segunda-feira, 19 de abril de 2021

Para que serve a cultura ?

Num texto, com o título «Para que serve a cultura?», Eugénio Lisboa coloca questões e dá ou sugere algumas respostas, que são de entendimento difícil e, aparentemente, supérfluas por serem de pendor e de teor especulativo acerca de comportamentos humanos que, penso eu, se manifestam em contextos muito sofisticados e torturados de jogo, com as suas regras e os seus juízes, ainda que longe de estarem institucionalizados e reconhecidos como tais e, mais ainda, longe de serem aceites, tanto uns como outros, por serem quase sempre autopropostos e, no que diz respeito aos veredictos, do mais inconsistente e lastimável que há, por serem, quase sempre, ou esmolados, ou pedinchados, ou estrategicamente concedidos por quem se investe no poder de o fazer. Há mais exemplos de situações reais, possíveis e imaginárias.

Se já é inatingível estabelecer critérios, que o sejam, daquilo que deve-ser o jogo, quanto mais causador de conflitos e de intolerâncias não será a intervenção de árbitros que chamam a si o protagonismo da discórdia.

O artista, poeta, romancista, músico, pintor, arquitecto, pensador, cientista, realizador, enfim, todos os criadores, críticos, podem estar à mercê do juiz mais ou menos piedoso, que são eles próprios.  Mas ao que eles não escapam é ao jogo da vida, da cultura, dos árbitros que decidem o jogo, dos valores, dos mercados…

A não ser que os desprezem e não lhes reconheçam idoneidade nenhuma, mas isto não resolve nada e só agrava as coisas. Os criadores não estão adstritos a nenhum dever especial de bonomia, harmonia, cedência, de sujeição, de complacência, de irmandade ou clientelismo, em troca de expectativas de serem valorizados, bem pelo contrário, certas cumplicidades podem comprometer a credibilidade e o valor do seu trabalho.

Nada é menos supérfluo do que a arte, as ideias claras, o pensamento revelador, o engenho inovador e a visão surpreendente, a ciência, a criação humana, enfim, a cultura.

Nada é mais humano do que a cultura, da qual destaco o prodígio da língua e as linguagens. Ela é a realidade humana, uma das faces da realidade em sentido amplo, sendo a outra face a realidade natural, embora o homem também seja um animal, que faz parte desta.

Se pensarmos o homem como um animal, de acordo com o critério da necessidade vital, diremos que a cultura é supérflua.

Mas o princípio da economia que rege os organismos vivos, incluindo o homem, deixou de ser no humano um ter de ser, tipo tropismo, e adquiriu a natureza de um poder ser, tipo possibilidades, alternativas.

Se isto pode ser visto deste modo, a racionalidade humana nasceu assim, da possibilidade de escolha. A partir daqui, tudo pode ser explicado com coerência e consistência, inclusivamente, se e porquê a cultura é um edifício da ordem do dever-ser.

Aliás, não esqueçamos que a economia é a ciência das escolhas. Justamente, tudo aquilo que nos interessa, em cada situação de possibilidades de escolha, alternativas ou não, é saber qual é a melhor escolha.

O problema, que me parece ser o busílis de todos os problemas de ordem humana e social, ou a mãe de todas as frustrações culturais, não é a possibilidade de erro. Esta possibilidade está presente em qualquer escolha, por mais informada que seja, porque só o futuro dirá do acerto ou desacerto da escolha, em função do critério que se seguiu.

De resto, qualquer escolha implica renunciar às alternativas. Isto também pode ser muito problemático. E há escolhas que têm de ser feitas impreterivelmente, que não podem esperar pelos conselhos da melhor ciência.

Mas, dizia eu, mais acima, a mãe de todas as frustrações é o arbítrio.

A cultura está num ponto de desenvolvimento que nos permite ter esperanças de que as sociedades humanas se entenderão acerca do que devem ser as melhores escolhas, em todos os domínios. A paz será, assim, possível.

