III
Pensava que eras palpável
Confiei-me
Não vi que o teu perfume
Seja lá o que isso for
É da natureza do lume
Carlos Ricardo Soares"Ser feliz é uma actividade que requer toda uma vida e não pode existir em menos tempo" - Aristóteles, Ética a Nicómaco
III
Pensava que eras palpável
Confiei-me
Não vi que o teu perfume
Seja lá o que isso for
É da natureza do lume
Carlos Ricardo SoaresII
Pensava que eras um corpo
Esculpido neste mundo
De flagelos e de angústias
Não vi que és uma pérola
Escondida
Seja lá o que isso for
É da natureza do amor
Carlos Ricardo Soares
I
Pensava que eras de carne e osso
E aproximei-me
Não vi que és da natureza das musas
Seja lá o que isso for
Carlos Ricardo Soares
Carlos Ricardo Soares
Das múltiplas áreas da Educação para a cidadania, a literacia financeira apresenta-se a si mesma como um manequim de alta costura vestido à custa dos que só se podem culpar a si mesmos de alguma vez terem acreditado que se pode ganhar dinheiro seguindo os conselhos e artes mágicas dos prestidigitadores que a si mesmos se intitulam de financiadores da economia e garantes do sistema monetário nacional e internacional.
Nada mais aliciante para quem aspira a essa espécie de estrelato e tem a autoconfiança necessária para não temer as alturas dos truques e dos malabarismos desse mundo tanto mais desconhecido quanto mais se apresenta como objeto de literacia primária generalizada.
Tudo simples, tudo legal, tudo bem intencionado, mas até os mais jovens suspeitam e não confiam nessa forma de publicidade com seu quê de libidinoso.
Assim, mais do que alfabetizar para um mundo a que estamos umbilicalmente ligados pelos fluxos monetários, do que se trata é de uma espécie de anestesia preparatória para a aceitação indolor da agulha ou da faca.
Chamar formação ou consciencialização para a cidadania à campanha de descrição do papel e importância social e económica da função financeira e monetária das instituições financeiras, nomeadamente bancos, seguradoras e bolsas/mercados de valores, como pilares fundamentais dos circuitos das economias, até faria sentido e seria da máxima importância para os formandos cidadãos se em vez de ser no formato de cartilha de promoção e de validação das instituições promotoras, fosse no formato de análise crítica da realidade histórica desse tipo de instituições, nomeadamente quanto ao facto de serem instituições de capital alheio que assentam fundamentalmente num esquema sofisticado de pirâmide em que, invariavelmente, quem chega ao topo não lega às bases. Ou, para usar palavras mais simples, seria bom se a literacia financeira tivesse como objetivo e interesse central apresentar a realidade do poliedro das instituições financeiras e as regras desse jogo de espelhos, tantas vezes envergonhados, dos perdedores, sem esquecer de denunciar a batota dos ganhadores.
Mas os promotores da literacia financeira preferem fingir não compreender e desdenhar dos embirrentos, ao mesmo tempo que não ignoram que estas críticas são demasiada areia para a camioneta dos formandos cidadãos e que estes preferem surfar na onda dos ademanes do manequim de “haute couture”.
Carlos Ricardo SoaresHilário: já acabaste de ler a biografia de Camões?
Amiga: esta sim, mas ainda não li a que ainda não acabei de escrever
Hilário: também estás a escrever uma biografia de Camões?
