sábado, 9 de setembro de 2017

Os independentes e os outros


Vou pronunciar-me como independente, que não concorre a nada, porque não gosta de concorrer e não quer, embora respeite e valorize quem gosta e quer e o faz de acordo com as regras e a boa fé.
De resto, também os partidos deviam ser independentes. Ser independente não é ser anti nada, é ser a favor daquilo que justifica (deve estar na base) da criação de qualquer associação política.
Unir esforços, intenções, meios, para atingir fins, só por si, não é coisa boa (pode ser péssima).
Fazê-lo como reação a agressões ou forças ameaçadoras, ou como resposta sistematizada a pretensões contrárias, pode ser legítimo, mas não quer dizer que seja bom, necessário ou tolerável.
O mais triste e preocupante sinal da democracia (e criticar a democracia não é ser contra a democracia, no sentido etimológico da palavra, muito pelo contrário, os democratas, hoje em dia, não se deixam entorpecer e revoltam-se contra a lorpice burocrática do número como fator que mais interessa aos partidos e têm de ser "antidemocráticos", por isso mesmo, e porque a democracia dos partidos (não independentes) é um simulacro cuja retórica oca já a destruiu.
Eu não nasci ontem.
Os partidos são organizações de interesses na senda da sua defesa e conquista e cultivam isso cada vez mais, como se essa fosse a sua razão de ser. Nem têm outro discurso. É medonho.
Mas não é suposto que o sejam, nem devem ser.
Eu sou partidário da independência e dos independentes e fico esperançoso que estes ganhem cada vez mais terreno e influência àqueles que promovem, defendem e logram o interesse corporativo e de grupos, à custa dos outros.
Transformar estas realidades gravíssimas num faz de conta de um jogo de sorte e azar em que pode ganhar o palhaço ou o velhaco, mas no fim ganha sempre o mesmo, é do mais cínico e desumano que tem o nosso folclore político.
É tudo uma questão de princípios, de valores de retidão e de verdadeiro sentido e prática social. Vender isto é trocar a ideia bonita e promissora de democracia por uma montanha de ouro escondido dos próprios guardiões. É vender o poder do povo. Como fatalmente (para o povo) tem sido prática.
Enquanto o povo continuar a "acreditar" no negócio a coisa funciona.
A independência, diferentemente dos interesses, é uma coisa que o nosso sistema político praticamente não pensa e não conhece, mas vamos ter de evoluir para lá, porque o que legitima um partido não são os interesses particulares e de grupos (em geral e abstrato, caso contrário, até um partido nazi estaria em pé de igualdade), mas outros, de caráter geral, humano, universal... E são muitos, são de todos, presentes e futuros, como, por exemplo, não permitir que alguém os sequestre, domine e destrua, porque sim, porque "eu quero".

sábado, 26 de agosto de 2017

O azul e o cor de rosa


É do mais aliciante que há, em matéria de estudos, perceber claramente quanto cada gesto ou característica nossa, tenhamos ou não consciência disso (creio que não temos consciência de 99,9% ou mais), é um efeito da natureza que, por acaso, e de modo irracional (porque a racionalidade não entra nestas coisas, embora apareça como um efeito delas) tem dominado e se foi acentuando, obviamente, com sucesso.

Mas mais do que isso, é aliciante estudar e perscrutar por que, a partir de algum momento, a força do ter que ser passou a ceder à força do dever ser, talvez ainda antes de ceder à do querer ser ou, sei lá, à do poder ser.
Somos levados a crer que o ter que ser (fatores físico-químicos) moldou e forjou a realidade sem intervenção de outros fatores (capazes de monitorizar e manipular aqueles). Estou a pensar no crescente papel da memória e da inteligência (emocional, lógica, lúdica, etc.), ou seja, do processo de consciência do poder de agir, não agir, quando agir, como agir, etc..
Grosso modo, e recorrendo a uma linguagem corrente, se considerarmos o destino como aquilo que nos afeta sem nada podermos fazer, porque não está nas nossas mãos, e é imenso, ainda fica uma parte considerável do que podemos fazer (não contra a natureza, porque não há nada contra a natureza) porque está nas nossas mãos.
O azul e o cor de rosa, para meninos e meninas, não foi a natureza, nem foi o ter que ser. As saias e as calças, também não. O futebol feminino e masculino pode facilmente tornar-se misto, sem prejuízo de continuar a ser de um e de outro.
O que me parece irracional é querer reforçar o que está instituído, porque sim, porque a evolução ditou diferenças que a cultura foi cultivando.
De resto, espanta-me que ainda não tenha aparecido investimento em equipas mistas, não porque acredite que as melhores atletas femininas ombreassem com os melhores masculinos, mas porque acredito, ainda assim, que as melhores femininas suplantariam um grande número dos masculinos.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Mitologias antigas