A mãe de todas as frustrações é que, não é por dispormos do entendimento necessário sobre o que deve ser feito, a nível individual, estadual, internacional, mundial, nem por isso ser feito, que estamos livres de actos criminosos, terroristas, atentados, de loucura, etc., que deitem tudo a perder.

Nada do que é humano, exceptuando a sua natureza animal involuntária, que funciona em modo autónomo, e o arbítrio, que é individual, a que não chamo liberdade, tem outra matriz que não seja a cultura.

Assim sendo, a cultura é a realidade sem a qual o humano, enquanto social, não existiria.

A questão “para que serve a cultura?”, tal como as respostas que se lhe deem, é, obviamente, cultural e, como qualquer outra realidade, pode servir para objectivos (culturais) muito diversos, sem que possamos antever todos.

A cultura serve unicamente, e é tudo o que interessa, para sermos o que somos, ou seja, o ser humano é um ser cultural e vice versa, no sentido em que um não tem significado sem o outro.

terça-feira, 30 de março de 2021

Homem em torno do qual tudo deve gravitar


Tenho a percepção de que a filosofia vai ser cada vez mais importante, não tanto como teoria geral de conhecimento dos mundos, mas sobretudo como teoria geral de como esses mundos devem ser, considerando que todo o conhecimento, por si mesmo, é humano e não tem outra génese, nem outro sentido e que o pensamento humano, enquanto racionalidade, é sempre um dever ser no espectro das possibilidades, ou, de outra forma, as escolhas do ser humano dentro do leque das possibilidades, não são aleatórias, há algum grau de tensão entre a vontade e a liberdade, que é resolvido por algum tipo de racionalidade. E se isto é o que acontece, quer haja filosofia ou não, quer haja ciência ou não, o facto de o sabermos é de uma importância e relevância nem sempre fácil de compreender. 
Na realidade, as coisas acontecem, quer o saibamos quer não. Aparentemente, tanto nos faria saber como não saber. Ou, saber e nada saber iria dar ao mesmo.
Mas a filosofia vai buscar a sua importância e relevância à necessidade de explicar isso a si mesma e, não menos importante, explicar a importância e a relevância de todo o conhecimento, em especial o científico, não do ponto de vista económico, técnico, utilitário, mas do ponto de vista epistemológico. E isto não é pequena coisa. 
Para tentarmos perceber este problema, pensemos que os próprios investigadores científicos, os cientistas, raramente revelam ter a noção da diferença que fazem no universo do conhecimento. Sabem que o seu trabalho é da maior importância para todos e todos, mais ou menos, percebemos que a ciência resolve uma quantidade de problemas que só ela sabe. 
Poderíamos ter lido todas as bíblias e todos os tratados de filosofia e saber toda a matemática e conhecer todos os livros de auto-ajuda e técnicas de socorro a náufragos e ter o mais alto QI e ter bebido muita água, mas não acredito que conseguíssemos descobrir, por meras inferências, dedutivas ou indutivas, nem sequer por adivinhação, a composição química da água. Ainda que já conhecêssemos o hidrogénio e o oxigénio, esse conhecimento não no-lo permitiria descobrir, por si só, sem uma experiência que o revelasse. E se os nossos conhecimentos, numa mínima parte são deduções ou induções de crenças no que nos dizem e, na sua maioria, meras crenças, por confiarmos naquilo que nos dizem, vivemos numa realidade virtual a tal ponto baseada em imagens e discursos, que nos escapa trivialmente a natureza e o âmbito do conhecimento científico, como se fosse uma extensão dos conhecimentos em geral. 
Escapa-nos, trivialmente, que não há conhecimento científico “a priori”, que não podemos conhecer Paris sem ir lá, que não podemos conhecer uma árvore através de um manual, por mais completo que seja, que não podemos comer um bife através de um vídeo, que não podemos saber hoje que o sol vai nascer amanhã. 
O conhecimento científico não é frustrante. Frustrante é, muitas vezes, não saber o que fazer com ele, ou fazer o que não devia ter sido feito. 
A filosofia não é o tribunal de contas do que devia ter sido feito, de acordo com as normas, nem do que devem ser as normas, mas é o tribunal do que deve-ser declarado, considerando que deve ser uma declaração de sabedoria, por ser humana acerca do homem em torno do qual tudo deve gravitar, porque o contrário não faz sentido.

