Para ajudar a compreender a Teoria Geral das Formas, a análise do brocardo “Forma da Verdade e Verdade da Forma”, que criei nesse sentido, revela-se extremamente fecunda desde que seja desenvolvida e não apenas usada como efeito de linguagem.
As duas expressões apontam para direções filosóficas quase opostas.
A expressão "verdade da forma" sugere que a forma é o objeto da investigação e que procuramos determinar o que nela é verdadeiro, por exemplo, a verdade da forma do Estado, ou da forma da linguagem.
Aqui, a verdade aparece como predicado da forma e a pergunta é “o que é verdadeiramente esta forma?”, ou “qual é a sua determinação adequada?”. Estamos ainda relativamente próximos da tradição clássica da verdade como adequação ou desvelamento de algo.
Por sua vez, a expressão “forma da verdade”, é muito mais radical, porque já não pergunta “qual é a verdade da forma?”, mas “que forma torna possível aquilo que chamamos verdade?”
Aqui, a verdade deixa de ser o princípio último da investigação e torna-se ela própria objeto da investigação formal. Então a pergunta deixa de ser “o que é verdadeiro?”, para passar a ser “qual é a estrutura formal segundo a qual algo pode comparecer como verdadeiro?”.
Isto é profundamente compatível com o gesto fundamental que tem vindo a emergir na TGF.
Porque a TGF parece não começar pela verdade, pelo ser, pelo sujeito ou pelo objeto, mas pela pergunta “qual é a forma que permite o aparecimento desta determinação?”
Nesse sentido, "a forma da verdade" é mais característico da TGF do que "a verdade da forma".
Uma inversão semelhante à de Kant, mas mais radical
Kant pergunta “quais são as condições de possibilidade da experiência verdadeira?”, mas mantém a verdade ligada à estrutura transcendental do sujeito. Uma formulação mais próxima da Teoria Geral das Formas seria “qual é a forma que torna possível a própria diferença entre verdadeiro e falso?”.
Isto é mais radical porque a distinção verdadeiro/falso deixa de ser pressuposta e passa a ser explicada. A verdade deixa de ocupar o lugar de fundamento e torna-se uma forma derivada.
Se a filosofia procurou a verdade da forma, a TGF procura a forma da verdade.
Isto é um verdadeiro programa filosófico.
Carlos Ricardo Soares
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