segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Seja lá o que isso for

III

Pensava que eras palpável

Confiei-me

Não vi que o teu perfume

Seja lá o que isso for

É da natureza do lume

                 Carlos Ricardo Soares

domingo, 12 de janeiro de 2025

É da natureza do amor

II

Pensava que eras um corpo

Esculpido neste mundo

De flagelos e de angústias

Não vi que és uma pérola

Escondida

Seja lá o que isso for

É da natureza do amor

                               Carlos Ricardo Soares

 


sábado, 11 de janeiro de 2025

Seja lá o que isso for


I

Pensava que eras de carne e osso

E aproximei-me

Não vi que és da natureza das musas

Seja lá o que isso for

                     Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Mensagem de Ano Novo

 

Podes ter que lutar
Pelo sonho de teres
O teu lugar ao sol
Mas não esqueças
Que às vezes quem está ao sol
Procura uma sombra
Sem a encontrar

É preciso saber valorizar
O que se tem
Antes de pensar em obter
O que falta
Talvez seja possível trocar
Uma parte do que sobeja
Por aquilo que desejas

Não serias a primeira pessoa
A chegar onde tanto ambicionaste
Para então compreenderes
Que afinal o que está a dar
É aquilo por que trocaste.

        Carlos Ricardo Soares

 


domingo, 22 de dezembro de 2024

Este Natal

Este Natal
está ainda mais cheio
de memórias
mais vazio de riquezas
perdidas
mas o meu coração
está onde está
o meu tesouro
não as minhas certezas
este Natal está ainda mais cheio
de incertezas
e isso dá-me esperança
num mundo em que as pessoas
parecem senhores
de uma verdade
triste.
Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Literacias e literacia financeira


Das múltiplas áreas da Educação para a cidadania, a literacia financeira apresenta-se a si mesma como um manequim de alta costura vestido à custa dos que só se podem culpar a si mesmos de alguma vez terem acreditado que se pode ganhar dinheiro seguindo os conselhos e artes mágicas dos prestidigitadores que a si mesmos se intitulam de financiadores da economia e garantes do sistema monetário nacional e internacional.

Nada mais aliciante para quem aspira a essa espécie de estrelato e tem a autoconfiança necessária para não temer as alturas dos truques e dos malabarismos desse mundo tanto mais desconhecido quanto mais se apresenta como objeto de literacia primária generalizada.

Tudo simples, tudo legal, tudo bem intencionado, mas até os mais jovens suspeitam e não confiam nessa forma de publicidade com seu quê de libidinoso.

Assim, mais do que alfabetizar para um mundo a que estamos umbilicalmente ligados pelos fluxos monetários, do que se trata é de uma espécie de anestesia preparatória para a aceitação indolor da agulha ou da faca.

Chamar formação ou consciencialização para a cidadania à campanha de descrição do papel e importância social e económica da função financeira e monetária das instituições financeiras, nomeadamente bancos, seguradoras e bolsas/mercados de valores, como pilares fundamentais dos circuitos das economias, até faria sentido e seria da máxima importância para os formandos cidadãos se em vez de ser no formato de cartilha de promoção e de validação das instituições promotoras, fosse no formato de análise crítica da realidade histórica desse tipo de instituições, nomeadamente quanto ao facto de serem instituições de capital alheio que assentam fundamentalmente num esquema sofisticado de pirâmide em que, invariavelmente, quem chega ao topo não lega às bases. Ou, para usar palavras mais simples, seria bom se a literacia financeira tivesse como objetivo e interesse central apresentar a realidade do poliedro das instituições financeiras e as regras desse jogo de espelhos, tantas vezes envergonhados, dos perdedores, sem esquecer de denunciar a batota dos ganhadores.

Mas os promotores da literacia financeira preferem fingir não compreender e desdenhar dos embirrentos, ao mesmo tempo que não ignoram que estas críticas são demasiada areia para a camioneta dos formandos cidadãos e que estes preferem surfar na onda dos ademanes do manequim de “haute couture”.

       Carlos Ricardo Soares

domingo, 1 de dezembro de 2024

Aproximações à verdade - XXXI - Dia da Restauração da Independência


Hilário: já acabaste de ler a biografia de Camões?

Amiga: esta sim, mas ainda não li a que ainda não acabei de escrever

Hilário: também estás a escrever uma biografia de Camões?

