sábado, 25 de novembro de 2017

Inteligência artificial


A inteligência artificial vai-se impondo por toda a parte e em todas as áreas, para realização de interesses e objetivos, muitos dos quais derivam dessa mesma IA. Não se fica perante a IA na mesma atitude com que se pensa numa árvore, ou num gato. Em ambas as situações pode haver o fascínio e o sentimento do espantoso maravilhoso. Até agora, que eu saiba, a IA ainda não tomou nenhuma iniciativa de nos morder, ou de nos roubar a carteira, mas com os gatos e os macacos, por exemplo, já estamos habituados a ter precauções, porque eles são capazes de muita iniciativa que pode prejudicar-nos. Até agora, que eu saiba, a IA mantém-se na obediência a critérios de decisão e de ação humanos, gerados por humanos e da responsabilidade destes. Todo o malefício ou benefício da IA decorre de uma cadeia de dependência direta, que nos permite pensar nas coisas em moldes muito semelhantes aos que já estamos habituados, ou seja, a IA é um instrumento nas mãos das pessoas.
Até aqui, as ameaças da IA são as ameaças próprias de tudo aquilo que tem potencial destruidor ou danoso e que as pessoas podem usar. Até o uso bem intencionado, muitas vezes, resulta em desastres, tanto maiores quanto maior for o potencial demolidor.
Em variados aspetos, lidar com inteligências dotadas de autonomia faz parte do nosso percurso natural e humano, desde sempre. Diria que os problemas resultam disso mesmo.
A nossa relação com a inteligência dos seres vivos, em geral, e dos humanos, em particular, pauta-se pela complexidade e pela dificuldade em sermos bem sucedidos no nosso egoísmo ou egocentrismo ou cegueira...
Mas a IA já se tornou, há muito, mais do que uma extensão da inteligência humana e as próprias realizações/desempenhos técnicos há muito que ultrapassam inúmeras capacidades humanas e de tantos seres vivos. No voo e na velocidade, para falar na capacidade de locomoção, já se faz há muito o que, por ex., as aves e os camelos não podem fazer. A IA já é, em inúmeros aspetos ou domínios, um recurso que nenhum humano poderia, por si mesmo, substituir. E, olhando, ainda que de uma perspetiva de controlo, para as capacidades dos computadores, já ninguém garante que possamos realmente controlar que eles fazem o que realmente era suposto que fizessem e apenas isso.
Por exemplo, eles podem fazer fraudes tão bem ou melhor do que uma rigorosa contabilidade do sistema bancário. E todo o sistema de controlo terá de ser necessariamente computorizado, por ser humanamente impossível fazê-lo.
O que me preocupa e assusta é esta capacidade para a fraude e para a indução dos humanos em erro.
No entanto, se as pessoas não podem controlar a IA, mas esta tiver capacidades para o fazer, o problema é menos assustador.
E talvez a IA inspire ainda mais otimismo se vier a ser Inteligência, num sentido Universal, que é o que nos tem faltado, essa Inteligência que não permitirá sequer o erro como caminho para a aprendizagem.
Com a IA talvez esqueçamos de dizer que errar é humano e que o próprio fenómeno da evolução deixe de ser natural.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O real não é o nosso elemento