Amiga: não é bem escrever, é mais imaginar do que construir, construir dá ideia de um puzzle, de andar a juntar peças
Hilário: sou leitor entusiasta de biografias, mas quando tento falar delas sinto que há uma distância intransponível entre a minha imaginação e aquilo que é comunicável
Amiga: Camões é um dos Lusíadas mais notáveis e fascinantes, mas não consigo dizer o que sinto e o que penso que me leva a afirmá-lo
Hilário: não se fala de Camões e, sobretudo, não se pensa em Camões como num indivíduo, acerca do qual pouco se sabe, que escreveu poemas e um livro
Amiga: não se fala em Camões como se fala em Camilo Pessanha, ou em Fernão Mendes Pinto, por exemplo
Hilário: quanto mais tentamos imaginar e colocarmo-nos na pele da sua humanidade, da sua humana experiência, vida, conhecimento, arte e obra, mais nos deparamos com um protagonista que, surpreendentemente e por razões de sobejo, podia ser a principal figura dos Lusíadas
Amiga: se estás a pensar o mesmo que eu, paradoxalmente, Camões não teve quem o escrevesse, quem o inscrevesse nos Lusíadas, como ele inscreveu Vasco da Gama
Hilário: mas a voz dele está lá, e o nome, e muitas ressonâncias que nos fazem desejar entender o verdadeiro significado das palavras e dos simbolismos que nos seduzem e ocupam tanto
Amiga: Camões é um personagem que nós temos de criar nos seus próprios termos, da sua experiência, da sua arte e elevação, segundo as condições e acontecimentos do seu tempo
Hilário: poeta que escreve para o mundo do seu tempo, que o hostilizou e ele conheceu com uma acuidade e envolvência singulares, numa ambivalência de amor e ódio, donde partiu amargurado e ao qual voltou, não menos dificilmente do que tinha partido dezassete anos antes, ainda para realizar os seus objetivos, que a vida dá muitas voltas, que eram fazer-nos ouvir a sua voz, uma voz de outros mundos
Amiga: para mim, que sou uma estudiosa de Camões e do seu tempo, há um Portugal antes de Camões e um Portugal após Camões e ele tinha a percepção dessa realidade
Hilário: achas que ele sentiu um choque quando comparou os Lusíadas do poema com os lusíadas com quem passou os últimos dez anos de vida?
Amiga: acho que ele sentiu a confirmação da grandeza do seu poema épico
Hilário: mas Portugal estava numa rota de crescentes dificuldades e decadência
Amiga: a grandeza de Portugal sempre se manifestou nas dificuldades e na decadência, assim como a grandeza de Camões se manifestou na forma como viveu, sublimando os obstáculos e os desaires em etapas de um percurso e obra cujo significado não se obtém senão pela perspetiva histórica
Hilário: Camões e os navegadores portugueses dessa época comungavam de um sentido de abnegação muito grande como se tivessem a noção de que eram personagens de uma narrativa maior que eles, pela qual estavam dispostos a dar tudo
Amiga: eles tinham a noção de que estavam a fazer grandes descobrimentos e grandes obras originais, em que se tornariam, indissociavelmente, as suas vidas.
Carlos Ricardo SoaresO direito de queixa é uma conquista histórica e institucional das razões de queixa. Alguém com razões de queixa é alguém que se perfila perante um responsável por dano ou ofensa, exigindo desagravo, restauração e punição.
Esta capacidade para se perfilar e exigir, a maior parte das vezes, não existe de facto e, quando existe de facto, a maior parte das vezes, é por si mesma um factor de prevenção suficiente. Quando não existe, resta a proteção de um grupo, ou do Estado, para promover o direito de queixa e subsequente tramitação. O que é notável e louvável no Direito, como sua génese essencial, é não poder ignorar as razões de queixa.
Se os sistemas jurídicos mundiais, mais ou menos estaduais, religiosos ou laicos, tivessem capacidade e vontade para reconhecer e atender as razões de queixa, reconhecendo o direito de queixa e responsabilizando efetivamente os autores dos danos e das ofensas, impondo-lhes a obrigação de restaurar as situações até onde for possível e sancionando-os devidamente pela sua conduta censurável, os litígios desmultiplicar-se-iam e seriam evitados à partida por uma legislação que dirimisse preventivamente as razões de queixa.
Que sentido faria o Direito, em geral e abstrato, se não houvesse razões de queixa? E, ao reconhecer essas razões, o Direito não pode ignorá-las e tem de ser a melhor resposta para elas, nomeadamente, consagrando o direito de queixa.
Ora, nenhum direito será Direito se houver razão de queixa dos direitos.
Carlos Ricardo Soares
Hilário: a poesia é o que te falta
Quando pensas que tens tudo
Amiga: e é o que te resta
Quando sentes
Que tudo o que tens
Não importa
Hilário: essa oxidação
Das dores e das agruras
E dos sangramentos
Amiga: que fermentam
Em vinhos inebriantes
Ou em divino vinagre
Hilário: que nem aos deuses
Nem ao diabo
Dispensas
Amiga: por mais que ergam as taças
Suspensas como uma maldição
Hilário: dos mortais vingados
Como cangaços no alambique
Amiga: libertam álcoois etéreos
Com que se enaltecem
Mais que perfeitos.