sábado, 20 de março de 2021

Ainda tento explicar a beleza


Ainda tento explicar a tua beleza

E o cheiro de chuva

Que parou depois

De me encostar a ti

Como ser a árvore

Para construíres os teus barcos

Sem que as aves desamorem

A tua respiração

No meu queixo

Enquanto fechava os olhos

Para desenhar janelas

Na nossa roupa

Com as mãos

No agasalho do teu corpo

Confirmava

Que não eras fantasia.


sexta-feira, 19 de março de 2021

As coisas e os números III

O Hilário disse ao seu amigo: as coisas e os números têm uma relação estranha mas fascinante.

O amigo: a divisibilidade das coisas não é como a divisibilidade dos números.

Hilário: qualquer número é uma unidade divisível em unidades

O amigo: mas uma determinada coisa não é divisível em coisas iguais.

Hilário: mas como explicar ou compreender que uma coisa possa dar origem a coisas diferentes dela?

O amigo: no momento do big bang só havia uma coisa, uma unidade.

Hilário: e era uma coisa infinitamente infinitesimal.

O amigo: que se dividiu numa infinidade de coisas diferentes dela, numa infinidade de unidades.

Hilário: o uno, o todo, passou a ser constituído por uma infinidade de coisas

O amigo: e se dividisse este euro em dois? Dava-te um e ainda ficava com outro.

Hilário: se dividires uma unidade por dois o resultado é duas unidades.

O amigo: mas não é possível dividir uma maçã em duas maçãs.

segunda-feira, 8 de março de 2021

As coisas e os números II

Enquanto escrevo sobre realidade e conhecimento, volto a pensar no Hilário, que disse ao seu amigo:
- O uno é o todo, que nós desconhecemos.
E o amigo acrescentou:
- No entanto, a unidade(=1) é composta de um número infinito de partes.
Hilário: cada parte, cada fracção da unidade é, por sua vez, uma unidade.
O amigo: o todo é constituído pelas partes, do mesmo jeito que a unidade é o somatório, ou o conjunto, o total das unidades.
Hilário: unidades entendidas como 1+1+1..., de tal modo que, por exemplo, 1/2= 1+1=2.
O amigo: dividida em duas partes a unidade passa a ser duas unidades.
Hilário: boa! Deste-me uma ideia: se dividir um euro em dois, posso ficar com um e dar-te o outro.
O amigo: mas não consegues dividir um euro em dois, como não consegues dividir uma maçã em duas, ou outra coisa qualquer.
Hilário: pois não, só se consegue isso com os números.

quinta-feira, 4 de março de 2021

As coisas e os números

Estou a pensar nesta curiosidade, que me ocorreu agora, enquanto escrevo sobre realidade e conhecimento.

O Hilário disse ao seu amigo que qualquer número é um somatório de uns, 1+1+1...

O amigo do Hilário disse-lhe que a realidade das coisas é diferente dos números, porque a água não pode ser HO-1, ou H4O2.

O Hilário respondeu que então era por isso que o amigo não tinha 4 mulheres a que deduzia 3.

O amigo disse: exacto, e também não tenho um milhão de euros a que subtraio 999999.

Pois é, disse o Hilário intrigado, já desconfiava que a minha rua não tem dez milhões de habitantes a que retiraram 9998000.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O futuro já começou ontem

O que torna o futuro mais apetecível é este presente sofrível, para não dizer deprimente. 

