segunda-feira, 24 de agosto de 2020

É só uma questão de tempo

Estou convencido de que é só uma questão de tempo e que deixará de fazer sentido dizer "eu sou português" ou "eu sou camaronês". 
Cheguei a acreditar piamente que era cidadão do mundo e que, em França, nos EUA, ou na China, não tinha que me preocupar se estava a "desrespeitar" alguém por manifestar a minha opinião. 
Estar num país estrangeiro não deve ser e, futuramente, não será, estar fora do seu país. Muito menos será como estar em casa da sogra e ter que "abaixar as orelhas". 
Um homem deve poder ser o que é, independentemente do sítio em que se encontre. 
A territorialidade não deve ser, e não será futuramente, critério ou condição para a liberdade de expressão. Aliás, nações colonialistas, ou colonizadoras, deviam saber isto melhor do que ninguém.
Quanto à polícia e às forças da ordem e da segurança, incluindo militares, ainda não se queixaram, nem se queixarão, porque isso não faz parte da definição de polícia...
Basta-lhes fazer cumprir e cumprir a lei. Para isso têm todos os meios. 
Aqueles que não compreendem isto e promovem manifestações "com pena" das polícias, parece que pensam que ser polícia é andar a levar porrada, sem poder defender-se.
Do mesmo modo, quando virmos um Estado rico e poderoso, que sempre fez "quase" tudo o que quis, que sempre teve "quase" tudo o que quis, ainda que nem sempre, ou raramente, dentro da legalidade e do direito, a queixar-se de que são os outros o problema ou a causa dos problemas, haja quem compreenda.
Um homem, porque fala em Paris não tem menos razão do que se falasse na lua, a menos que dissesse qualquer coisa como "estou na lua", estando em Paris, ou "estou em Paris", estando na lua.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Comunismo, fascismo, nazismo, democracia

O comunismo deu e dá argumentos aos fascistas.
O nazismo é uma forma de interpretação e de aplicação à letra do marxismo-leninismo, mas pelo lado do capitalismo, legitimados pela lógica da luta de classes.
Aliás, os partidos comunistas, mais pelos princípios e pela doutrina do que pela prática, não só inspiraram os movimentos fascistas e "legitimaram" o nazismo, como lhes deram razões para existirem.
Historicamente o fascismo é um reflexo/espelho/réplica das teorias marxistas-leninistas.
A política e o futebol e as religiões padecem do mesmo problema de os partidos, clubes e igrejas, não estarem interessados em justiça, ou direito, se isso não lhes der jeito e vantagens.
A humanidade está refém desta lógica do egoísmo e da esperteza, deste determinismo "invencível", desde que sinta alguma onda de ameaça. E há especialistas que, sem encontrarem obstáculos, se dedicam a gerar estas ondas.
A democracia, para funcionar, deveria impedir isso, que partidos anti-democráticos, que preconizam a violência e a desigualdade e o racismo e o chauvinismo e a xenofobia...pudessem candidatar-se a lugares no parlamento. E deviam responder por ataques ilícitos, não apenas à democracia, como à Declaração Universal dos Direitos do Homem e à Constituição da República Portuguesa.
E devia haver um controlo, explícito e expressamente assumido pelo Estado, das pessoas e dos grupos que ameaçam a democracia e os valores do Direito. Essas pessoas e esses grupos deviam ser identificados e, se necessário fosse, chamados a responder pelos seus actos, nomeadamente, apresentando provas de cidadania.E não estou a pensar apenas nos desgraçados dos "sem abrigo", estou a pensar em elites.
Pela via democrática, um dia poderemos ver fascistas, comunistas, cristãos, ateus, muçulmanos, etc., a imporem a sua ditadura. A democracia não deve ser a porta para qualquer tipo de ditadura.
A democracia não deve conter em si mesma a possibilidade da sua negação.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O Estado deveria ser laico

O Estado deveria ser laico, não apenas relativamente à religião e às igrejas, mas também relativamente ao capitalismo. Capitalismo e Estado não devem promiscuir-se.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Pensamento crítico

