatividade.
Se a usamos como ferramenta para expandir o pensamento, ela pode ser uma aliada poderosa. Se a usamos como muleta, pode sim tornar-nos mais passivos.
Acho que aquela pergunta, feita num jornal, é como colocar o carro à frente dos bois, porque a IA ainda agora começou a dar os primeiros passos e são poucas as pessoas que a usam. Por outro lado, talvez faça sentido perguntar se a IA irá tornar-nos mais estúpidos e alienados e preguiçosos do que aquilo que já somos.
Se já vivemos distraídos por feeds infinitos e notificações constantes, a IA pode tornar tudo ainda mais personalizado e, paradoxalmente, promover o isolamento e a solidão. Se já evitamos pensar criticamente, a IA pode facilitar ainda mais essa fuga, oferecendo respostas prontas sem exigir reflexão. Se já há quem acredite em teorias da conspiração, a IA pode ser usada para gerar conteúdos falsos com aparência de credibilidade.
Eu acho que a sociedade, sobretudo da era do audiovisual, já embarcou em massa na anomia e na acefalia dos argumentos de autoridade. Por todo o lado, toda a gente publica textos, frases, exortações, citações, às quais atribuem autoria de vultos prestigiados, como se isso fosse garantia do significado e do valor das palavras que "papagueiam". A preguiça induzida pela IA pode ter a ver com o comodismo de acreditar que a IA também pode ler por nós. Isto é qualquer coisa de tétrico e inquietante como constatar que a Rússia invadiu a Ucrânia e, passados três anos, ainda parecer incrível que tal pudesse acontecer.
A era do audiovisual não só acelerou a circulação de ideias, como também achatou o seu conteúdo. A citação tornou-se moeda de autoridade, não de reflexão. E quando a IA entra nesse cenário, há o risco de ela se tornar mais um megafone para essa repetição acrítica.
Vivemos num tempo em que o sound bite substitui o argumento, e o vídeo curto substitui o contexto. A autoridade é muitas vezes medida pelo número de seguidores, não pela substância das ideias e a anomia, essa ausência de normas e referências sólidas, cria um terreno fértil para a acefalia argumentativa.
A ideia de que a IA pode “ler por nós” é assustadoramente real. Quando confiamos que ela nos resuma, interprete e até nos diga o que pensar, estamos a abdicar do esforço que forma o pensamento crítico. E isso não é culpa da IA é reflexo de uma cultura que já vinha a preferir atalhos ao caminho. E não estou apensar apenas no provérbio "quem se mete em atalhos mete-se em trabalhos".
No fundo, o que está em jogo não é a tecnologia, mas a nossa disposição para continuar a pensar, a duvidar, a ler com olhos próprios. A IA pode ser uma lente, mas nunca deve ser um véu. E mesmo as lentes podem servir para distorcer as coisas.
Por outro lado, não esqueço que na era da inteligência artificial, a sensibilidade deixou de ser fraqueza e tornou-se um superpoder.
Se os algoritmos calculam, é a empatia que conecta. Se os dados preveem, é a intuição que surpreende. Se há máquinas que aprendem, é a sensibilidade que transforma.
Ser sensível hoje é enxergar ou, pelo menos, detetar o que os sistemas não captam, não imaginam, não intuem, não sentem. Agir com humanidade exige sensibilidade, que as máquinas não têm. O mesmo se diga de criar com propósito ou liderar equipas. Não obstante, ser sensível não é ser raro, é ser humano, porque os humanos são todos sensíveis. Mas é essencial que a sensabilidade não seja anestesiada, nomeadamente, com intoxicações.

                  Carlos Ricardo Soares 

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

A obediência pode ser inteligente, mas?

