"Ser feliz é uma actividade que requer toda uma vida e não pode existir em menos tempo" - Aristóteles, Ética a Nicómaco
segunda-feira, 8 de março de 2021
As coisas e os números II
quinta-feira, 4 de março de 2021
As coisas e os números
Estou a pensar nesta curiosidade, que me ocorreu agora, enquanto escrevo sobre realidade e conhecimento.
O Hilário disse ao seu amigo que qualquer número é um somatório de uns, 1+1+1...
O amigo do Hilário disse-lhe que a realidade das coisas é diferente dos números, porque a água não pode ser HO-1, ou H4O2.
O Hilário respondeu que então era por isso que o amigo não tinha 4 mulheres a que deduzia 3.
O amigo disse: exacto, e também não tenho um milhão de euros a que subtraio 999999.
Pois é, disse o Hilário intrigado, já desconfiava que a minha rua não tem dez milhões de habitantes a que retiraram 9998000.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2021
O futuro já começou ontem
O que torna o futuro mais apetecível é este presente sofrível, para não dizer deprimente.
Há muita gente que se apazigua e encontra panaceias na imaginação do passado. Outros procuram sair do presente, o mais rapidamente possível, dispondo-se a pagar um preço por isso. Outros ainda, fazem todo o tipo de esforços para não saírem do presente, por várias razões, entre elas, não quererem voltar ao passado (como se isso fosse possível), nem quererem o futuro, onde, de certo, só há coisas más ou menos boas, tudo o mais tem de ser construído, edificado, com imenso esforço, muito mais do que aquele que é necessário, todos os dias, para que tudo continue na mesma.
Mas o futuro já começou ontem.
Os ovos do futuro já estão a incubar. Podem não eclodir todos, mas os que eclodirem serão mais determinantes do que os outros. Ovos de víboras e de serpentes, de pombas e de andorinhas, de peixes e de galinhas...E ovos de ouro...E muitos outros ovos em cestas de investimentos diversificados, em apostas...
Mas isto dos ovos é terrível, porque os ovos de uns são uma ameaça, ou um perigo, para os ovos de outros. Há quem se ocupe em destruir e devorar os ovos dos outros.
E, na realidade, por mais ecografias que se façam, nunca se sabe se vai eclodir um monstro.
Mais do que uma esperança, o futuro apresenta-se como uma fatalidade.
É preciso estar imbuído de uma boa dose de desespero e de infortúnio para forçar a casca e tentar uma saída. Uma saída é isso mesmo, não necessariamente para um local melhor, para uma situação melhor (pode ser para a boca de um predador), mas mesmo quando se conhecem os riscos, nem sempre é possível deixar de os correr e pode ser melhor corrê-los.
Se isto é aplicável a qualquer época, ou momento histórico, o nosso apresenta a particularidade de, em geral, os riscos, aparentemente, estarem ou poderem ser controlados. Acreditamos nisso.
Isto pode não encorajar suficientemente a tal saída, mas o nosso maior desafio é esse: ousar, que nunca o risco foi tão pequeno, nem as expectativas tão grandes, e não deixar os nossos “negócios” ao acaso, nem os nossos créditos por mãos alheias.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2021
Uma colónia dos partidos
Nem tudo era mau no tempo do D. Afonso Henriques, pelo menos até ao desastre de Badajoz, que foi mesmo o primeiro grande desastre de Portugal.
E nem tudo era mau no tempo de Salazar, como, por exemplo, o patrulhamento dos rios, para que ninguém pescasse sem licença, das florestas, para que ninguém caçasse sem licença ou incendiasse, ou se refugiasse, o patrulhamento das estradas, a obrigatoriedade de licença, vacinação e cadeado para cães, a proibição de andar descalço em lugares públicos, enfim, alguns exemplos de que me lembro, que alguns tomarão como exemplos de coisas más.
Agora, não sei se o termo mais apropriado será declínio, porque já estamos em declínio há tanto tempo que começa a ser impossível que seja declínio. É como entrar num túnel, só se entra até meio, a partir daí já se está a sair.
Mas que Portugal, mais ou menos inadvertidamente, mais ou menos programadamente, se transformou numa colónia dos partidos políticos, seja em nome de uma internacional qualquer, financeira, da saúde, do comércio e turismo, militar, ou dos trabalhadores, nós somos uma colónia de uma União Europeia que é possível ser vista como a garantia tutelar da nossa democracia por quem os partidos têm a compreensível devoção dos vassalos pelos senhores.
Aliás, também nem tudo era mau no feudalismo.
A realidade acaba por ser sempre o que nos salva. Se a esperança é a última a morrer é por causa disto.
Os governos nunca souberam governar porque quanto mais tentam governar mais desgovernam.
E se forem governos muito voluntaristas, ignorantes e determinados, o mais provável é que estejam a asfixiar as alternativas que a imaginação pode sempre prodigalizar a quem não sabe, mas precisa.
Qualquer que seja o desgoverno é governo. Tem é que haver um desgoverno. Os partidos políticos não se governam bem? E a culpa é nossa, que nos queixamos?
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
As pessoas são ilhas
domingo, 24 de janeiro de 2021
Sem conhecimento não há nada - II
Todo o conhecimento é sobre o passado, sobre factos. Facto é passado.
Por outro lado, vemos B. Russel a insurgir-se contra os idealistas e os platónicos, enquanto defende um materialismo estrito, com argumentos que não podem deixar de ser metafísicos, quando diz, por ex., «o universo escolheu funcionar de um modo matemático e não do modo que os poetas e os físicos teriam desejado. Talvez isso seja lastimável, mas dificilmente se espera que um matemático o lamente.» (Bertrand Russel - Ensaios Céticos).