Pensar é difícil, dá muito trabalho e pode ser frustrante, sobretudo quando se pensa com a própria cabeça, com alguma independência e liberdade. 
A sociedade tem vindo a "dispensar" a necessidade e o esforço de as pessoas pensarem pela própria cabeça, como se isso fosse uma forma de facilitar a vida a toda a gente. 
Basta ser adepto de um clube, de uma seita, de um partido, ou um sindicato, de uma fé, ou corrente filosófica, para, do ponto de vista do pensamento, ter todas as dificuldades e dúvidas resolvidas. 
Dentro de cada uma dessas bandeiras funciona um sistema de argumentação que é adoptado acriticamente pelos seus adeptos e que parece satisfazer todas as suas necessidades de conhecimento. 
Quando o indivíduo está inserido, ou tem preferências, numa corrente, grupo, igreja, seita, clube, partido, mercado...não podemos esperar qualquer pensamento crítico do mesmo, porque ele já tomou a sua posição relativamente aos problemas. 
Ainda que seja capaz de questionar a posição dos outros, o mais provável é que não se coloque a si mesmo em questão.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Dentro das capelas de muitas disciplinas.

Os processos de aprendizagem não são menos complexos do que os processos de ensino e não existe grande correspondência entre uns e outros. Todas as disciplinas se perfilam na linha do pensamento crítico, do domínio da linguagem e de algum modo ou tipo de conhecimento funcional. Mesmo que os resultados não sejam imediatos, podem aparecer dezenas de anos mais tarde, vale sempre a pena apostar e investir na provisão de dados e de informações sobre a realidade, individual, social, física...
Promover nos estudantes hábitos de pensamento científico é fundamental, mas muitos têm dificuldade em integrar o método científico nos seus processos de abordagem e análise da realidade. As coisas não são simples quando tudo se passa num plano de linguagem, que é preciso dominar. As várias disciplinas, no modo como são enquadradas e posicionadas, induzem logo a considerar diferenças que perturbam no único e fundamental objectivo de todas elas, qual seja, o de proporcionarem o acesso mais adequado e fecundo possível ao conhecimento, seja de que matéria for.
A escola e as suas disciplinas não devem estar estruturadas por forma que sejam o processo pior (mais difícil, complexificador) possível de chegar ao conhecimento, seja de que matéria for.
Por exemplo, nós usamos os métodos de conhecimento, muito antes de nos dizerem que esses métodos são dedutivos, ou indutivos, científicos, empíricos, racionais, etc..
Por outro lado, nas ciências físicas, não raro, ficamos com a sensação de que nos querem dizer que foram os cientistas que criaram o sistema solar, a gravidade, ou a electricidade, etc..
Ainda há imenso pensamento encriptado, reverencial, sacerdotal e esotérico dentro das capelas de muitas disciplinas.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Racismo é racismo

Racismo é racismo e não é para tentar desculpar, porque isso não o torna menos mau.  Não adianta tentar consolar as vítimas, dizendo-lhes que não acontece só a elas, etc..., ou que a sociedade é e sempre foi racista. 
O pior que tem acontecido, ao longo dos tempos, é a adaptação e a resignação ao racismo. As sociedades e as suas culturas assentam em factos consumados de racismo, que se tornam situações inelutáveis de ordem social. 
E é sabido que a humanidade tem uma aptidão espantosa e assustadora para banalizar e até sacralizar os crimes mais hediondos. 
Olhando para o passado e o presente e fazendo algum tipo de introspecção e pensamento crítico, ao ajuizarmos, sem dó nem piedade, sobre as condutas humanas e as suas motivações, tantas vezes frívolas e vaidosas, é difícil não odiar o "humano", tão deprimente se mostra a história política e social, mas aqui está também uma armadilha e um perigo, porque o discurso e a cultura do "ódio ao humano" e do "ódio ao humano racista" são autodestrutivos e tendem a racionalizar o ódio pelo que não satisfaz os supostos modelos e padrões de algum elitismo fervoroso, para não dizer religioso, e levam à cegueira, quando não perversidade, do julgamento em tribunais com vistas para o abismo. 
No entanto, esse ódio não justifica nem pode justificar qualquer tipo de agressão ou extermínio, como já ocorreram e ocorrem, por ódio, indiferença, desumanidade ou alienação, desinteresse..., por exemplo, com a pandemia da fome. 
O maior desafio continua a ser o de saciar a fome de justiça. 
Que cada ser humano o seja entre humanos e respeitado como tal, quer se goste, quer não, e nunca permitir que alguém coloque outra pessoa numa situação de subjugação, ou de privação do que é seu por direito natural, ou positivo, nem que essa subjugação ou privação, eventualmente, tenha consagração legal, como já aconteceu e, provavelmente, ainda acontece. 
E que haja concertação e institucionalização de mecanismos político-jurídicos universais nesse sentido.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