Há muita gente que se apazigua e encontra panaceias na imaginação do passado. Outros procuram sair do presente, o mais rapidamente possível, dispondo-se a pagar um preço por isso. Outros ainda, fazem todo o tipo de esforços para não saírem do presente, por várias razões, entre elas, não quererem voltar ao passado (como se isso fosse possível), nem quererem o futuro, onde, de certo, só há coisas más ou menos boas, tudo o mais tem de ser construído, edificado, com imenso esforço, muito mais do que aquele que é necessário, todos os dias, para que tudo continue na mesma.

Mas o futuro já começou ontem.

Os ovos do futuro já estão a incubar. Podem não eclodir todos, mas os que eclodirem serão mais determinantes do que os outros. Ovos de víboras e de serpentes, de pombas e de andorinhas, de peixes e de galinhas...E ovos de ouro...E muitos outros ovos em cestas de investimentos diversificados, em apostas...

Mas isto dos ovos é terrível, porque os ovos de uns são uma ameaça, ou um perigo, para os ovos de outros. Há quem se ocupe em destruir e devorar os ovos dos outros.

E, na realidade, por mais ecografias que se façam, nunca se sabe se vai eclodir um monstro.

Mais do que uma esperança, o futuro apresenta-se como uma fatalidade.

É preciso estar imbuído de uma boa dose de desespero e de infortúnio para forçar a casca e tentar uma saída. Uma saída é isso mesmo, não necessariamente para um local melhor, para uma situação melhor (pode ser para a boca de um predador), mas mesmo quando se conhecem os riscos, nem sempre é possível deixar de os correr e pode ser melhor corrê-los.

Se isto é aplicável a qualquer época, ou momento histórico, o nosso apresenta a particularidade de, em geral, os riscos, aparentemente, estarem ou poderem ser controlados. Acreditamos nisso.

Isto pode não encorajar suficientemente a tal saída, mas o nosso maior desafio é esse: ousar, que nunca o risco foi tão pequeno, nem as expectativas tão grandes, e não deixar os nossos “negócios” ao acaso, nem os nossos créditos por mãos alheias.

 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Uma colónia dos partidos

Nem tudo era mau no tempo do D. Afonso Henriques, pelo menos até ao desastre de Badajoz, que foi mesmo o primeiro grande desastre de Portugal.  

E nem tudo era mau no tempo de Salazar, como, por exemplo, o patrulhamento dos rios, para que ninguém pescasse sem licença, das florestas, para que ninguém caçasse sem licença ou incendiasse, ou se refugiasse, o patrulhamento das estradas, a obrigatoriedade de licença, vacinação e cadeado para cães, a proibição de andar descalço em lugares públicos, enfim, alguns exemplos de que me lembro, que alguns tomarão como exemplos de coisas más. 

Agora, não sei se o termo mais apropriado será declínio, porque já estamos em declínio há tanto tempo que começa a ser impossível que seja declínio. É como entrar num túnel, só se entra até meio, a partir daí já se está a sair.   

Mas que Portugal, mais ou menos inadvertidamente, mais ou menos programadamente, se transformou numa colónia dos partidos políticos, seja em nome de uma internacional qualquer, financeira, da saúde, do comércio e turismo, militar, ou dos trabalhadores, nós somos uma colónia de uma União Europeia que é possível ser vista como a garantia tutelar da nossa democracia por quem os partidos têm a compreensível devoção dos vassalos pelos senhores.  

Aliás, também nem tudo era mau no feudalismo.  

A realidade acaba por ser sempre o que nos salva. Se a esperança é a última a morrer é por causa disto.  

Os governos nunca souberam governar porque quanto mais tentam governar mais desgovernam.  

E se forem governos muito voluntaristas, ignorantes e determinados, o mais provável é que estejam a asfixiar as alternativas que a imaginação pode sempre prodigalizar a quem não sabe, mas precisa. 