Ainda vivemos num mundo dominado por mitologias antigas e são elas que ditam as reformas "impossíveis", porque nada se reforma a si mesmo. 
Abstrações como "aluno" "professor" "perfectibilidade" "progresso" "crescimento económico"... impedem uma autêntica desmontagem e reconsideração dos problemas que precisamos de resolver e dos que queremos resolver.
Por ex., nem toda a gente está interessada na perfectibilidade da pessoa, o que que quer que isso signifique. Ou no progresso, o que quer que isso signifique. Ou no crescimento económico...
Mas toda a gente sabe que pensar custa muito, escrever não menos, ler talvez mais e que não basta pensar, escrever ou ler para resolver problemas triviais de sobrevivência.
A escola não pode ser um laboratório fora da sociedade e dos problemas reais.
Se os alunos, desde bebés, só conhecerem o espaço da escola, ou coisa parecida, não temos modo de ensinar-lhes quase nada do mundo, nem sobre os vegetais que comem, peixes ou carnes, e se saírem em passeio, não olham para lado nenhum senão para o telemóvel.
Mas se calhar é isto que interessa, preparar a humanidade do futuro, que viva em satélites, sem necessidade do contacto com a natureza (como em parte são já as grandes cidades).
Esta tendência parece estar a ser procurada e reforçada, deliberada ou por força das condições, por estruturas/dinâmicas/processos/mercados de massificação (aliás, muito realistas), que apostam no consumo mínimo, digno (?) e sustentável (?), retirando da mente aquele fantasma devastador de há muitos anos, do "american dream".
Neste aspeto, a tão criticada concentração de riqueza, ao afastar/excluir um grande número de consumidores, ironicamente, contribui para a preservação de recursos do planeta (um dos pontos críticos do nosso tempo).
Uma escola com a pretensão, por ex., de criar génios, seria uma aberração. Com a pretensão de fazer 80% dos alunos doutores em matemáticas, ou medicina, ou física, ou desporto...seria outra aberração. Todos temos a noção disto.
Mas ninguém tem a noção do que a escola pretende.
Em abstrato, sabemos que a escola pretende o ótimo, e o ótimo é tudo o que há de melhor.
E, para cada aluno, em concreto? O que o aluno pretende? Uma utopia?
Ou o ótimo é mesmo deixar que nos processos de ensino-aprendizagem professores e alunos tirem o melhor proveito do que há para aproveitar, de acordo com os seus objetivos, apostas, interesses, motivações, capacidades...?
A escola tem de estar preparada e atualizada para as solicitações do nosso tempo.
Não teria sentido que continuasse a ensinar e a preparar para funções que deixaram de existir (a não ser em cursos de conhecimento pelo conhecimento, ou de arte pela arte, que podem ter imenso interesse).

sábado, 15 de julho de 2017

A política, as teorias e as pessoas


Podemos teorizar ad infinitum sobre democracia, participação política dos cidadãos, vulcanos e marcianos, representatividade... Mas a política está para as teorias (sejamos benevolentes) como os partidos estão para as pessoas. As pessoas, transformadas em eleitores, são uma categoria da ordem política, que funciona como a moeda, são uma abstração. E todos sabemos disso, até o mais participativo (por omissão). Não é o representado que escolhe o estatuto de representado, etc. e tal. O representado é "brindado" com o dever, vejam só, de escolher quem o represente, quem represente a sua vontade. Ora, isto não é um brinde, nem é um direito, porque o chamado direito de voto é algo de muito perverso, como tantas outras perversidades com que vamos sendo aliciados nos negócios do mundo. 
Um político, que faz disso profissão e, como tal, é remunerado, começa logo por viciar todo o sistema de representatividade. É alguém que, não só, está à porta do poder como ainda faz parte de uma máquina cuja lógica de funcionamento prevalece e sobreleva, intencionalmente, sobre qualquer hipótese de negociação desse poder, prévia e detalhadamente, desenhado.
Mas o que me faz saltar do banco é essa ideia, tão religiosamente devota, da participação dos cidadãos na vida política. É como se estivesse a assistir a um jogo de futebol e o clube de que fosse sócio, além da minha quota, da minha presença e ovação, do preço do meu bilhete, do meu culto clubista, com orações e tudo, lágrimas e sacrifícios, reuniões e hinos, caravanas e apitos, cachecóis e camisolas, cartazes e tempos de antena, estivesse à espera que eu jogasse...de borla.
A falta de cultura política em Portugal é de tal ordem que, desde o 25 de abril, democracia passou a significar que, se o povo se governar, os seus representantes governam-se.
Os políticos, que disso fazem profissão, que fazem profissão da angariação de votos, sabem muito bem o que é a representatividade e o poder do voto, para eles e para os eleitores. Os eleitores também sabem, mas os políticos estão sempre a lembrar-lhes o dever de participação e, se possível, que governem por eles, de borla.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O problema dos discursos sobre os problemas