Amiga: não é bem escrever, é mais imaginar do que construir, construir dá ideia de um puzzle, de andar a juntar peças

Hilário: sou leitor entusiasta de biografias, mas quando tento falar delas sinto que há uma distância intransponível entre a minha imaginação e aquilo que é comunicável

Amiga: Camões é um dos Lusíadas mais notáveis e fascinantes, mas não consigo dizer o que sinto e o que penso que me leva a afirmá-lo

Hilário: não se fala de Camões e, sobretudo, não se pensa em Camões como num indivíduo, acerca do qual pouco se sabe, que escreveu poemas e um livro

Amiga: não se fala em Camões como se fala em Camilo Pessanha, ou em Fernão Mendes Pinto, por exemplo

Hilário: quanto mais tentamos imaginar e colocarmo-nos na pele da sua humanidade, da sua humana experiência, vida, conhecimento, arte e obra, mais nos deparamos com um protagonista que, surpreendentemente e por razões de sobejo, podia ser a principal figura dos Lusíadas

Amiga: se estás a pensar o mesmo que eu, paradoxalmente, Camões não teve quem o escrevesse, quem o inscrevesse nos Lusíadas, como ele inscreveu Vasco da Gama

Hilário: mas a voz dele está lá, e o nome, e muitas ressonâncias que nos fazem desejar entender o verdadeiro significado das palavras e dos simbolismos que nos seduzem e ocupam tanto

Amiga: Camões é um personagem que nós temos de criar nos seus próprios termos, da sua experiência, da sua arte e elevação, segundo as condições e acontecimentos do seu tempo

Hilário: poeta que escreve para o mundo do seu tempo, que o hostilizou e ele conheceu com uma acuidade e envolvência singulares, numa ambivalência de amor e ódio, donde partiu amargurado e ao qual voltou, não menos dificilmente do que tinha partido dezassete anos antes, ainda para realizar os seus objetivos, que a vida dá muitas voltas, que eram fazer-nos ouvir a sua voz, uma voz de outros mundos

Amiga: para mim, que sou uma estudiosa de Camões e do seu tempo, há um Portugal antes de Camões e um Portugal após Camões e ele tinha a percepção dessa realidade

Hilário: achas que ele sentiu um choque quando comparou os Lusíadas do poema com os lusíadas com quem passou os últimos dez anos de vida?

Amiga: acho que ele sentiu a confirmação da grandeza do seu poema épico

Hilário: mas Portugal estava numa rota de crescentes dificuldades e decadência

Amiga: a grandeza de Portugal sempre se manifestou nas dificuldades e na decadência, assim como a grandeza de Camões se manifestou na forma como viveu, sublimando os obstáculos e os desaires em etapas de um percurso e obra cujo significado não se obtém senão pela perspetiva histórica

Hilário: Camões e os navegadores portugueses dessa época comungavam de um sentido de abnegação muito grande como se tivessem a noção de que eram personagens de uma narrativa maior que eles, pela qual estavam dispostos a dar tudo

Amiga: eles tinham a noção de que estavam a fazer grandes descobrimentos e grandes obras originais, em que se tornariam, indissociavelmente, as suas vidas.

                                        Carlos Ricardo Soares 

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Razões de queixa, direito de queixa e Direito


O direito de queixa é uma conquista histórica e institucional das razões de queixa. Alguém com razões de queixa é alguém que se perfila perante um responsável por dano ou ofensa, exigindo desagravo, restauração e punição.

Esta capacidade para se perfilar e exigir, a maior parte das vezes, não existe de facto e, quando existe de facto, a maior parte das vezes, é por si mesma um factor de prevenção suficiente. Quando não existe, resta a proteção de um grupo, ou do Estado, para promover o direito de queixa e subsequente tramitação. O que é notável e louvável no Direito, como sua génese essencial, é não poder ignorar as razões de queixa.

Se os sistemas jurídicos mundiais, mais ou menos estaduais, religiosos ou laicos, tivessem capacidade e vontade para reconhecer e atender as razões de queixa, reconhecendo o direito de queixa e responsabilizando efetivamente os autores dos danos e das ofensas, impondo-lhes a obrigação de restaurar as situações até onde for possível e sancionando-os devidamente pela sua conduta censurável, os litígios desmultiplicar-se-iam e seriam evitados à partida por uma legislação que dirimisse preventivamente as razões de queixa.

Que sentido faria o Direito, em geral e abstrato, se não houvesse razões de queixa? E, ao reconhecer essas razões, o Direito não pode ignorá-las e tem de ser a melhor resposta para elas, nomeadamente, consagrando o direito de queixa.

Ora, nenhum direito será Direito se houver razão de queixa dos direitos.