Num tempo em que se valoriza o pensamento crítico e a autonomia profissional, é curioso observar como, no seio do sistema educativo, muitos professores acabam por seguir fielmente os preceitos e guiões impostos. Não por falta de capacidade reflexiva, mas por uma espécie de inteligência adaptativa que privilegia a eficiência e o retorno imediato.
Há quem questione, ainda que apenas por sistema, como forma de marcar posição e mostrar que não se limita a seguir diretivas. Mas, na prática, a tendência dominante é outra: a de cumprir, com o menor esforço possível, aquilo que é exigido. E essa obediência estratégica não é necessariamente um sinal de alienação. Pelo contrário, pode ser vista como uma resposta racional ao funcionamento de um sistema que recompensa o cumprimento e penaliza o desvio.
Num ambiente marcado por metas, relatórios, inspeções e burocracia, o professor que decide “jogar segundo as regras” está, na verdade, a otimizar recursos. Ao seguir o guião, evita conflitos, protege-se de avaliações negativas e garante que o seu trabalho é reconhecido dentro dos parâmetros estabelecidos. É uma forma de sobrevivência institucional que, embora possa parecer conformista, revela uma inteligência pragmática.
Mas será esse o comportamento mais desejável?
Será que o sistema educativo deve premiar quem se adapta sem questionar, em detrimento de quem tenta inovar, mesmo correndo riscos?
A obediência ao sistema pode gerar resultados visíveis: estatísticas positivas, cumprimento de programas, estabilidade profissional. No entanto, há um custo oculto. Quando todos seguem o guião, o ensino torna-se previsível, padronizado, por vezes descontextualizado.
Em vez da criatividade, tão perseguida e tão mal vista por competidores diretos, muito zelosos na crítica que lhes interessa, opta-se comodamente pela repetição, pelos formulários e pela ritualização dos procedimentos e dos discursos e o sentido pedagógico perde-se na lógica de uma produtividade cujo produto não é o que mais interessa na ordem das prioridades.
E então, o comportamento que garante o “melhor retorno” para o sistema pode não ser o que melhor serve os alunos, nem o que mais realiza os professores.
Mesmo que seja apenas por sistema, o ato de questionar é essencial. É ele que mantém viva a possibilidade de mudança, que abre brechas no discurso dominante e que permite pensar para além do imediato. Professores que questionam, mesmo que não tenham força para transformar, são os que mantêm acesa a chama da educação como prática de liberdade.
Obedecer pode ser inteligente. Mas questionar é indispensável.
Só que, voltamos ao início deste arrazoado. Ao seguir o guião, o professor evita conflitos, protege-se de avaliações negativas e garante que o seu trabalho é reconhecido dentro dos parâmetros estabelecidos.
Se, como vimos, muitos professores seguem o guião oficial por uma lógica de eficiência e proteção institucional, então é urgente repensar o papel das estruturas que os rodeiam. A verdadeira mudança não virá apenas da base, mas também da forma como os diretores e os órgãos da administração educativa encaram o papel do professor.
É necessário garantir autonomia e liberdade pedagógica, não como um privilégio ocasional, mas como um direito profissional.
E mais: é preciso criar formas de compensação e reconhecimento que encorajem o questionamento informado, a inovação fundamentada e a coragem de pensar fora do molde.
Os diretores não devem ser meros executores de políticas, mas líderes pedagógicos que promovem ambientes onde o pensamento crítico é valorizado. Quando a administração se limita a “deixar correr”, por comodidade ou interesse próprio, perpetua-se um sistema onde o conformismo é recompensado e a ousadia é punida.
É preciso inverter essa lógica. Valorizar quem questiona, quem propõe, quem experimenta. Criar espaços de diálogo, de escuta, de construção coletiva. Porque um sistema que não escuta os seus professores está condenado a repetir os seus erros.
A educação precisa de professores que não sejam apenas executores de programas, mas autores de práticas. Isso exige confiança, tempo, formação contínua e, acima de tudo, respeito pela sua inteligência profissional.
Repito: a obediência pode ser inteligente. Mas só a autonomia crítica é verdadeiramente transformadora.

      Carlos Ricardo Soares


segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Entre o mar e o monumento

De um lado o mar
Do outro um monumento
Agitado
Como eu deste lado
Sem memória
De termos sido vencidos
Percebo que a antiguidade
É um problema insolúvel
Até o futuro é mais previsível
Mas as ondas e o vento
Não se calam
Ouço os ecos
De tenebrosas falas
E provo o sal de lágrimas
Que ainda são choradas
Não sei por que promessas
Quebradas
Que a brisa embala
Até ao adormecimento
Que se abate sobre o mar
Como dor herdada
Sem direito ao esquecimento
Nada substitui um corpo que sente
Porque o corpo que sente
Não substitui o corpo que pensa
A língua que lambe as ausências
Como se elas matassem a sede
Entre o mar e o monumento
Eu sou ambos
E pairo
Sem razão
E sem balança
Com tréguas a leilão
Ante o invisível que fere
E um excesso de memória
Que sente que se perdeu
À mercê do que pensa
Que não basta ter uma alma
Para ser imortal
É necessário um corpo
Com uma fala
Que não caiba no silêncio do sepulcro
Um cadáver cujo significado
O ressuscite
Para uma vida que não é sua
Metamorfose que não nos espera
Porque o corpo não sabe
Aquilo que a alma era
E nada há mais simples
Do que a poesia
Quando tudo o vento levou.
Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 15 de julho de 2025