Carlos Ricardo SoaresProcurava impressões digitais
Na capa das revistas
Espalhadas pelo chão
Qualquer indício
De alguém furtivo
Como um sonho
Um espectro
Ou pégada ninfomaníaca
Naquele refúgio secreto
Sentia-a tão perto
Que quase tocava nela
Mas ela tocava em mim.
Carlos Ricardo Soares
Nunca tinha visto coisa tão Lina
Nem lugar tão bom
Ali na estufa
Todas as coisas eram eróticas
Não sei se embriagado
Pela adrenalina
Que não sentia
Se pela fantasia
Dos teus seios palpitantes
Para onde quer que olhasse
Desejava avidamente
Podê-la encontrar
Carlos Ricardo Soares
Seguia-te sem pestanejar
Fascinado pela desenvoltura
Com que alçavas o saiote
Encantado pela censura
Com que punhas a mão
No decote
À portinhola da estufa
Dizias em surdina
Quase a pedir
Devagarinho que a Lina
Não nos pode descobrir
Carlos Ricardo Soares
Está muito frio
Dizias-me ao ouvido
Calorosamente
Ali é a estufa
Só ela
Pode entrar ali
A Lina
A estouvada
Leviana de mil enigmas
Carlos Ricardo Soares
Eu afirmo: factos são factos, naturais ou culturais, coisas, objetos e, em relação a eles, digo que não são verdadeiros, nem falsos, porque verdadeiro ou falso não é da ordem do facto, nem do objeto, é da ordem do discurso, da linguagem, sobre o objeto.
Uma maçã ou um burro não são verdadeiros nem falsos. Mas estas minhas afirmações podem ser questionadas como verdadeiras ou falsas. Ainda que suscitem questões de “porquê?”, “para quê?”, “como?”, o questionar, o mandar, o aconselhar, o manifestar gosto, preferência, ou vontade, não são problemas de verdade ou falsidade. Estes existem quando se está perante afirmações acerca de algo, de alguma realidade.
Se tu disseres “segue o teu caminho” ninguém te acusará de seres verdadeiro ou falso, mas se disseres “o melhor é seguires o teu caminho”, ganha pertinência o problema da falsidade ou verdade da tua declaração, ainda que, neste caso, esteja referida a uma opinião, valoração subjetiva. Mas se disseres “esse caminho não leva ao lugar para onde queres ir”, o problema torna-se mais claro e, mais ainda, se especificares o lugar, por exemplo, “esse caminho não vai dar a Roma”.
Carlos Ricardo Soares
Hilário: tenho andado a tentar perceber porque é que, passados sessenta anos, ou mais, desde que ouvi falar de Luís de Camões, cada vez me fascina mais o homem e menos o mito
Amiga: Camões, para mim, só não é um personagem de uma história de ação, porque era poeta e escreveu os Lusíadas
Hilário: não há como separar o homem e a obra
Amiga: não há como separar o homem, a obra e o tempo, a história, o contexto histórico
Hilário: o tempo, a história, o contexto histórico, sem Camões, seriam entendidos de modo diferente
Amiga: grande parte da visão que temos de Portugal desse tempo é-nos proporcionada por Luís de Camões, nascido há 500 anos
Hilário: é admirável e genial este português, tão situado no tempo dos descobrimentos e tão pouco distanciado dos factos da história de Portugal, ter congeminado uma visão tão rica e tão realista dessa história
Amiga: o fascínio de que falavas há pouco deve estar associado ao facto de que, no caso de Camões, a realidade supera sempre a imaginação e o mito
Hilário: é isso, ele faz parte da história, não como outro cidadão que, como ele, embarcou e, porventura, como ele, tenha regressado, mas como protagonista da sua própria epopeia
Amiga: que serve de simbologia espantosa para a epopeia dos Lusíadas
Hilário: foram 56 anos de vida, entre 1524 e 1580
Amiga: Camões pouco escreveu sobre si próprio. Quem não conhecer a obra e a história do homem, dentro da história de Portugal, não entende nada do que estamos a falar.