          Carlos Ricardo Soares


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Valores, princípios e condutas


Os valores e os princípios,nomeadamente de direito, continuam e continuarão a ser o fundamento e a fonte de critérios normativos, não apenas para o que é permitido, ou proibido, mas também para avaliar e julgar os actos e, não menos importante, para escolher e determinar as sanções respectivas e, por outro lado, para avaliar e julgar acerca da justiça, quer do julgamento, quer das sanções.
Uma vez formulados, conhecidos, aceites, estabelecidos, dificilmente ou nunca serão postergados sob pena de se estar a infringi-los. Este poder, que não devemos confundir com o poder formal que a autoridade confere à lei, é o verdadeiro dever/poder ético-jurídico que serve de critério de justiça da própria lei.
Aliás, se julgarmos toda e qualquer ação, ou sanção, segundo a ideia de direito, segundo a qual toda e qualquer ação, ou sanção, deve respeitar e obedecer a algo, este dever pressupõe que esse algo seja a melhor das possibilidades.
O problema não surgiria se, por hipótese que não se verifica no reino dos humanos, as acções de uns não entrassem em conflito com as de outros. Infelizmente, a existência de normas que consagram os valores e os princípios de direito servem para indicar o que é direito, o que se deve ou não fazer, para advertir e prevenir para as sanções, mas não são como as vacinas que imunizam os organismos, neste caso, para fazerem o que devem, ou, pelo menos, para não fazerem nada que não devam.
Ainda não foi descoberta uma metodologia que preveja, garantidamente, quem e quando deve ser impedido de praticar actos proibidos.
Quanto aos métodos para fazer com que os indivíduos e os grupos e os exércitos façam o que devem e se abstenham de fazer o que não devem, eles existem mas têm uma eficácia que deixa muito a desejar.
Não quero deixar de concluir que, também neste cômputo, a medida da nossa frustração e da nossa incapacidade para alterar a realidade é dada pelos valores e princípios de direito que não conseguimos fazer valer como desejamos.

                Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Aproximações à verdade - XXX


Hilário: a poesia é o que te falta

Quando pensas que tens tudo

Amiga: e é o que te resta

Quando sentes

Que tudo o que tens

Não importa

Hilário: essa oxidação

Das dores e das agruras

E dos sangramentos

Amiga: que fermentam

Em vinhos inebriantes

Ou em divino vinagre

Hilário: que nem aos deuses

Nem ao diabo

Dispensas

Amiga: por mais que ergam as taças

Suspensas como uma maldição

Hilário: dos mortais vingados

Como cangaços no alambique

Amiga: libertam álcoois etéreos

Com que se enaltecem

Mais que perfeitos.

              Carlos Ricardo Soares 

sábado, 2 de novembro de 2024

Lina 6


Procurava impressões digitais

Na capa das revistas

Espalhadas pelo chão

Qualquer indício

De alguém furtivo

Como um sonho

Um espectro

Ou pégada ninfomaníaca

Naquele refúgio secreto

Sentia-a tão perto

Que quase tocava nela

Mas ela tocava em mim.

                       Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Lina 5


Nunca tinha visto coisa tão Lina

Nem lugar tão bom

Ali na estufa

Todas as coisas eram eróticas

Não sei se embriagado

Pela adrenalina

Que não sentia

Se pela fantasia

Dos teus seios palpitantes

Para onde quer que olhasse

Desejava avidamente

Podê-la encontrar

                                 Carlos Ricardo Soares


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Lina 4


Seguia-te sem pestanejar

Fascinado pela desenvoltura

Com que alçavas o saiote

Encantado pela censura

Com que punhas a mão

No decote

À portinhola da estufa

Dizias em surdina

Quase a pedir

Devagarinho que a Lina

Não nos pode descobrir

                         Carlos Ricardo Soares 


terça-feira, 29 de outubro de 2024

Lina 3


Sinto-a tão perto

Ouço-a a arfar

Vamos à socapa

Se ela nos vir

Nada nos pode salvar

        Carlos Ricardo Soares


Lina 2


Coisas de gaja libertina

Tarada por homem

Prometo contar

Se não tiveres vergonha

De deboches

Que fazem corar

Só de ouvir falar

Estou com medo

                    Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Lina 1

    

