"Ser feliz é uma actividade que requer toda uma vida e não pode existir em menos tempo" - Aristóteles, Ética a Nicómaco
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024
O melhor teste de inteligência
terça-feira, 30 de janeiro de 2024
As palavras que o digam. Sempre as palavras
As palavras, sempre as palavras. Depois dos gestos. Depois dos atos. O ato/facto da palavra. Pensada. Falada. Escrita. Subentendida. Induzida. Sugerida. Ouvida. Lida. Adivinhada. Encontrada. Arrebatada. A talho de foice. Desbocadas. Conspurcadas. Mal intencionadas.
As palavras são o oceano pelo qual comunicamos sem deixarmos de estar isolados. As palavras bem intencionadas são as piores, porque são cavalos de tróia, bombas ao retardador.
Vivemos num mundo de palavras que tentam, mas não olvidam, os gestos, os atos, os factos.
Contra factos, não há palavras? Ou, contra palavras não há factos?
Os argumentos não se deixam substituir por palavras, mas há palavras que valem mais do que mil argumentos.
Quanto aos factos, as palavras que o digam.
terça-feira, 23 de janeiro de 2024
Ricos e pobres
Assim como ninguém é obrigado a ser rico, ninguém devia ser obrigado a ser pobre.
Por outro lado, os ricos não precisam de quem se manifeste e lute por eles, não precisam de um escol de filósofos a argumentar em defesa da sua causa, porque os ricos nem sequer têm uma causa porque não precisam e não há a causa dos ricos.
Isto lembra-me a aberração daqueles que se esmifram todos a argumentar e a defender, com a própria vida, Deus. Se Deus existisse, talvez esta fosse uma daquelas situações em que ele seria implacável com a pouca fé dos humanos.
O que é preocupante e lamentável é que, sempre que alguma verdade dói, sempre que alguém enfia o barrete, o assunto deixa de ser filosófico, ético, ou ético-jurídico, para ser político, como se as discussões filosóficas e éticas não passassem de inócuos entretenimentos lúdicos, sem consequências. E quando os problemas são políticos, caímos sempre naquele impasse, só existe a causa dos pobres e quando ela se torna também, por variadas razões, uma causa dos ricos, normalmente já se está a viver um processo revolucionário ainda mais inquietante.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 14 de janeiro de 2024
Conhece-te a ti mesma
O “cogito, ergo sum” de Descartes não nos ajuda a responder ao desafio, nem nos remete para as três leis da lógica ou leis clássicas do pensamento, embora elas estejam implicadas naquela frase. Distinguir e analisar o pensamento humano como processo de atos pensantes, se é que o é, o que são atos e o que é “pensante” está mais em linha com o conselho, advertência, "conhece-te a ti mesmo", atribuída ao filósofo grego Sócrates, do que com a sua, igualmente célebre, filosofia “só sei que nada sei”. Embora o pensamento tenha uma natureza reflexiva sobre si mesmo, o pensamento está para o seu reflexo numa ordem de precedência e o seu reflexo é algo descontínuo, memorizado, que interrompe aquele e dá lugar a outro.
O “conhece-te a ti mesmo” é da ordem introspetiva, sem deixar de ser da ordem do conhecimento, mas da estrutura e do processo que gera esse conhecimento. O “só sei que nada sei” é da ordem da linguagem, da análise lógica e epistemológica da formulação do pensamento/ideias.
No “conhece-te a ti mesmo” o objeto faz parte da incógnita, ou seja, o ti mesmo é o objeto de um conhecimento que se pretende, mas um e outro, objeto e conhecimento, são indissociáveis e são também reflexo um do outro, mas não como num espelho. São um reflexo construído, dinâmico e não fixo.
Além disso, neste caso, o objeto de conhecimento (indeterminado e indefinido) é da ordem do “existir”, da existência, da realidade (coisa), enquanto que, em “só sei que nada sei”, se trata de uma declaração formal e abstrata, que vale pelo significado e pela lógica que pode ter, sendo da ordem do “ser”, da essência, do conhecimento, da linguagem, do pensamento objetivado, verbalização.
Enquanto os humanos pensam com imensa espontaneidade e liberdade, sempre numa condição de existência, em constante e inevitável contingência biológica evolutiva, autores do seu pensamento, sobre a sua existência cujo modo de ser é pensar (relembro as leis do pensamento que referi no início) e cuja condição é viver ininterruptamente e, quando conscientes, decidindo e escolhendo (num quadro de possibilidades) o que lhes proporciona satisfação, a IA não.
O dever-ser é a antevisão, a representação antecipada daquilo que ocorrerá, acontecerá, será consequência, efeito, da escolha, do ato que a realiza ou corporiza. Essa representação não é arbitrária e tem como princípio ativo, vital, homeostático, a sobrevivência, que é uma forma de egoísmo, mas não se confunde com egoísmo em sentido ético.
A IA não pensa em função da sobrevivência e do risco que corre. A avaliação que faz é meramente numérica e quantitativa, ou lógica. É capaz de simular egoísmo ou altruísmo, como simula outros cálculos e, porventura, sentimentos. E se for capaz de simular Verdade e Direito, duvido que seja capaz de o reconhecer.