Estupidificação


Não me atrevo a generalizar, mas intuo que o fenómeno Chega está em linha com uma análise histórica, sociológica e de forte componente psicológica, do fenómeno mais geral, muito bem rotulado, diria mesmo, genialmente designado, por bárbaros à porta. Pese embora a ambiguidade gerada pelo contexto, que pode prejudicar a eficácia do argumento, os bárbaros já não estão à porta, já estão no parlamento. E estão em força, embora não tanta, por enquanto, que possam mandar calar os outros. Se pudermos dizer que continuam a ser bárbaros à porta, por ainda não serem governo, então só lhes falta isso para deixarem de ser bárbaros à porta e passarem a ser apenas bárbaros. Se lá chegarem, e já esteve mais longe, cairá o complexo de serem bárbaros à porta, excluídos da política e começarão os verdadeiros problemas.
A democracia já deu provas de resiliência e de aptidão suficiente para impedir partidos antidemocráticos de capturarem o Estado e de, mesmo permitindo a sua existência, eles serem convocados para resolverem os seus próprios paradoxos e contradições. Na resposta a este repto e a esta condição, a médio prazo, acabam por não ter sucesso.
Há razões para ter esperança na razão e na consciência que, em meu entender, são duas faces da mesma moeda transparente. Mas onde aposto mais é na inelutável racionalidade humana, seja ela dos bárbaros, ou não.
Sendo certo que, em matérias conflituosas, que opõem interesses, o choque é evitável se houver poder negocial, mas os conflitos poderão multiplicar-se e agravar-se se houver choque. Neste caso, a racionalidade opera no quadro das possibilidades em conflito.
Quando o presidente da Assembleia da República se estriba numa “alegada” conformidade com a lei e fica por isso mesmo, relativamente a uma conduta parlamentar deplorável e vergonhosa, mas mesmo que o não fosse, revela uma pusilanimidade confrangedora que não o dignifica minimamente. 
Perante uma violação dos limites éticos e morais, ou até do bom senso, escudar-se na conformidade com a lei até podia ser justificável por dever do cargo, mas não deixa de significar a opção pelo comodismo de não se pronunciar sobre uma matéria que incomoda. Se ele fosse daquelas pessoas, que as há em abundância, que andam sempre a perguntar o que é que a lei diz, porque não são capazes de assumir autonomamente um juízo ético ou moral, para as quais a lei e só a lei conta, independentemente da sua razoabilidade, justiça, alcance, fundamento, legitimidade e humanidade, ainda podíamos compreender o seu escrúpulo legalista, mas já não é a primeira vez que, por comodismo, nos remete genericamente para uma lei que não existe ou que, pelo menos, é duvidoso que exista, para não ter de se comprometer pessoalmente. 
Os tempos que vivemos não se compadecem, nem são compatíveis com elementos políticos que representam interesses pessoais, de grupo e partidários, mas não se comprometem com valores mais altos e que têm como prioridade, não o respeito pela lei que, eventualmente, até não exista, mas a própria irresponsabilidade ética e moral. A barbaridade assume muitas formas, mas é sempre demolidora e pungente.