Está muito frio

Dizias-me ao ouvido

Calorosamente

Ali é a estufa

Só ela

Pode entrar ali

A Lina

A estouvada

Leviana de mil enigmas

                   Carlos Ricardo Soares


terça-feira, 22 de outubro de 2024

Penso que existo mas seria incapaz de prová-lo


Admito que, em grande parte, as questões do facto e da prova do mesmo não são redutíveis à questão da verdade. Esta é mais do que o facto e do que a prova. 
Não me custa admitir que ocorram mais factos do que aqueles que somos capazes de verificar e de provar. 
Eu penso que existo e, no entanto, não seria capaz de prová-lo, filosoficamente falando. 
Até para provar que nasci, frequentemente as autoridades me exigem uma certidão. Diante de mim, eles não se questionam sobre o facto da minha existência e do meu nascimento. Não lhes passa pela cabeça perguntar «prove-me que nasceu». E não importa se a certidão é um documento falso, o que interessa é que cumpre a sua função de representar a realidade de um indivíduo ter nascido. 
O mérito e a importância prática e teórica da filosofia têm a ver com o discurso sobre o ser (ou não ser).
Historicamente, os filósofos deram-se conta de que a linguagem, os sistemas de codificação e descodificação, tal como acontece atualmente com os sinais de rádio e de televisão, e dos sistemas de codificação informáticos, são por si mesmos uma realidade acerca da realidade que levanta problemas, não apenas práticos, mas também teóricos. 
A necessidade de justificar o que afirmamos sobre a realidade pode ser vista como a fonte da filosofia e do conhecimento, mormente científico.
As religiões tentaram resolver, ou contornar, ou responder ao problema do ser com «não sabemos o que é o ser mas sabemos aquilo que ele deve ser».
Os filósofos depararam com este problema maior e questionaram «o ser deve ser o que é ou o que sabemos que deve ser?». 
Mas, num certo sentido, é logicamente irrecusável que o conhecimento do ser deve ser como deve ser. Isto é o reconhecimento de que o conhecimento como ato humano que é não está fora da alçada da necessidade de escolha, neste caso, da escolha certa (verdade).

Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Todos os caminhos vão dar a Roma

Eu afirmo: factos são factos, naturais ou culturais, coisas, objetos e, em relação a eles, digo que não são verdadeiros, nem falsos, porque verdadeiro ou falso não é da ordem do facto, nem do objeto, é da ordem do discurso, da linguagem, sobre o objeto. 

Uma maçã ou um burro não são verdadeiros nem falsos. Mas estas minhas afirmações podem ser questionadas como verdadeiras ou falsas. Ainda que suscitem questões de “porquê?”, “para quê?”, “como?”, o questionar, o mandar, o aconselhar, o manifestar gosto, preferência, ou vontade, não são problemas de verdade ou falsidade. Estes existem quando se está perante afirmações acerca de algo, de alguma realidade. 

Se tu disseres “segue o teu caminho” ninguém te acusará de seres verdadeiro ou falso, mas se disseres “o melhor é seguires o teu caminho”, ganha pertinência o problema da falsidade ou verdade da tua declaração, ainda que, neste caso, esteja referida a uma opinião, valoração subjetiva. Mas se disseres “esse caminho não leva ao lugar para onde queres ir”, o problema torna-se mais claro e, mais ainda, se especificares o lugar, por exemplo, “esse caminho não vai dar a Roma”.

Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

O poema, a fonte da poesia e a poesia

Não é a qualquer luz que o poema é a verdadeira fonte da poesia como se esta fosse a sombra maior em que se acoitam e entrelaçam clandestinidade deboche e salvação, sem compromisso com as prosas.
Nada que alguém possa prometer, que alguns podem tentar, mas nem tudo dependerá do poema, nem da fecundação, porque nem tudo depende das nossas escolhas, que podemos fazer, e o mais importante, muitas vezes, depende das escolhas dos outros, que não podemos determinar ou sequer influenciar, coarctar, impedir. 
Por mais angustiante que tal pareça, há poemas e muitas prosas com a poesia do orgasmo de acreditar, esperar, desejar, tentar escolher ser escolhido, ainda que num sentido estético, ético, moral, afetivo, sexual, lúdico, ou outro, onde a fantasia está, interminavelmente, cada vez mais perto de ser realidade.

Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Ninguém é professor por defeito

