sábado, 1 de fevereiro de 2025

A arte de ter sempre razão, ou a essência da crueldade

Lembro-me, entre outras situações, de uma conversa ao intervalo, em que um colega professor, mais velho, em tom de desabafo, dizia que não era só a escola que estava cada vez menos divertida, o mundo também e que, quando não nos divertimos com o que fazemos, pouco ou nada há a fazer.

Alguém retorquiu que a escola não é, não tem de ser, nem deve ser divertida, porque o que é divertido não é bom e que, por ele, até decretava que se acabasse com o divertimento. Eu ri-me como se tivesse ouvido a anedota do pregador que era pago à razão da quantidade de vezes que fosse capaz de dizer do púlpito o nome do santo da festa sem se tornar enfadonho para os paroquianos, dóceis devotos, mas sempre ávidos daquele momento emocionante do sermão, que não era bom se os não comovesse até às lágrimas.

Foi mesmo divertido.

Hoje, reconheço que há certas formas de alguém ter razão pelo simples facto de as suas sentenças serem insindicáveis, como essa de “o mundo está cada vez menos divertido”. Uma tal consideração é do foro absoluto das razões de cada um, mesmo que não seja uma declaração sincera. É uma espécie de prerrogativa poética do indivíduo e não é influenciada pelo facto de acharmos que era melhor ou pior que não fosse proferida.

Se alguém diz que as coisas estão cada vez menos divertidas, não há como lhe retirar razão. Não encontraremos outra razão para o que afirma, senão a dele próprio o qual, provavelmente, nem é capaz de conhecer as causas ou de apresentar justificações, de que, aliás, está absolutamente desonerado. E se essa pessoa for à procura das causas do desenfado patente no seu interlóquio e tentar contrariá-las, por exemplo, escrevendo uma história de amor, logo encontrará razões adicionais e forças maiores para tropeçar reforçando-se na suprema instância do seu desalento, quiçá poético.

A arte de ter sempre razão é das mais difíceis de apreciar e de criticar por ser da essência da crueldade, mas duma crueldade da linguagem associada e potenciada pelo domínio de linguagens de crueldade.

Sócrates não teria ficado famoso se, em vez de afirmar o irredutível, e sábio na “arte de ser eu”, “só sei que nada sei”, tivesse afirmado, desavisada e corrosivamente, “só sei que nada sabes”, ou, mais corrosivamente ainda, “só sabes que nada sabes”, ou, provocadoramente, “nem sabes que nada sabes”.

                   Carlos Ricardo Soares

sábado, 25 de janeiro de 2025

Tendo a morte como tema

Depois de ler e reler um texto de Carlos Fiolhais, tendo a morte como tema, sempre elucidativo e inspirador, recuperei memórias de tertúlias coimbrãs, em 1980, pela noite dentro, numa residência universitária, entre nuvens de fumo de tabaco, com bastante tosse à mistura e muito ensonados, sem perder de vista as sebentas que, de tão preteridas e desprezadas, lá num canto, ameaçadoras como feras, não nos deixavam em paz.
Lembro, em particular, uma tertúlia sobre a morte, que começou espontaneamente, numa noite tenebrosa de chuvas diluvianas, com tanta trovoada que estivemos toda a noite sem luz, sem poder estudar nem dormir.
Alguns de nós saíram dos seus quartos e foram para a sala de estar. Alguém falou num saudoso colega que tinha falecido recentemente e isso despoletou a conversa sobre o tema da morte. Na escuridão da sala, ouvíamos as vozes e a respiração uns dos outros, mas não nos víamos.
Ao fim de uns minutos, já estávamos tão embrenhados no triste assunto da morte e dos mortos como um conciliábulo de fantasmas medievais.
Alguém começou a ressonar e ficamos a ouvir, em silêncio, para não acordar. Mas a tempestade batia à porta e à janela forçando a entrada. A morte andava por perto, como pudemos confirmar no dia seguinte.
Entretanto, deixamos de ouvir ressonar e, segundos depois, ouvimos o ruído da porta da sala a abrir. Visivelmente assustado com a possibilidade de ser a morte a invadir a tertúlia sem pedir licença, um colega falou “ó morte, queres matar-me outra vez? É melhor que agora te apresentes e te expliques, porque somos simples estudantes, mas não nos deixamos convencer facilmente”.

                  Carlos Ricardo Soares


sábado, 18 de janeiro de 2025

Seja lá o que isso for

V

Pensava que surgias

Do arquivo de anseios

Como a lua à chuva

De agosto

Seja lá o que isso for

Eu vi o teu rosto

                    Carlos Ricardo Soares 


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Seja lá o que isso for

IV

Pensava que eras mulher

A ver mundos desabar

Não vi que saíste ilesa

Seja lá o que isso for

É da tua natureza

                   Carlos Ricardo Soares 


segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Seja lá o que isso for

III

Pensava que eras palpável

Confiei-me

Não vi que o teu perfume

Seja lá o que isso for

É da natureza do lume

                 Carlos Ricardo Soares

domingo, 12 de janeiro de 2025

É da natureza do amor

II

Pensava que eras um corpo

Esculpido neste mundo

De flagelos e de angústias

Não vi que és uma pérola

Escondida

Seja lá o que isso for

É da natureza do amor

                               Carlos Ricardo Soares

 


sábado, 11 de janeiro de 2025

Seja lá o que isso for


I

Pensava que eras de carne e osso

E aproximei-me

Não vi que és da natureza das musas

Seja lá o que isso for

                     Carlos Ricardo Soares