O que alguma vez foi jamais deixará de ser?

A linguagem é um sistema poderosíssimo que permite comunicar e que não está, nem de perto, nem de longe, nas nossas mãos controlar. 
Se isto é bom, também pode ser mau, como tudo, aliás. 
Ela adquire "vida" própria e é uma realidade que nos escapa cada vez mais. 
Quanto mais tentamos fazer dela nossa aliada, mais ela nos trai, e vice-versa. 
Ela muda a realidade do que alguma vez fomos ou poderíamos ter sido, e torna-se a realidade que as coisas já alguma vez deixaram de ser para sempre.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

A função do livro é indomável e imprevisível


Para evitar desvantagens de estarmos dependentes e condicionados pelo mercado da atenção, é indispensável que se leia, sobretudo, o que não é o discurso da "verdade oficial". A função do livro é de tal modo indomável e imprevisível, que os autores da clandestinidade, os desmancha-discursos, os "malditos", os "proscritos", os "excomungados", todos quantos não alinham nem servem cartilhas, grémios, associações, partidos ou religiões, são a melhor garantia de podermos aprender alguma coisa importante sobre o que pensam outros, loucos ou não ou só um pouco, ou aqueles que são tomados como tais, algo que nos interesse ou sirva de aviso e de esclarecimento, ou lição, ou de visão, ou de, outra, chamada de atenção. Podem ser como as raras pessoas que se incomodam a dizer verdades que normalmente ninguém deve saber. Os livros podem ser a única forma de acesso a verdades que não têm o direito de existir, por qualquer razão, conhecida ou desconhecida, a informação muito relevante, que não poderemos encontrar noutro lugar, nem de outro modo. Os livros, que não chateiam ninguém, que estão quietinhos e não fazem barulho, são dos objectos que, ao longo da história, mais foram odiados, perseguidos, queimados e que, ainda assim, sobreviveram aos seus algozes e inimigos, muitas vezes, devido ao amor dos seus leitores.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Valor moral, sacrifício e felicidade

Seria interessante não dar como suposto o que é o bem e o que são boas acções. Assim, somos colocados abruptamente numa espécie de teoria do pecado ou do mérito, justamente o que precisamos de analisar. Em qualquer caso, nas questões morais, ou de ética (política, profissional, religiosa, jurídica...), estando em jogo um interesse egoístico e um sentido de dever, o foro da consciência, se não for o tribunal supremo, será o critério para ajuizar sobre o "valor moral", que será tanto maior quanto menos coincidente for o interesse egoístico com o dever de sentido contrário. Qualquer juízo moral ojectivo deparará com a impossibilidade de acesso à consciência do sujeito. Salvaguardando isto, o valor moral de uma acção tenderá a ser inversamente proporcional, ou mais, ao interesse egoístico do sujeito da acção, se este interesse não for coincidente com o interesse que "transcende" aquele. E se for? Ou seja, praticar acções que nos fazem felizes, independentemente de serem boas acções (segundo qualquer suposto critério de bondade), terá tanto menos valor moral quanto mais nos fizerem felizes? A minha (in)felicidade é a medida do valor moral daquilo que faço ou deixo de fazer? Claro que não. A questão nem é de felicidade, mas de sacrifício. Todo o comportamento só adquire valor moral a partir de certo momento que envolve consciência e "escolha" de algum tipo ou forma de sacrifício. A felicidade até pode ser fruto disso.