Qualquer que seja o desgoverno é governo. Tem é que haver um desgoverno. Os partidos políticos não se governam bem? E a culpa é nossa, que nos queixamos? 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

As pessoas são ilhas

As pessoas são ilhas, mas a maior parte delas só desconfiam disso nos momentos em que se sentem sós e sentem o que mais ninguém pode sentir por elas, por mais que finjam compreender e, se compreendessem, também não iriam adiantar nada. 
Os poetas talvez descubram isso e se ponham a fabricar barcos, navios, caravelas, aviões, para transpor os oceanos da língua e das linguagens que nos ligam efectivamente mas que, mais do que isso, nos dão a ilusão de não sermos ilhas que, efectivamente, somos. 
Quanto mais tentamos sair da ilha mais percebemos que uma ilha não pode sair de si mesma. 
A imaginação, não obstante, ajuda. 

domingo, 24 de janeiro de 2021

Sem conhecimento não há nada - II

Todo o conhecimento é sobre o passado, sobre factos. Facto é passado. 

Por outro lado, vemos B. Russel a insurgir-se contra os idealistas e os platónicos, enquanto defende um materialismo estrito, com argumentos que não podem deixar de ser metafísicos, quando diz, por ex., «o universo escolheu funcionar de um modo matemático e não do modo que os poetas e os físicos teriam desejado. Talvez isso seja lastimável, mas dificilmente se espera que um matemático o lamente.»   (Bertrand Russel - Ensaios Céticos).  

Aliás, na mesma linha de Galileu, quando este se refere ao grandíssimo livro da natureza escrito em linguagem matemática. Como se a linguagem, matemática ou verbal, ou outra, preexistisse ao homem, não seja criação sua e ele, meramente, a tivesse descoberto.  

As ciências da vida, dão-nos conta de que a vida é uma espécie de linguagem, com a sua estrutura e os seus códigos e redes de comunicação.  

O conhecimento é uma estrutura explícita de uma linguagem cuja estrutura é determinada, ou formatada, pelo nosso cérebro e todo o sistema sensitivo e cognitivo.  

As características do nosso pensamento, as formas como pensamos e como representamos a realidade e comunicamos, não foram, nem são escolha nossa, «nem do modo que os poetas e os físicos teriam desejado», para ironizar um pouco com B. Russel.  

Tanto quanto sei, a natureza (em sentido estrito, sem incluir o homem) não produz números, fórmulas, equações, cálculos, perguntas, palavras, signos, símbolos, formas geométricas, triângulos, etc., mas nós somos capazes disso e parece que até as estruturas mecânicas que somos capazes de construir têm sempre forma geométrica. 

 

Também, sendo a realidade contínua mas não conseguindo nós pensar de modo contínuo, as nossas representações mentais são fruto dos nossos sentidos, integrados no nosso sistema neurológico, fragmentárias, parciais e uma sucessão de instantâneos, que seriam outras se outras fossem as formas de “interacção, conexão” entre nós e o mundo. Basta pensar, por momentos, no que observa, capta, conhece, um cego de nascença, por ex., quando entra numa sala cheia de gente.  

E o que seria o conhecimento humano sobre o mundo se, por acaso, não tivéssemos olhos para ver. Onde se falaria em evidências?  

Nos tribunais, por ex., fala-se em audiências.  

A justiça aparece representada com uma venda nos olhos. Embora signifique que não deve ser influenciada nas suas decisões pelo estatuto social ou pelas características pessoais das partes no processo, também pode significar a necessidade de arbitrar sobre factos que não observou, nem observa.

Interrogo-me se temos possibilidade de pensar o todo, mesmo tomando como um todo apenas uma parte e, ao mesmo tempo, pensar as partes que o constituem. Somos capazes de analisar, mas parece que não temos capacidade para representar mentalmente uma síntese.  

 

A própria linguagem verbal, até a que usamos correntemente, atingiu níveis de abstracção tais que se emancipou das suas referências significadas e funciona muitas vezes como uma espécie de matemática, ou moeda fungível, através da qual se podem fazer jogos e trocas infindáveis e operações sem limite, com largos espectros de significação e sentido, sem deixar de cumprir os requisitos de validade lógica. 