O problema humano de sempre, que põe o cérebro em água e que, talvez por isso, interesse distrair, é o virtual versus real, que hoje designamos mais como realidade virtual versus realidade.
O nosso ambiente cerebral é virtual e o nosso contacto com a realidade é algo de "catastrófico", como se fossemos toupeiras que veem representações, mais ou menos arbitrárias, acreditando, mais ou menos, que não são representações e, sobretudo, que não são arbitrárias. 
Já nos despedimos desse desconhecido, o dito real, a quem apertamos a mão e, cada vez mais longe do ponto de partida, acenamos para um horizonte indistinto, de ilusões, esperanças, sabemos lá?! O real não é o nosso elemento. 
Paradoxalmente e curiosamente, a ciência vem desenvolvendo o que poderia ser a descoberta/recuperação do real ou o real como nossa condição desconhecida.
É pela mão dessa ciência que o real se torna, então, mais virtual do que alguma vez pareceu, ao ponto de a ciência se colocar a olhar para si mesma com estranheza e desconforto.
Pode-se obrigar alguém a ser ignorante, mas não se pode obrigar alguém a ser alfabetizado e menos ainda conhecedor das letras, ideias e ciências, técnicas, artes e ofícios, desportos e indústrias, culturas e geografias, leis e filosofia dessas áreas todas, literatura de ler e literatura de escrever, etc...E menos ainda, de tudo isso junto e de gestão dos sistemas financeiros internacionais em proveito próprio, com resultados à vista.
Pode-se obrigar a não ser assim ou assado, mas o contrário não.
Nem é razoável esperar que o saber ou o aprender sejam por si sós, intrinsecamente, aptos a merecer ou a despertar o desejo de dedicação e de empenho de alguém.
Diria que as sociedades, de que os sistemas de ensino são uma expressão não despicienda, estão organizadas segundo esquemas e dinâmicas motivacionais extremamente viciados, demolidores e insustentáveis a muito breve prazo. 
Numa palavra, o futuro nunca foge e parece estar cada vez mais próximo, mas nada já se anseia por nada ter um sinal tranquilizador.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Ou o homem ou o planeta


É do senso comum que, quando o financiamento existe, tudo é possível. As duas últimas grandes guerras foram assumidamente projetos dependentes de dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. Nessa altura, no mundo cristão, havia quem dissesse "acima de cristo, isto".
É natural que, onde está o ouro, o privilégio, o poder, a liberdade, o prazer, a vaidade, a (vã) glória de reinar, estejam os cardumes ofuscados e os tubarões não menos ofuscados e, um pouco mais longe, os que, simplesmente, detestam toda essa miséria.
Não censuro uns nem outros, mas observo como se torna difícil, triste, cruel e revoltante ter de morrer na esperança de sobreviver.
No fundo, já não acreditamos que o financiamento seja instrumental da construção de um mundo melhor. Muita gente pensa que não há melhor mundo do que o que temos vindo a destruir. E não aceitamos a dificuldade, a tristeza, a revolta e a morte como um preço que nem sequer podemos negociar. É tudo, mais ou menos, da ordem do facto consumado. Fazer primeiro e pensar depois. Falar e, na melhor das hipóteses, pensar depois. Construir à vontade, porque demolir é facílimo. Os seres vivos não param quietos, nem enquanto dormem.
É mais fácil fazer do que pensar e do que falar das coisas e do que escrever sobre as coisas (exceto quando se tem um manual, ou outro reportório, para reproduzir).
É fundamental que se incentive e financie o pensamento e o discurso sobre o ser e o fazer. Não a reprodução do discurso, que é uma praga fatal para a inventividade e a crítica e a ciência.
Vivemos um tempo de reprodução mecânica, que é uma resposta a algum tipo de procura, mas a nossa atenção não pode deixar de focar-se no que isso representa de estéril e de perigoso em termos de sustentabilidade.
Neste ponto, as humanidades vêm abrindo mão de um certo antropocentrismo, que pode ser muito salutar.

Espero que a questão "ou o homem ou o planeta" nunca venha a colocar-se, porque não faria sentido nenhum.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O que está errado?


Se não quisermos trabalhar no estabelecimento do que está errado no rumo que a humanidade tem tomado, que pode ser um trabalho enfadonho e chato e impopular (e inútil), podemos sempre pensar que nada está errado e continuar.
Afinal, do ponto de vista da natureza das coisas, certo e errado não existe.
É assim que tem funcionado o nosso mundo, sem que as religiões, a ética ou as leis desequilibrassem a balança para um dos lados.
O comportamento dos humanos, enquanto indivíduos, mas sobretudo enquanto grupos e organizações, tem sido de uma irresponsabilidade brutal e demolidora, isto na perspetiva de que a irresponsabilidade de uns é apresentada e aproveitada para justificar uma irresponsabilidade ainda maior de outros e que, todos, só fizeram o que tinham a fazer.
Não sei se a cultura nos salvará de alguma coisa, mas sei que ela é um motor poderosíssimo que se pensa a si mesmo como tal, mas não ao ponto de saber o que quer, de o querer saber, de o fazer crer e de o fazer.