É necessário libertar a instituição pública Escola dos discursos opinativos casuísticos, ou, pelo contrário, demasiado generalizadores, que têm direito de existir e não há como evitar, mas que, infelizmente, são como ventoinhas numa superfície de pó, ou seja, não apanham o pó, nem contribuem para ver melhor o pó e o que ele cobre. São uma espécie de dissipadores de obscuridade e de poluição. Numa altura em que poucos são os que não passaram pela escola, poucos são os que não têm uma ideia ou representações do que ela é, ou do que deve ser. 
Cada um tenderá, naturalmente, a manifestar o que pensa sobre uma realidade que, legitimamente e por experiência direta, conheceu. Mas as experiências individuais e as conclusões que cada um pode tirar delas, têm o valor que têm, são subjetivas e muito parcelares acerca de uma realidade dificilmente abarcável, mesmo recorrendo aos métodos e técnicas científicos mais avançados para conhecer a Escola.
A dificuldade de conhecer a Escola é notória e é imensa. 
A Escola não é, nem de longe nem de perto, a minha escola, ou a tua escola, ou a escola deles. 
Ninguém se atreve a fazer uma espécie de anatomia, fisiologia e neurologia da Escola, em geral, como instituição pública e particular. No entanto, como sempre acontece quando não sabemos o que as coisas são, toda a gente está à vontade para dizer o que as Escolas devem ser, o que as coisas devem ser.
Este é um tema que me é muito caro em cada abordagem que faço de qualquer assunto.
Se antes de lermos um texto tivéssemos alguma maneira de saber o que ele diz, isso evitaria que o lêssemos caso não nos interessasse.
Há uma dependência arcaica, tendencialmente diferenciadora e exclusivista, dos discursos linguísticos e da linguagem simbólica, da cultura livresca, focada no significado e no suposto valor da linguagem, que não deve ser promovido pela Escola, nem como sua principal razão de ser, nem como sua função primordial, nem como seu horizonte preferencial.
A Escola estaria condenada ao fracasso se fosse tão basicamente organizada à volta e por causa das aprendizagens especificamente dirigidas ao sucesso académico tal como ele é entendido num dado momento.
Aliás, é necessário libertar a Escola do academismo pernicioso em que alguns académicos bem sucedidos não devem ser apresentados como prova da sua bondade nem como justificação da sua eficiência. Julgo que todos sabemos que não é para isto, ou só para isto, que a Escola pública deve ser desenhada.
De qualquer modo, não me parece que a Escola alguma vez, fosse com que meios e recursos fosse, tivesse capacidade para realizar mais ou diferente do que aquilo que a realidade indivídual, social e cultural proporciona e permite operar.
Não há como dispensar os contributos das ciências humanas e sociais, nomeadamente as psicologias, as neurociências, as ciências da educação, a sociologia, e outras, não apenas para saber educar mas também como ensinar. É fundamental que se saiba boas formas de ensinar e de aprender, que se desenvolvam boas práticas de ensino e de aprendizagem, que se conheçam métodos e procedimentos adequados de avaliação e de classificação. E, já agora, que se esteja a par dos recursos existentes e disponíveis, bem como da utilização das ferramentas mais eficazes em cada situação, tanto para quem ensina como para quem aprende. 
Nada disto é inerente ao facto de se ter uma habilitação especializada numa área disciplinar. E este requisito não é de somenos importância porque ao professor não basta ser especialista ou ter habilitações numa disciplina, ou área disciplinar, é necessário que, além dessa formação, seja professor. 
Ser professor, como também acontece noutras profissões, está sujeito a uma redefinição acelerada, mercê de uma atualização sem precedentes das condições para o seu exercício e das funções concomitantemente solicitadas. Ninguém é professor por defeito.

Carlos Ricardo Soares

domingo, 25 de agosto de 2024

Aproximações à verdade XXIX


Hilário: tenho andado a tentar perceber porque é que, passados sessenta anos, ou mais, desde que ouvi falar de Luís de Camões, cada vez me fascina mais o homem e menos o mito

Amiga: Camões, para mim, só não é um personagem de uma história de ação, porque era poeta e escreveu os Lusíadas

Hilário: não há como separar o homem e a obra

Amiga: não há como separar o homem, a obra e o tempo, a história, o contexto histórico

Hilário: o tempo, a história, o contexto histórico, sem Camões, seriam entendidos de modo diferente

Amiga: grande parte da visão que temos de Portugal desse tempo é-nos proporcionada por Luís de Camões, nascido há 500 anos

Hilário: é admirável e genial este português, tão situado no tempo dos descobrimentos e tão pouco distanciado dos factos da história de Portugal, ter congeminado uma visão tão rica e tão realista dessa história

Amiga: o fascínio de que falavas há pouco deve estar associado ao facto de que, no caso de Camões, a realidade supera sempre a imaginação e o mito

Hilário: é isso, ele faz parte da história, não como outro cidadão que, como ele, embarcou e, porventura, como ele, tenha regressado, mas como protagonista da sua própria epopeia

Amiga: que serve de simbologia espantosa para a epopeia dos Lusíadas

Hilário: foram 56 anos de vida, entre 1524 e 1580

Amiga: Camões pouco escreveu sobre si próprio. Quem não conhecer a obra e a história do homem, dentro da história de Portugal, não entende nada do que estamos a falar.