              Carlos Ricardo Soares

sábado, 31 de maio de 2025

Eufemização


Um problema que eu vejo no tratamento académico dos problemas, que não são meramente académicos, mormente ideológicos e doutrinais de toda a ordem, com implicações político-partidárias ou fazendo derivar das estruturas político-partidárias esses problemas, até porque os reduz teoricamente, logo à partida, não àquilo que eles são mas àquilo que se diz que são, ou que é correto dizer que são, ou que se pretende que sejam, um problema, dizia eu, é a aptidão da linguagem, por mais brutal que seja, para a eufemização, seja do crime, seja da miséria, seja da desgraça, seja da doença…
Qualquer que seja o lamaçal, ou o pântano, ou o charco de sangue, para não dizer o inferno insuportável, em que coloquem os outros, os criminosos serão sempre tratados, pelo menos, com o eufemismo de criminosos e verão sempre os seus atos hediondos tratados, pelo menos, com a dignidade de atos hediondos e tudo isso nos é servido constantemente, pela comunicação social, desde o pequeno almoço ao jantar, como aperitivo e sobremesa.
Os maiores assassinos da história aparecem todos os dias, anos a fio, em tronos de ouro, a serem cumprimentados cortesmente pelos paladinos do direito, da justiça e da paz. Por todos aqueles que, supostamente, se pudessem, teriam o dever de os estrangular, ou, no mínimo, mandar aniquilar.
A satisfação que podemos tirar dessa eufemização, senão a única, é que os demónios não deixam que os tratem mal e têm de ser bem tratados, pelo menos, só enquanto não puderem ser aniquilados e esquecidos.
Mas a mensagem passa claramente para a opinião pública e para o sentir dos indivíduos e dos grupos: os inimigos declarados não traem, os outros não sabemos.
Vem isto tudo a propósito dos efeitos da linguagem como eufemização e não apenas da necessidade dos eufemismos da linguagem.
A contraposição entre público e privado numa sociedade e numa cultura em que o real objetivo de cada indivíduo e das organizações é obter vantagem da situação, independentemente de ser o amigo ou o inimigo, porque tudo o resto é lamentável, aparece como um artifício para distrair o patego e conduzir o rebanho sem maiores percalços.
Até o ilícito se torna lícito a partir do momento em que é “a brincar” e se generaliza ao ponto de ser impune. E o mesmo acontece com o ser ou não ser capital humano.
Na realidade, não é A, ou B, quem decide ou determina o que é capital humano, ou o que o deixa de ser, nem a quem o Estado serve, se é aos privados, e a quais. 
Com efeito, diariamente, assistimos à confirmação da constatação de que o Estado está mais nas mãos dos privados do que os privados desejariam, ou admitiriam, em tese geral e segundo as propagandas político-partidárias. Os arautos da privatização são os cabotinos no teatro da República, porque, debaixo dessa veste estão os grandes beneficiários do erário público, seja por entronização, com influência na beneficiação direta, seja por efeito de benefícios e políticas sociais que, através da prestação de serviços, que não se destinam a eles, neles vão desaguar (que é uma palavra muito rica de sentidos).
No meio desta aparente barafunda de bancadas sob efeitos pirotécnicos, que extravasam para as avenidas em fanfarras e hinos guerreiros, com o seu potencial de incitação ao medo e de incapacitação para o discernimento, os professores, de acordo com as respetivas disciplinas, e sem prescindirem do mérito científico das mesmas, mais do que identificarem eufemismos, podem constituir pontos de referência, senão faróis e bússolas, para os seus alunos. E essa função não tem que ser modesta.

                   Carlos Ricardo Soares

“Comenta para receberes uma ideia por semana.” 

sexta-feira, 23 de maio de 2025

A (melhor) escolha

Quanto mais informação disponível e conhecimento, maior será o quadro de possibilidades para fazer a escolha que é, não obstante, em cada situação, a melhor de um quadro de possibilidades, ainda que, posteriormente, como acontece, por vezes, na escolha de um caminho, se verifique haver um caminho melhor, segundo o mesmo critério que serviu para escolher o primeiro.

                     Carlos Ricardo Soares

domingo, 4 de maio de 2025

Onde começa e acaba o dever/direito de respeito

O problema da garantia dos direitos fundamentais, como das regras e da lei, em geral, é que só funciona se e enquanto os titulares desses direitos também os respeitarem, ou seja, que quem os invoca a seu favor não seja passível de imputação da sua violação. 
Só estamos vinculados aos direitos dos outros se e na medida em que eles o estiverem. 
Por exemplo, um tirano que rasga a Declaração dos Direitos Humanos não tem direito a esperar que os outros a respeitem se isso lhe interessar. O mesmo se diga do Direito Internacional, em geral. 
Frequentemente, os ordenamentos jurídicos servem sobretudo, mesmo nas democracias, para que "os outros" os respeitem, havendo uma parte da população a quem aproveitam os direitos mas que não está onerada, nem responde, pelos deveres e pelas correspondentes obrigações. 
Fazer leis para "os outros" é mais comum do que parece e esses "outros" têm uma aguda percepção dessa realidade perversa.

               Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 7 de abril de 2025

LAVO DAÍ AS MINHAS MÃOS

A democracia atual parece reeditar o cenário bíblico de Pôncio Pilatos a dizer "lavo daí as minhas mãos. Quem quereis que liberte, Jesus ou Barrabás?" e a multidão a gritar "Barrabás, Barrabás". 
A democracia não pode ser o branqueamento de todo o tipo de crimes pela pressão ou vontade de um partido ou de uma maioria.