Só por isso, é assustador pensar que, fora da cultura, não existe esperança, não temos nada.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Utilidade dos saberes inúteis



Quanto à utilidade dos saberes inúteis, bem, é preciso recuar a um ponto em que os "vícios" da cultura ainda estavam em fase de entranhamento. 
Nunca me preocupei com a utilidade, até ao momento em que entrei para a escola e queria que a professora, a madrinha, o meu pai, a minha mãe, o senhor padre, etc..., gostassem de mim.
Nesses tempos, que já lá vão, tudo, para mim, era útil ou inútil, consoante o jeito que desse, naquela espécie de jogo de quimeras e de vaidades (verdades) infantis, não obstante, extremamente relevantes.
Era o jogo da cultura (da vida), mas depressa me apercebi de que era um jogo viciado. O incitamento para aprender (cultura), ou fazer (produzir) cultura era desproporcionado aos desejos e às necessidades. 
A cultura como meio de atingir objetivos, aos poucos, mostrava dois gumes, e o valor da cultura, tinha uma espécie de preço, pessoal e social, como outra coisa qualquer.
Também tive a minha fase "humilde" de servir a cultura como um pedreiro constrói uma fortaleza, ou um engenheiro fabrica uma bomba, ou um médico trata um doente, ou um poeta morre de tristeza por tudo isso.
Mas a cultura é um produto/efeito do homem, produto esse que, por sua vez, produz/induz/condiciona o homem. 
Então, o problema de existir uma cultura boa e de existir uma cultura má torna-se cultural por excelência.
Afinal, é a cultura científica, tecnológica, das construções, das engenharias e das urbanizações, dos transportes e das energias, dos químicos e das fusões nucleares, das máquinas de guerra e das religiões, das organizações financeiras e industriais, do espetáculo e do desporto, da medicina e da saúde, tudo da máxima utilidade, que está a dar cabo de nós, perdão, do nosso planeta.
Que saudades do tempo em que os portugueses davam a volta ao mundo despoluído, levados pelo vento, talvez acreditando na utilidade do estrume!
Em duzentos anos a cultura mudou tudo. Acreditemos que, nos próximos, também.


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Qual é a arbitrariedade dos factos?


O que não é arbitrário e sem justificação é, por exemplo, os limites do conhecimento. Ou, ainda, o facto (qual é a arbitrariedade dos factos?) do sofrimento, da dor, da felicidade, da crença de que o sofrimento não é, não pode ser, em vão, tal como não é, nem pode ser, em vão, que existe o universo, porque nada é em vão e, mais importante, ninguém acredita no vão. 
Podemos sempre decidir enterrar crenças e descrenças, como quem enterra mortos ou vivos, que a nossa decisão não altera nada sobre a verdade, não temos qualquer poder de interferência sobre as leis que regem o universo e uma dessas leis, suponho, é que as crenças e as descrenças não são parte delas, mas regem-se por elas. Esta ordem não é normativa. Dever ou não dever haver crenças é uma falsa questão. 
Justificar uma crença, ou tentar justificar uma crença, é o que tem feito avançar o conhecimento e é, justamente, acerca do que não se sabe. Para mim, o mais importante continua a ser, depois de tantos anos a calcorrear este esplendoroso planeta (escandalosamente ardente, ou ardido), que é um incrível cemitério, carregado de vida e de sofrimento, não aquilo que sei, mas o que não sei e o que não se sabe. 
De cada vez que alguém me apresenta um deus, as coisas mudam, e mudam de cada vez que um deus morre. 
O que me interessam, verdadeiramente, não são os significados matemáticos das coisas, por mais instrumental que seja a acústica, enquanto ramo da física. 
Basta-me a música, quando não se ouve mais nada.