Já não bastam os problemas, ainda temos o problema dos discursos sobre os problemas. Em educação e no ensino, em geral, este problema é o maior de todos.É, digamos, o problema dos problemas. 
Acho muito bem que se identifiquem e se caracterizem os problemas. 
Acho muito bem que se analisem e se compreendam em todas as vertentes. 
E que se estudem processos e metodologias (que não sejam milagrosas) de otimizar ensinos e aprendizagens, em todos os sentidos institucionais dos termos. Este é um trabalho sem o qual só podemos contar com o saber de experiência feito, o qual, como é sabido, tem imensas limitações e defeitos. 
Na realidade, é muito mais fácil e apelativo traçar perfis para formandos do que, perante um grupo de formandos, assumir que é possível atingir/realizar um determinado perfil, mesmo que se soubesse que existem instrumentos e técnicas à disposição capazes de lá chegar.
Quando o perfil de cidadão não chega, recorre-se ao perfil de cidadão de (mais ou menos) sucesso e envereda-se por uma enumeração de competências, capacidades, que esvaziam a cidadania do seu próprio sentido.
Depois, espera-se da escola muito mais e muito menos do que aquilo que os professores e os alunos podem e sabem. 
E não basta que a escola sirva uma mesa perfeita de alimentos de que todos se podem servir de acordo com as suas preferências, vocações, interesses, facilidades, curiosidades, talentos... Também é necessário que professores e alunos queiram servir-se e gostem. E, não menos importante, tudo isso é um jogo, que deve obedecer a regras, mas nem todos ganham justamente.
Por outro lado, vivemos numa fase em que parece já não ser a escola que lidera o destino, com propostas de formação, educação, aprendizagens, de reconhecido mérito e viabilidade. Em vez disso, na sua palidez desmaiada, apela aos alunos para que sejam eles a viabilizar e a descobrir o que aprender/fazer para sobreviverem no conturbado mundo de muitos mercados, de que as escolas são um. 
Talvez a maioria dos professores e alunos se apercebam e sintam que a escola é mais do que instituição de ensino e de educação, até porque é lá que passam grande parte (cada vez mais) do tempo das suas vidas.
A escola tem vindo a deixar de ser instrumental relativamente aos mercados e à vida ao ponto de, cada vez mais, serem estes instrumentais relativamente à escola.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Atores principais num palco de todos


     Sobre as humanidades, direi simplesmente que o seu estudo é talvez das áreas de estudo mais complexas e exigentes e inabarcáveis. 
     O seu fascínio pode levar à ruína os espíritos mais apaixonados pelo saber, porque o saber, não ocupando lugar, também não enche barriga. E o saber das humanidades não é dos elegíveis para criação de riqueza económica e, como as virtudes em geral, não é disputado nos mercados, nem está nas ligas de campeões.
     Quanto ao declínio do ensino das humanidades, parece-me que estamos no domínio das perceções e, aqui, não há como garantir sequer um mínimo de plausibilidade. 
     O ensino já não é o que era. 
     Já nada é o que era. 
     Numa sociedade da informação (talvez mais da indústria do espetáculo) o ensino já não ocupa o centro e o palco foi-lhe "roubado". Vivemos num tempo em que o palco parece (é) tudo. Quem não está no palco não tem importância, como se (pense-se na política), só o que tem importância é que está no palco.
    Todavia, quando falamos de palco temos presente que não é o palco que faz o ator. O palco é qualquer lugar, pode ser na rua, em cima de uma árvore, fechado num quarto... desde que tenha visibilidade e quem observe. 
    O palco não faz o ator no mesmo sentido em que o ator faz o palco.
    E há no ensino especificidades substanciais e dinâmicas de ensino-aprendizagem, avaliação...que fazem da questão do palco um aspecto lateral e subsidiário.

    No ensino, ainda é preciso, muitas vezes, que os aprendizes assumam e queiram ser os atores principais num palco de todos.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Fogos-de-artifício

    
    Não faz sentido, é uma loucura, mas verifica-se que, quanto mais se investe em meios de combate aos incêndios, quanto mais tempo de antena, quanto mais palestras, quanto mais exéquias e solenes parlamentos, mais repetitivos e insuportáveis se tornam os fatalismos e os conformismos.
     Porque a minha memória de mais de meio século permite constatar que, todos os anos, chegam os incêndios/fogos florestais e chegam cada vez mais devastadores.
     Para um otimista, como é qualquer criança que acredita que os adultos podem resolver problemas, cada ano seria menos trágico que o anterior. Não foi isso que aconteceu. Mas a criança otimista continua a acreditar que, por alguma razão desconhecida, as coisas pioraram.
     A criança fica estarrecida mas encontra desculpas para os adultos que encolhem os ombros. No ano seguinte, repete-se todo o palavreado. Os incêndios brincam com toda a gente. Não faltam ideias para prevenir, mas o incêndio faz parte da tradição, tal como os foguetes, e pronto. A criança estarrecida deixa de acreditar naquela gente que vem lamentar os fogos e as mortes, etc..., e pensa que vive num mundo a arder, num inferno.
     O fogo não tem culpa, mas é possível imputar responsabilidades pelas consequências dos fogos florestais.

     Eu apostaria que, a manter-se a tendência, apesar da desgraça e do horror de Pedrógão Grande, ainda este ano as coisas não vão melhorar, porque, incompreensivelmente, para muita gente, os fogos florestais não passam de fogos-de-artifício.