Aliás, na mesma linha de Galileu, quando este se refere ao grandíssimo livro da natureza escrito em linguagem matemática. Como se a linguagem, matemática ou verbal, ou outra, preexistisse ao homem, não seja criação sua e ele, meramente, a tivesse descoberto.
As ciências da vida, dão-nos conta de que a vida é uma espécie de linguagem, com a sua estrutura e os seus códigos e redes de comunicação.
O conhecimento é uma estrutura explícita de uma linguagem cuja estrutura é determinada, ou formatada, pelo nosso cérebro e todo o sistema sensitivo e cognitivo.
As características do nosso pensamento, as formas como pensamos e como representamos a realidade e comunicamos, não foram, nem são escolha nossa, «nem do modo que os poetas e os físicos teriam desejado», para ironizar um pouco com B. Russel.
Tanto quanto sei, a natureza (em sentido estrito, sem incluir o homem) não produz números, fórmulas, equações, cálculos, perguntas, palavras, signos, símbolos, formas geométricas, triângulos, etc., mas nós somos capazes disso e parece que até as estruturas mecânicas que somos capazes de construir têm sempre forma geométrica.
Também, sendo a realidade contínua mas não conseguindo nós pensar de modo contínuo, as nossas representações mentais são fruto dos nossos sentidos, integrados no nosso sistema neurológico, fragmentárias, parciais e uma sucessão de instantâneos, que seriam outras se outras fossem as formas de “interacção, conexão” entre nós e o mundo. Basta pensar, por momentos, no que observa, capta, conhece, um cego de nascença, por ex., quando entra numa sala cheia de gente.
E o que seria o conhecimento humano sobre o mundo se, por acaso, não tivéssemos olhos para ver. Onde se falaria em evidências?
Nos tribunais, por ex., fala-se em audiências.
A justiça aparece representada com uma venda nos olhos. Embora signifique que não deve ser influenciada nas suas decisões pelo estatuto social ou pelas características pessoais das partes no processo, também pode significar a necessidade de arbitrar sobre factos que não observou, nem observa.
Interrogo-me se temos possibilidade de pensar o todo, mesmo tomando como um todo apenas uma parte e, ao mesmo tempo, pensar as partes que o constituem. Somos capazes de analisar, mas parece que não temos capacidade para representar mentalmente uma síntese.
A própria linguagem verbal, até a que usamos correntemente, atingiu níveis de abstracção tais que se emancipou das suas referências significadas e funciona muitas vezes como uma espécie de matemática, ou moeda fungível, através da qual se podem fazer jogos e trocas infindáveis e operações sem limite, com largos espectros de significação e sentido, sem deixar de cumprir os requisitos de validade lógica.
O nosso equipamento natural, ou a nossa estrutura física, com os sentidos que possuímos e os recursos de racionalidade de expressão e de comunicação, mormente linguísticos, os códigos e o modo como tudo se processa no nosso organismo e nas redes neuronais individuais e sociais, em que estamos inseridos e conectados, têm as características e o potencial que têm e não outras, que desejássemos escolher.
O que acho verdadeiramente notável e espantoso é a nossa aptidão para criar geometrias, números e relações lógicas, símbolos e signos que nos permitem representar a realidade e tratá-la como se ela fosse uma forma, um número, um símbolo, ou uma ideia e, tantas vezes, tomarmos estas nossas criações abstractas como características da realidade concreta e objectivada.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
Sem conhecimento não há nada
Toda e qualquer linguagem exprime e comunica alguma forma de representação da realidade e esta é uma elaboração, um processamento, uma resposta a um estímulo captado pelos sentidos.
Por ex., os poetas fornecem-nos, muitas vezes, as palavras necessárias, as metáforas, o discurso, sem os quais muitas coisas ficariam por dizer, como se não existissem, ou não tivessem acontecido.
B. Russel, tem a sua realidade e eu tenho a minha, não tenho a sua. Relativamente à mesa, até que uma investigação científica mo demonstre, não passa de algo imaginário e hipotético.
A medida do meu conhecimento é a medida da realidade e não o inverso.
Se eu não tivesse conhecimento, não tinha realidade. Mas também não podia dizer que nada existia, porque não tinha conhecimento disso.
Isto não quer dizer que a pessoa que estivesse ao meu lado não tivesse conhecimento vasto sobre imensas matérias (aqui matéria é no sentido amplo de objecto de conhecimento) e que, portanto, a realidade existia independentemente de mim, só que, para mim, não.
Também é muito curioso e interessante constatar que o problema do conhecimento da realidade é sempre um problema do conhecimento da realidade como ela é. E todo o conhecimento, não só é uma redução da realidade à ideia, ao conceito, à imagem, à fórmula, ao enunciado, mas também um "congelamento", em slides ou formas, descontínuas, que nos não permitem, por exemplo, reproduzir os fenómenos da realidade, mas apenas representá-los, fixá-los em formas de linguagem e, quando muito, no método experimental, replicar ou simular algo muito semelhante.
O que é evidente, assim que é descrito, ou simplesmente comunicado, deixa de o ser e passa a ser uma declaração sobre uma experiência pessoal. Seja a respeito de coisas, seja a respeito de palavras, de frases, de proposições, escritos ou falados, presenciais, ou à distância, síncronos ou assíncronos, ou mesmo de sons, ou movimentos, ou comportamentos.
Neste caso, a realidade naturalmente vivida, e mesmo a realidade subjectivamente percepcionada, é uma realidade acontecida, passada, que não coincide, nem pela densidade, nem pela natureza, nem pelo momento e/ou o espaço, com a realidade de que o conhecimento possa dar notícia, exprimir ou comunicar.