domingo, 15 de outubro de 2017

O Deus das religiões e os outros


Quando se fala de Deus, seja o Deus das religiões (que é de extrema complexidade e riqueza), seja o Deus dos filósofos (que é uma espécie de incógnita de uma equação cuja consistência tem resistido a todas as tentativas de rejeição), seja o Deus (que não é Deus, mas que são os pressupostos de inteligibilidade) de quem acredita que tudo o que conhecemos procede e funciona de modos cuja explicação e compreensão vamos descobrindo, está em questão qualquer coisa que transcende os limites do conhecimento, mas não só, porque não se trata apenas da explicação das coisas, do mundo e de nós, mas essencialmente do encontro com o criador, o obreiro, a inteligência, o projeto, o quê, quem, quando, como, porquê, para quê... algo de que não prescindimos e até necessitamos para a nossa identidade, para a explicação de nós, para nos identificarmos a nós mesmos, enquanto pessoas, enquanto humanidade, que se mira a um espelho que devolve mais interrogações do que respostas e tudo isto faz sentido, sempre fez, tudo isto é racional e incontornável.
O Deus das religiões, como não podia deixar de ser, é o mais problemático de todos, porque faz parte e influencia e determina, como nenhum outro, a própria organização político-social e a cultura dos povos que o adotam.
É uma espécie de referencial e matriz valorativa de condutas e comportamentos que foi ganhando caráter de justificação e fundamento para a própria estrutura normativa das sociedades, e foi sendo plasmado em normas que, em algumas sociedades, até tiveram ou ainda têm, força jurídica.
Este Deus é, sem dúvida, muito perigoso e foi, durante muitos séculos, devastador e incontrolável. É um Deus que se coloca, ou é colocado, ao serviço de grupos, de exércitos, de ideologias, de poderes, de desumanidades...É demasiado humano.
O Deus dos outros não é menos Deus, nem menos humano e não me parece tão perigoso.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A objetividade é uma terra de ninguém


Há áreas que, na verdade, não queremos tratar com objetividade, porque a objetividade é uma terra de ninguém. O nosso amor (às causas) leva a primazia sobre tudo o mais. E a própria ciência é perigosíssima se não for por amor à verdade.
Há os que defendem aquilo em que não acreditam, porque a função deles é defender tudo o que lhes interessar (muitos políticos e advogados...E também pseudo-cientistas e pseudo-filósofos e pseudo-sacerdotes e comerciantes da banha da cobra e militares, etc...,) e há os que defendem ilusões, convencidos de que estão a defender realidades e os que não defendem nada...
Defender valores supõe uma predisposição criativa e otimista e interpelativa, não ostensiva, nem hostil, para a construção, para a comunicação e a partilha proveitosa. Isto não costuma acontecer nos negócios e no mercado dos egoísmos, nessa esgrima cínica e sádica cujo objetivo é apenas punitivo (das fraquezas, da estupidez, da inépcia, da arrogância, enfim, dos defeitos e dos défices).
A cultura da competição, qual Esparta, encontra na adrenalina e na droga o clímax do nada e do absurdo. A cultura da solidariedade e da alegria das pequenas etapas vencidas, na aprendizagem, na doença, nos trabalhos, nos dias vividos a observar as abelhas e as estrelas, está ameaçada de morte.
Do que eu tenho a certeza é que a maioria das pessoas aspira a que as deixem viver, em paz, nem querem que as ajudem, só querem que não as estorvem, que não as persigam, que não as explorem, que não se atravessem no seu caminho.
A escola é uma instituição mobilizadora, tal como uma igreja, ou um Estado, que tem de saber responder às questões do sentido, do interesse, do valor, da verdade, do presente e do futuro, mais do que do passado, sob pena de ser um instrumento de tortura.