Carlos Ricardo Soares
Se não tivesses sido sensata
Teríamos partido à aventura
Talvez até devorados
Por crocodilos emboscados
Mas a tua bússola interior
Não me confirmou
E tu
Sensatamente
Continuaste ancorada
Nas miragens da sede
De quem tem febre
Talvez tudo tivesse sido pior
Em qualquer caso
Carlos Ricardo Soares
Lá está a controvérsia
Por acaso
Controvertida
De sempre amiga
E controvertível
Em versos e inversos
Dis e indis ponível
Nas luas da idade
Vaga mente opo nível
A questão é essa
Se é possível que algo
Faça perder a cabeça
Ainda que nos saúde.
Carlos Ricardo Soares
O eclipsar das luzes
Não é para todos os olhos
E dura o instante
Impecável
Da geração do escuro
Todos têm acesso
A uma lanterna
Na escuridão
Que dura um tempo
Suficiente para criarmos
Todas as fantasmagorias
Até os quadros mais antigos
Retratam a decadência nascente
Do que virá a ser
Decadente
Até as fotografias captam
O instante
Em que as luzes deixam
De iluminar
O momento seguinte.
Carlos Ricardo Soares
Se desvelam
É muito mais o que
A si revelam
Se aos olhos
Mostram
Promessas
Talvez só
Na imaginação
A pujança
Tão delicada
Da dança
Dos sentidos
É uma explosão
Tão subtil e disfarçada
Que nem parece
Que não estão
A mostrar nada.
Carlos Ricardo Soares
A bandeira da Liberdade. Porque abril é sempre primavera.
A minha esperança na educação, como no resto, é fruto da minha constatação,
desde sempre, de que, em liberdade, havendo condições de liberdade, a cultura, por si mesma, gera progresso. Ou seja, o progresso é inerente ao processo cultural, que é o processo pelo qual o homem,
em liberdade, escolhe o melhor, no quadro das possibilidades.
A Educação deve abster-se de agitar bandeiras.
A única bandeira, se houvesse uma, que ficaria bem à Educação,
seria a da Liberdade.
O conceito de progresso é muito problemático e quando vejo alguém a usar o termo como uma bandeira fico preocupado, mesmo que esse uso se tenha banalizado, ou faça parte
daqueles lugares comuns a que todos torcem o nariz e ninguém é capaz de dizer não.
Quando é um grupo, ou um partido, seja de humanistas, da verdade, de Deus, ou de outra coisa qualquer, a agitar
a bandeira de progresso, ainda fico mais preocupado.
É na Liberdade, no quadro das possibilidades, subjetivas e objetivas, que o indivíduo opera as suas escolhas (e não as dos outros), e estas devem
ser o mais livres possível, não devem ser tolhidas com repressões e opressões e práticas de submissão que se reproduzem em espirais de discriminação, de desigualdades,
de violência e de injustiça.
Sabemos que só há um modo de o indivíduo realizar e exercer as suas capacidades e aptidões mentais conscientes a que não temos diretamente acesso: é pelo processo do seu próprio pensamento, pela sua racionalidade, pelo “cruzamento de dados e de informações” que opera. Não sabemos o que vai na sua cabeça, mas podemos, até um certo ponto, saber que cada cabeça sua sentença. Cada indivíduo é uma instância moral irredutível, ainda que não seja uma instância irredutível de conhecimento.
De qualquer modo, e também por isso, os efeitos, as consequências, as implicações, os imprevistos, a criatividade, a inovação, da Educação,
tirando um escasso espectro de adestramentos e de manifestações de competências aprendidas, que são normalmente avaliadas e classificadas para fins académicos e profissionais, extravasam imensamente
tudo o que se possa imaginar. Caso para dizer que há mais vida para além da Educação.
Onde as pessoas têm liberdade de escolha o progresso acontece "naturalmente", diria mesmo
que só na liberdade de escolha o progresso acontece como um determinismo. E isto deve dar-nos esperança e tranquilidade, desde que asseguremos a tal liberdade sem a qual os problemas se multiplicam. Em liberdade,
o confronto com o tradicional faz parte do tradicional e é desse confronto que, também, resulta o progresso. Mas não se promove a liberdade quando se trabalha para a desinformação.
Iria
mais longe, até ao paradoxo democrático, de dizer que não se promove liberdade quando se promove um partido, nem talvez quando esse partido fosse o partido da liberdade.