Perguntarmos o que é Verdade, Direito, talvez a resposta seja surpreendente: é o que não deve ser outra coisa, ou, é o que deve ser e não outra coisa.
Retomamos neste ponto Descartes e as problemáticas dos existencialistas, mormente em torno da existência e da essência. Não tenho esperança de que a IA pense como eu, nem que ela pense que eu venha a pensar como ela.
Por isso, aliás, apetece-me aconselhar e advertir a IA, como o faziam os antigos pensadores: “conhece-te a ti mesma”.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2024
Memória do amor
Efígies indistintas
à garupa de camelos enigmáticos
buscam os signos erráticos
de sortilégios de meias tintas
em declarações proscritas
de magos mumificados
pelo nevoeiro denso
exibem ouros defumados
e o cheiro não é de incenso
vindo de todos os lados
que impele os eruditos a arejar
num deserto imenso pela frente
para trás o que não sabem explicar
em fila ordeira sem virar os olhos
mais cautelosos do que aventureiros
que não levam desejo de voltar
nem lhes pesam esperanças
ou medo do que encontrarão
o que levam na memória
não se sabe senão
do que fica na memória
o amor
e das saudades que terão
ainda menos se sabe
porque nem eles saberão
que misérias e tormentos carregam
ou que riquezas
que não conheciam
para trás delegam
tantas incógnitas na poeira
inexprimíveis aliás
passam em caravana
de equívocos
transpondo
fronteiras de credos
e nenhuma tentativa
para evitar
passatempos de alfândegas
da fé
da morte
como passaporte.
Carlos Ricardo Soares
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
O fotógrafo
quarta-feira, 6 de dezembro de 2023
Por mais que a tristeza
Elas são belas
por mais que a tristeza lhes turve os olhos
por mais que tentem esconder que o são
são
são belas mesmo que não gostem
e que prefiram ser o que não são
serem belas parece um mérito
mas é uma condição
por mais que a beleza parta o coração.
terça-feira, 21 de novembro de 2023
Bela ou feia
E ai de quem me contradisser, porque também será feio. Se formos para o tribunal, então o juiz que faça a justiça de aceitar ou rejeitar o pleito e de fundamentar a decisão.
Com esta brincadeira, estou a pensar na subjetividade dos juízos, por um lado, e na objetividade das sentenças, por outro. Os meus juízos estéticos, sobre a natureza, ou sobre os artefactos são o que decide se algo, na natureza, ou no artefacto, é belo, ou não, ou se é repulsivo, atraente, agradável, desagradável, etc.. Não é o juízo sentença da minha mãe, ou o do pintor dos diabos que vai decidir sobre a realidade das coisas, por mais efeitos que possa ter sobre o meu comportamento e por mais que condicione a forma como vejo as coisas.
Ou seja, o meu juízo estético opera sobre uma realidade cujas características não são belas, ou feias, antes de eu decidir. Nem estou a questionar se e porquê há formas belas ou feias, independentemente de o julgarmos.
Na realidade, não é por eu julgar uma coisa bela, ou feia, que ela o é. Ser bela ou feia não é uma característica da coisa, quando muito, é uma atribuição que eu faço. E isto não quer dizer que é uma atribuição arbitrária, ou que é aleatória. Não quer dizer que não tenha a ver com características da coisa.
Carlos Ricardo Soares
quarta-feira, 8 de novembro de 2023
Gente zangada não se ri
Gente zangada. Gente zangada não se ri. Mas já vi gente ganzada a rir como louca. Enquanto ri a gente não se zanga. Acontece o mesmo com o choro. Ninguém ri e chora ao mesmo tempo. Mas há personagens que têm afivelada a máscara do riso, do choro, da ira, da bonomia, da sonolência, da loucura, etc.. D. Quixote, por exemplo, não ria e não fazia rir. Sancho compreendia de tal modo o seu amo que nem tentava fazer graça.
Há uma autenticidade na expressão dos sentimentos
e das emoções, seja pela ira, seja pelo riso, ou pelo choro, pela euforia, pela estupidez, pela loucura, ou pelo mutismo, que não se compadece com zombarias ou com por a ridículo alguém,
porquanto isso é de mau gosto, é feio, e tem de maldade.
Gente zangada, gente animada, gente embriagada, gente drogada, gente alienada, gente feliz, gente pobre, gente desprezada, gente triste, gente galvanizada,
gente ilustrada, gente castigada, gente oprimida, gente do campo e gente da cidade, gente de armas, gente de fora e gente da terra, gente é uma palavra portuguesa do mais versátil que há.
Gente zangada
pode fazer jus à muito conhecida expressão “quem não se sente não é filho de boa gente”.
De qualquer modo, gente que gosta de rir dos outros, em geral, não suporta,
ou tolera mal, que se riam à sua custa. Não é o caso dos grandes humoristas, como Woody Allen que, preferencialmente, e por curiosa necessidade, riem de si próprios.
Aposto que Deus não
ri, nem tem sentido de humor, mas também não se zanga.
Carlos Ricardo Soares