Carlos Ricardo Soares 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

O sonho comanda a vida II


Voltando ao meu texto anterior, à cultura como todos os atos (processos conscientes/racionais/individuais de escolha, num quadro de possibilidades) de manifestação, objetivação, objetificação, e factos correspondentes, parece legítimo pensar que as filosofias, as ciências, as artes, as engenharias, as letras (línguas, literaturas), as religiões, os valores, os desportos, os ofícios, os usos e costumes, têm em comum o processo de escolha, consciente/racional/individual.
Assim, só para exemplificar, Moisés, Platão, Santo Agostinho, Copérnico, Galileu, Camões, Pedro Nunes, Descartes, Napoleão, Kant, Newton, Darwin, Einstein, em suma, todos nós, quando praticamos um ato (processo mental, tal como o defino supra), seja ele apenas mental, sobre algo muito trivial e automatizado, ou sobre algo inaudito, original e complexo, seja ele de manifestação exterior, com mais ou menos intencionalidade significativa e de comunicação, estamos a operar funções neurológicas e mentais que poderíamos descrever e mapear como funções comuns. Do mesmo modo que dizemos que todos nós, quando andamos, temos um corpo com pernas que se movem uma a seguir à outra. O que nos distingue não é esta função, ainda que o não façamos como se fossemos réplicas perfeitas uns dos outros.
Não obstante, enquanto podemos observar o modo como andamos e analisar anatomicamente a estrutura que suporta e permite o processo de movimentos e de atos que envolvem caminhar, já o mesmo não acontece com o ato de pensar, de escolher, de executar mentalmente.
Falar de anatomia de um pensamento? Só em sentido metafórico, mesmo que quiséssemos referir-nos não ao pensamento mas ao suporte físico, neurológico, em que ele ocorre.
Devemos, então, considerar que a situação dá azo a um problema epistemológico severo, tanto no que concerne à fisiologia mental do ato, qualquer que ele seja, como no que respeita às fases do processo do ato, enquanto fenómeno mental consciente e racional, como o defino.
 
Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

O sonho comanda a vida I


O sonho comanda a vida - este verso do poema «Pedra Filosofal», de António Gedeão, continua a ser surpreendente e opõe-se a todos os pessimismos - a cultura como realização de escolhas que são atos conscientes, racionais (a minha noção de racionalidade não coincide com o uso corrente do termo. A racionalidade que inventou os mitos e os deuses é a mesma que inventou o telescópio e a teoria da evolução). Esses atos ocorrem em situações tão variadas que podem ser do mais espontâneo até ao mais refletido, ponderado, programado. Independentemente de ser mais ou menos fantasioso, mais ou menos impossível, mais ou menos desejado, o pensamento sobre o objetivo e o objeto a realizar, se for possível realizar e houver vontade disso, é uma representação antecipada daquilo que ocorrerá, das consequências e dos efeitos do ato (pode haver consequências e efeitos imprevistos, imprevisíveis, acidentais, que escapam à intenção e ao controlo do indivíduo). 
O quadro de possibilidades normalmente é muito mais complexo do que aquele que está sob o domínio do indivíduo. A previsibilidade nem sempre é completa e a previsão, frequentemente, está focada em efeitos muito parcelares, sem ter em conta outras variáveis.
Se pusermos a tónica na análise da estrutura do ato, do processo mental que toma consciência, racionaliza as possibilidades da situação, representa antecipadamente consequências e efeitos e exerce a escolha, realiza a escolha, temos importantes motivos para pensar que a ação humana é guiada, pautada, orientada, dirigida a algo, à realização de algo de que se faz alguma ideia, de que se tem alguma representação. Então, se os atos humanos não forem sempre a realização de sonhos, parece que são sempre, pelo menos, a realização de alguma ideia, representação de um objetivo. 
E este objetivo, o efeito e consequência pretendidos, começa por ser uma representação prévia, antes de ser uma realização concreta. Se este é o modo de atuar humano, se a cultura, como produção humana, compreendendo toda a produção humana, é a realização de representações mentais (ter presente que nem todas as representações mentais, nem mesmo uma pequeníssima parte, logram concretização, objetivação, objetificação) poderíamos ser tentados a pensar que há uma simples relação de precedência do mental sobre o cultural e que este é fruto daquele. No entanto, as representações mentais, mormente as que se propõem à realização, são elas próprias um resultado vivo, dinâmico e criativo do indivíduo com a cultura e com o mundo, em geral. É como se a vida fizesse sonhar. Tal como sonhar é viver, viver é sonhar. Não há garantias de que o sonho se realize. 
Mas pode acontecer, como muitas vezes acontece, que as realizações superem os sonhos.