O nosso equipamento natural, ou a nossa estrutura física, com os sentidos que possuímos e os recursos de racionalidade de expressão e de comunicação, mormente linguísticos, os códigos e o modo como tudo se processa no nosso organismo e nas redes neuronais individuais e sociais, em que estamos inseridos e conectados, têm as características e o potencial que têm e não outras, que desejássemos escolher.  

O que acho verdadeiramente notável e espantoso é a nossa aptidão para criar geometrias, números e relações lógicas, símbolos e signos que nos permitem representar a realidade e tratá-la como se ela fosse uma forma, um número, um símbolo, ou uma ideia e, tantas vezes, tomarmos estas nossas criações abstractas como características da realidade concreta e objectivada. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Sem conhecimento não há nada

Um dos fascínios do conhecimento é que, sem conhecimento, não há nada. 
Diria até que, sem linguagem, não há conhecimento.
Toda e qualquer linguagem exprime e comunica alguma forma de representação da realidade e esta é uma elaboração, um processamento, uma resposta a um estímulo captado pelos sentidos.
Por ex., os poetas fornecem-nos, muitas vezes, as palavras necessárias, as metáforas, o discurso, sem os quais muitas coisas ficariam por dizer, como se não existissem, ou não tivessem acontecido.
 
B. Russel, ao telefone, diria, parece que estou a ouvi-lo, "isso é uma estupidez, esta mesa existe mesmo que não saibas da sua existência". 
Eu respondo-lhe, existe para si, mas para mim não. 
Agora, que me disse que existe aí uma mesa, ainda que não esteja a vê-la e não faça nenhuma ideia de que mesa é, nem tenha qualquer prova de que exista, posso acreditar que existe e estou a acreditar em algo que não sei o que é, nem sei se existe.
B. Russel, tem a sua realidade e eu tenho a minha, não tenho a sua. Relativamente à mesa, até que uma investigação científica mo demonstre, não passa de algo imaginário e hipotético. 
Mas antes de B. Russel me ter dito que havia, ali, uma mesa, onde ele se encontrava, mas eu não, essa realidade (se existe, e vou supor que sim) não existia para mim, nem como mera fantasia.

A medida do meu conhecimento é a medida da realidade e não o inverso.
Se eu não tivesse conhecimento, não tinha realidade. Mas também não podia dizer que nada existia, porque não tinha conhecimento disso.

Isto não quer dizer que a pessoa que estivesse ao meu lado não tivesse conhecimento vasto sobre imensas matérias (aqui matéria é no sentido amplo de objecto de conhecimento) e que, portanto, a realidade existia independentemente de mim, só que, para mim, não.

Também é muito curioso e interessante constatar que o problema do conhecimento da realidade é sempre um problema do conhecimento da realidade como ela é. E todo o conhecimento, não só é uma redução da realidade à ideia, ao conceito, à imagem, à fórmula, ao enunciado, mas também um "congelamento", em slides ou formas, descontínuas, que nos não permitem, por exemplo, reproduzir os fenómenos da realidade, mas apenas representá-los, fixá-los em formas de linguagem e, quando muito, no método experimental, replicar ou simular algo muito semelhante.  

O que é evidente, assim que é descrito, ou simplesmente comunicado, deixa de o ser e passa a ser uma declaração sobre uma experiência pessoal. Seja a respeito de coisas, seja a respeito de palavras, de frases, de proposições, escritos ou falados, presenciais, ou à distância, síncronos ou assíncronos, ou mesmo de sons, ou movimentos, ou comportamentos. 

Neste caso, a realidade naturalmente vivida, e mesmo a realidade subjectivamente percepcionada, é uma realidade acontecida, passada, que não coincide, nem pela densidade, nem pela natureza, nem pelo momento e/ou o espaço, com a realidade de que o conhecimento possa dar notícia, exprimir ou comunicar.