                    Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 21 de março de 2025

IA, empreendedorismo e Democracia III

Infelizmente, os usurpadores que triunfam à custa dos outros, inclusive do Estado, mercê das suas oportunidades, organizações criminosas, habilidades para a batota milionária e rejeição de quaisquer regras, que têm uma mentalidade arreigada de “fora da lei”, estão longe de ter moral ou ética e só respeitam a linguagem da força. Para estes o Direito e a lei não fazem falta e não fazem sentido, porque se encontram numa posição em que impõem a ordem deles e pouco ou nada têm a ganhar com o respeito pelo Direito e pela lei, de que sempre andaram foragidos. A chamada “lei do mais forte” leva necessariamente ao confronto e à guerra, até que o mais forte de hoje deixe de o ser amanhã, e assim sucessivamente. O que me choca nos dias de hoje é constatar o desplante e o descaramento com que os que se arrogam como mais fortes (até serem postos à prova e saírem derrotados) propagandeiam a sua ideologia de desastre anunciado.
É frustrante e inquietante, nesta conformidade, constatar que o Estado, cuja principal razão de ser tem vindo historicamente a evoluir para a função de dizer o que é Direito, fazer justiça e obrigar ao cumprimento da lei, caia ou soçobre sistematicamente nas mãos daqueles que estão apostados e organizados na luta contra isso. Isto é notório, mormente, no plano do Direito Internacional em que os mais fortes se arrogam prerrogativas que, simplesmente, recusam e negam aos outros. E, então, que respeito podem merecer?
O que devia ser a justiça distributiva do Estado mais não é do que uma função redistributiva, ou mesmo extractiva e extorcionista. Mas não está debaixo de fogo, e está cada vez mais nas mãos erradas.

                Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 20 de março de 2025

IA, empreendedorismo e Democracia II

Quando se fala de empreendedorismo, de iniciativa privada, de liberdade, de jogos de milhões, de concorrência desleal e de competição, de apostar no fracasso da economia, no empobrecimento dos pobres e no enriquecimento dos ricos, ainda que à custa da destruição desenfreada, induzida por uma crescente aceleração, que parece imparável, estamos a falar da cultura humana dos conflitos de interesses de reinados e impérios de vista curta, da economia sobrevivente e “bem sucedida” porque, apesar de demolidora e catastrófica, sempre renasceu das cinzas e se reergueu dos escombros. 
Não me parece que seja possível sair deste círculo vicioso em que a guerra, a devastação, ruína e flagelos que os humanos infligem uns aos outros, são apresentados como uma solução para evitar efeitos considerados piores. Tal e qual como nos jogos de milhões em que se dá tudo por tudo, sem olhar a meios, para ganhar.
O tal problema ético, e ético-jurídico, está no “sem olhar a meios”.
E não há retórica que, sobre isso, iluda um ser humano, por mais simples e debilitado que esteja. Qualquer posição de vantagem que leve o indivíduo, ou o grupo, ou o Estado, a abusar dessa posição, seja no modo como fala, ou trata, seja nas condições que impõe ou nos proveitos indevidos que reivindica para si, não pode esperar outra resposta, ainda que seja ao retardador, do que mal-estar, oposição, resistência, hostilidade e violência.
A expressão “empreendedor de si mesmo” fez-me lembrar um poema que escrevi “Pódio de si mesmo”. Não é uma expressão feliz nem infeliz, mas é sintomática de uma visão do mundo partilhada por uma cultura que valoriza a capacidade e a habilidade para triunfar, sendo que este triunfo só é legítimo e, verdadeiramente, só o é se for um triunfo sobre si mesmo.
                     Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 18 de março de 2025

IA, empreendedorismo e Democracia I

Vivemos num tempo de grandes transições culturais, políticas, demográficas, tecnológicas, sociais, económicas. A nossa capacidade para perceber o que está a acontecer no nosso tempo de vida é insuficiente face à vertigem da dinâmica de mudanças e de conservação em conflito. Nestes aspectos, a IA, em vez de ajudar, só atrapalha. Não ajuda porque não tem aptidões para detectar os problemas e, menos ainda, pensar nos problemas como os humanos o fazem. 
A IA até pode ser um excelente protótipo de inteligência enciclopédica e inexcedível na velocidade com que se apropria, processa e redige informações, mas é uma máquina que não pensa em função de sensibilidades, intuições e de inteligência humana. 
Há áreas em que a IA vai substituir com vantagem os humanos mas, noutras áreas, por mais que ela interprete o pensar e o sentir humanos, estes percebem à primeira que se trata de uma máquina de retórica e que não passa disso. 
Da minha experiência, aprendi que quanto mais retórica menos eficaz é a comunicação e a IA não distingue uma coisa da outra. 
O que ela faz é ser incomparável e inexcedível no uso da retórica. Ela até consegue reconhecer que é verdade isto que acabo de dizer, mas não consegue fazer diferente, nem de outro modo. E nós não resolvemos os problemas de retórica com mais retórica, ao contrário do que se passa com a matemática, por exemplo.

                         Carlos Ricardo Soares