Carlos Ricardo Soares


domingo, 4 de agosto de 2024

Senso comum


Se não tivesses sido sensata

Teríamos partido à aventura

Talvez até devorados

Por crocodilos emboscados

Mas a tua bússola interior

Não me confirmou

E tu

Sensatamente

Continuaste ancorada

Nas miragens da sede

De quem tem febre

Talvez tudo tivesse sido pior

Em qualquer caso

                    Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Ainda sobre o problema da existência/essência

Entende-se melhor o problema da existência/essência, reportado ao existencialismo e às doutrinas existencialistas, se considerarmos a existência como existir (facto natural) e essência como ser (pensamento sobre o facto de existir). 
A essência é da ordem da cultura, do pensamento, do intelecto, do conhecimento, do discurso epistemológico, científico. 
De qualquer modo, estamos perante duas faces da mesma moeda transparente. 
Ao pensarmos na essência da existência, estamos a existir, ou seja, estamos a ser aquilo que queremos "definir", mas que ainda é um processo em curso. A existência está a "produzir" a essência. A essência não será, ainda assim, diferida em relação à existência. Isto seria ilusório, porque o "ser diferida" não quer dizer que não existe como tal, que não é o modo de ser da própria existência. Salvaguardadas as devidas diferenças, se, por exemplo, um cão tenta apanhar a própria cauda, isso não pode ser visto como um cão em que a cauda precede o focinho, ou vice-versa. 
A questão é que o cão tenha consciência da ilusão de que é vítima, ou em que incorre. 
O existencialismo ressalta o facto de que, se, com mais ou menos consciência, tu existes, então, o busílis da questão,  está na consciência.
                    Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 16 de julho de 2024

A controvérsia


Lá está a controvérsia

Por acaso

Controvertida

De sempre amiga

E controvertível

Em versos e inversos

Dis e indis ponível

Nas luas da idade

Vaga mente opo nível

A questão é essa

Se é possível que algo

Faça perder a cabeça

Ainda que nos saúde.

      Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 28 de junho de 2024

Perdigão perdeu a pena não há mal que lhe não venha


Quando Camões regressou da Índia e aportou em Cascais a bordo da nau Santa Clara em 7 de abril de 1570, já não via Lisboa desde 1553 e teve de esperar umas semanas, antes de desembarcar, por causa da peste que grassava em Lisboa. Quando aqui chegou, os cenários, com que deparou nas ruas, eram do mais tétrico que se pode imaginar. O número de mortos e de mascarados, com máscaras em funil, que tornava as coisas ainda mais tenebrosas, era aterrador e, ainda assim, Camões seguia com a vaga esperança de reencontrar a mãe viva. Esta, se o fosse, provavelmente, não o esperava, nem o reconheceria e tê-lo-ia por morto.
Caminhava com uma pequena bagagem, de manuscritos, que lhe era preciosa. Ia no sentido do sítio onde vivera, antes de partir para a longa viagem de navegação, há 17 anos. 
Depois de ter indagado um moribundo, que gemia deitado na soleira de uma porta, na esperança de o ouvir dizer que sua mãe estava viva, parou um pouco a cismar e sentou-se num degrau a meio das escadas que lhe traziam lembranças complicadas... Isto daria um romance, não é?
A máscara até não é muito difícil de aceitar, já nesses tempos em que as epidemias impunham quarentenas.
Camões foi, realmente, um perdigão azarado. De mal a pior, não sabemos com que estado de espírito acompanhou a azáfama, as incertezas e agoiros que estalaram nos preparativos da campanha para a batalha de Alcácer Quibir, que viria a ser travada no norte de Marrocos perto da cidade de Alcácer Quibir, entre Tânger e Fez, em 4 de agosto de 1578, nem como viveu e comentou essas graves crises, como podemos supor que o fizesse. Também não sabemos o estado de espírito com que soube da derrota portuguesa, com o desaparecimento em combate do rei D. Sebastião e o aprisionamento ou morte da nata da nobreza portuguesa. 
Na falta de qualquer registo escrito do próprio Camões, ou de testemunho de declarações, ou de posições que tivesse tomado acerca de assuntos tão relevantes e tão graves para o reino de Portugal, não deixam de abrir-se à nossa imaginação esses dolorosos e trágicos tempos, que já lhe não coube, como grande poeta, tratar, apesar de os ter vivido com grande proximidade e presumível sofrimento, pelo sentimento de perda e desaire brutal que se abateu sobre os portugueses, cerceados assim os últimos laivos de pretensão à glória pátria da expansão trágico-marítima dos egrégios avós. E ainda assistiu à crise política e às lutas de sucessão ao trono, com a consequente perda de independência de Portugal, em 1580, ano em que morreu, dez anos após o seu regresso do oriente.
Uma biografia com um balanço em que as dificuldades, o sofrimento e a tragédia, mormente dos últimos dez anos da sua vida, levaram de vencida o homem, mas não obliteraram a obra.


