Parecendo que não
A fanfarra acaba
Na noite de luar
Não meço anos-luz
Nem fulgem rios
De memória
Como se um barco
Afinal
Não estivesse parado
No meu tempo.
Carlos Ricardo Soares
"Ser feliz é uma actividade que requer toda uma vida e não pode existir em menos tempo" - Aristóteles, Ética a Nicómaco
Parecendo que não
A fanfarra acaba
Na noite de luar
Não meço anos-luz
Nem fulgem rios
De memória
Como se um barco
Afinal
Não estivesse parado
No meu tempo.
Carlos Ricardo Soares
Correndo o risco de cair em contradições e de incorrer em dislates, aproveito para fazer um pequeno exercício verbal atinente ao problema académico
das contradições, dos paradoxos e da lógica.
Ser e não ser, ser A e não ser A, ser A e não ser B, C, D...
Ser ou não ser, ser A, ou não ser A, ou não
ser B, C, D...
Ser e poder ser, ser A e poder ser B, C, D...
Ser e não poder ser, ser A e não poder ser B, C, D...
Ser e dever-ser, ser A e dever ser B, C, D...
Ser e não dever-ser,
ser A e não dever ser B, C, D...
Importa pensar que a palavra “ser” é um verbo, mas também é um substantivo, ou um adjetivo. E levanta um problema muito particular e curioso,
em termos de racionalidade científica, não metafísica: o ser é o que é. Esta constatação da realidade impede-nos de considerações sobre o que foi e sobre o que
será, porque estas remetem para o que não é, para o não existente.
Mas, sendo assim, não há nada que possamos dizer sobre o que quer que seja, porque tudo o que dizemos é
em diferido, quer dizer, é sobre algo que já não é.
As questões de lógica são manifestações de racionalidade através de uma linguagem, através
de uma codificação significante.
Penso que são fundamentalmente questões verbais, ser, não ser, poder ser, dever-ser, por exemplo, no que respeita a coisas (tenho na mão um objeto
que designo de livro, mas é um copo. É falso o que digo, mas não é falso o objeto. Há aqui, nestas frases, um conjunto subentendido de operações racionais que poderíamos
analisar e explicitar ainda mais em raciocínios lógicos, inclusivamente, para justificar o que digo).
Penso que a lógica é um processo de linguagem, seja verbal, seja numérica, ou outra,
e tem a ver com a racionalidade, ou melhor, no caso dos humanos, a racionalidade é um processo consciente, embora seja automatizado em grande parte das operações de tipo mais abstrato.
Penso que,
sem linguagem, embora exista racionalidade, não há lógica.
Ou seja, os processos racionais tornam-se lógicos, ou problemas de lógica, através da linguagem.
Carlos Ricardo Soares
Carlos Ricardo Soares
Gente zangada. Gente zangada não se ri. Mas já vi gente ganzada a rir como louca. Enquanto ri a gente não se zanga. Acontece o mesmo com o choro. Ninguém ri e chora ao mesmo tempo. Mas há personagens que têm afivelada a máscara do riso, do choro, da ira, da bonomia, da sonolência, da loucura, etc.. D. Quixote, por exemplo, não ria e não fazia rir. Sancho compreendia de tal modo o seu amo que nem tentava fazer graça.
Há uma autenticidade na expressão dos sentimentos
e das emoções, seja pela ira, seja pelo riso, ou pelo choro, pela euforia, pela estupidez, pela loucura, ou pelo mutismo, que não se compadece com zombarias ou com por a ridículo alguém,
porquanto isso é de mau gosto, é feio, e tem de maldade.
Gente zangada, gente animada, gente embriagada, gente drogada, gente alienada, gente feliz, gente pobre, gente desprezada, gente triste, gente galvanizada,
gente ilustrada, gente castigada, gente oprimida, gente do campo e gente da cidade, gente de armas, gente de fora e gente da terra, gente é uma palavra portuguesa do mais versátil que há.
Gente zangada
pode fazer jus à muito conhecida expressão “quem não se sente não é filho de boa gente”.
De qualquer modo, gente que gosta de rir dos outros, em geral, não suporta,
ou tolera mal, que se riam à sua custa. Não é o caso dos grandes humoristas, como Woody Allen que, preferencialmente, e por curiosa necessidade, riem de si próprios.
Aposto que Deus não
ri, nem tem sentido de humor, mas também não se zanga.
Carlos Ricardo Soares
As palavras podem ser nossas aliadas, mas a nossa desconfiança deve ser total.
Não acredito que alguém tenha o poder de meter as palavras na ordem.
Não te deixes conduzir pelas palavras.
A ideia de inutilidade, aplicada à filosofia, ou à poesia, ou à matemática e até à própria física, só colhe num sentido muito restrito de utilidade.
A nossa cultura científica, humanística, filosófica, artística, linguística, foi construída através do pensamento, da atividade pensante, do discurso legitimador e fundante dos valores, das normas, dos critérios, dos modos de proceder e de trabalhar e de governar e de fazer justiça e de falar...
Carlos Ricardo Soares
Carlos Ricardo Soares
A filosofia, quer a entendamos como exercício de racionalidade discursiva sobre os discursos, sobre os repertórios históricos das ideias formuladas, ou sobre conjecturas, em meu entender, nunca perdeu o estatuto original de disciplina de conhecimento, e de conhecimento da natureza do próprio conhecimento, não obstante, em meu entender, a ciência da natureza tenha vindo a revelar algo que a filosofia acabou por reconhecer como limite da filosofia como era entendida até então: há conhecimentos que não são possíveis senão pela observação, que nenhuma inteligência e nenhuma filosofia pode sequer conjecturar.