quinta-feira, 20 de junho de 2024

Eclipses


O eclipsar das luzes

Não é para todos os olhos

E dura o instante

Impecável

Da geração do escuro

Todos têm acesso

A uma lanterna

Na escuridão

Que dura um tempo

Suficiente para criarmos

Todas as fantasmagorias

Até os quadros mais antigos

Retratam a decadência nascente

Do que virá a ser

Decadente

Até as fotografias captam

O instante

Em que as luzes deixam

De iluminar

O momento seguinte.

                               Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 31 de maio de 2024

A lira

Quem se deixa tocar pela lira começa por ser surpreendido pelas palavras e não deixará de se render ao seu fascínio e poder de efemeridade, mesmo quando este é o reverso intangível dos decretos.
Ao eclipsar-se, por amor da relativa arbitrariedade das sentenças, trafega promessas de além e acústica vocabular, em toada de pregoeiro oculto, afinando em realejo de sonoridades arrepiantes, critérios de um fruto estético que, rogada e avaramente, haverá de surtir poético.
Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Se desvelam

Se desvelam

É muito mais o que

A si revelam

Se aos olhos

Mostram

Promessas

Talvez só

Na imaginação

A pujança

Tão delicada

Da dança

Dos sentidos

É uma explosão

Tão subtil e disfarçada

Que nem parece

Que não estão

A mostrar nada.


Carlos Ricardo Soares 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

A bandeira da Liberdade

A bandeira da Liberdade. Porque abril é sempre primavera.
A minha esperança na educação, como no resto, é fruto da minha constatação, desde sempre, de que, em liberdade, havendo condições de liberdade, a cultura, por si mesma, gera progresso. Ou seja, o progresso é inerente ao processo cultural, que é o processo pelo qual o homem, em liberdade, escolhe o melhor, no quadro das possibilidades.
A Educação deve abster-se de agitar bandeiras.
A única bandeira, se houvesse uma, que ficaria bem à Educação, seria a da Liberdade.
O conceito de progresso é muito problemático e quando vejo alguém a usar o termo como uma bandeira fico preocupado, mesmo que esse uso se tenha banalizado, ou faça parte daqueles lugares comuns a que todos torcem o nariz e ninguém é capaz de dizer não.
Quando é um grupo, ou um partido, seja de humanistas, da verdade, de Deus, ou de outra coisa qualquer, a agitar a bandeira de progresso, ainda fico mais preocupado.
É na Liberdade, no quadro das possibilidades, subjetivas e objetivas, que o indivíduo opera as suas escolhas (e não as dos outros), e estas devem ser o mais livres possível, não devem ser tolhidas com repressões e opressões e práticas de submissão que se reproduzem em espirais de discriminação, de desigualdades, de violência e de injustiça.

Sabemos que só há um modo de o indivíduo realizar e exercer as suas capacidades e aptidões mentais conscientes a que não temos diretamente acesso: é pelo processo do seu próprio pensamento, pela sua racionalidade, pelo “cruzamento de dados e de informações” que opera. Não sabemos o que vai na sua cabeça, mas podemos, até um certo ponto, saber que cada cabeça sua sentença. Cada indivíduo é uma instância moral irredutível, ainda que não seja uma instância irredutível de conhecimento.

De qualquer modo, e também por isso, os efeitos, as consequências, as implicações, os imprevistos, a criatividade, a inovação, da Educação, tirando um escasso espectro de adestramentos e de manifestações de competências aprendidas, que são normalmente avaliadas e classificadas para fins académicos e profissionais, extravasam imensamente tudo o que se possa imaginar. Caso para dizer que há mais vida para além da Educação.
Onde as pessoas têm liberdade de escolha o progresso acontece "naturalmente", diria mesmo que só na liberdade de escolha o progresso acontece como um determinismo. E isto deve dar-nos esperança e tranquilidade, desde que asseguremos a tal liberdade sem a qual os problemas se multiplicam. Em liberdade, o confronto com o tradicional faz parte do tradicional e é desse confronto que, também, resulta o progresso. Mas não se promove a liberdade quando se trabalha para a desinformação.
Iria mais longe, até ao paradoxo democrático, de dizer que não se promove liberdade quando se promove um partido, nem talvez quando esse partido fosse o partido da liberdade.

Carlos Ricardo Soares