sábado, 9 de setembro de 2017

Os independentes e os outros


Vou pronunciar-me como independente, que não concorre a nada, porque não gosta de concorrer e não quer, embora respeite e valorize quem gosta e quer e o faz de acordo com as regras e a boa fé.
De resto, também os partidos deviam ser independentes. Ser independente não é ser anti nada, é ser a favor daquilo que justifica (deve estar na base) da criação de qualquer associação política.
Unir esforços, intenções, meios, para atingir fins, só por si, não é coisa boa (pode ser péssima).
Fazê-lo como reação a agressões ou forças ameaçadoras, ou como resposta sistematizada a pretensões contrárias, pode ser legítimo, mas não quer dizer que seja bom, necessário ou tolerável.
O mais triste e preocupante sinal da democracia (e criticar a democracia não é ser contra a democracia, no sentido etimológico da palavra, muito pelo contrário, os democratas, hoje em dia, não se deixam entorpecer e revoltam-se contra a lorpice burocrática do número como fator que mais interessa aos partidos e têm de ser "antidemocráticos", por isso mesmo, e porque a democracia dos partidos (não independentes) é um simulacro cuja retórica oca já a destruiu.
Eu não nasci ontem.
Os partidos são organizações de interesses na senda da sua defesa e conquista e cultivam isso cada vez mais, como se essa fosse a sua razão de ser. Nem têm outro discurso. É medonho.
Mas não é suposto que o sejam, nem devem ser.
Eu sou partidário da independência e dos independentes e fico esperançoso que estes ganhem cada vez mais terreno e influência àqueles que promovem, defendem e logram o interesse corporativo e de grupos, à custa dos outros.
Transformar estas realidades gravíssimas num faz de conta de um jogo de sorte e azar em que pode ganhar o palhaço ou o velhaco, mas no fim ganha sempre o mesmo, é do mais cínico e desumano que tem o nosso folclore político.
É tudo uma questão de princípios, de valores de retidão e de verdadeiro sentido e prática social. Vender isto é trocar a ideia bonita e promissora de democracia por uma montanha de ouro escondido dos próprios guardiões. É vender o poder do povo. Como fatalmente (para o povo) tem sido prática.
Enquanto o povo continuar a "acreditar" no negócio a coisa funciona.
A independência, diferentemente dos interesses, é uma coisa que o nosso sistema político praticamente não pensa e não conhece, mas vamos ter de evoluir para lá, porque o que legitima um partido não são os interesses particulares e de grupos (em geral e abstrato, caso contrário, até um partido nazi estaria em pé de igualdade), mas outros, de caráter geral, humano, universal... E são muitos, são de todos, presentes e futuros, como, por exemplo, não permitir que alguém os sequestre, domine e destrua, porque sim, porque "eu quero".

sábado, 26 de agosto de 2017

O azul e o cor de rosa


É do mais aliciante que há, em matéria de estudos, perceber claramente quanto cada gesto ou característica nossa, tenhamos ou não consciência disso (creio que não temos consciência de 99,9% ou mais), é um efeito da natureza que, por acaso, e de modo irracional (porque a racionalidade não entra nestas coisas, embora apareça como um efeito delas) tem dominado e se foi acentuando, obviamente, com sucesso.

Mas mais do que isso, é aliciante estudar e perscrutar por que, a partir de algum momento, a força do ter que ser passou a ceder à força do dever ser, talvez ainda antes de ceder à do querer ser ou, sei lá, à do poder ser.
Somos levados a crer que o ter que ser (fatores físico-químicos) moldou e forjou a realidade sem intervenção de outros fatores (capazes de monitorizar e manipular aqueles). Estou a pensar no crescente papel da memória e da inteligência (emocional, lógica, lúdica, etc.), ou seja, do processo de consciência do poder de agir, não agir, quando agir, como agir, etc..
Grosso modo, e recorrendo a uma linguagem corrente, se considerarmos o destino como aquilo que nos afeta sem nada podermos fazer, porque não está nas nossas mãos, e é imenso, ainda fica uma parte considerável do que podemos fazer (não contra a natureza, porque não há nada contra a natureza) porque está nas nossas mãos.
O azul e o cor de rosa, para meninos e meninas, não foi a natureza, nem foi o ter que ser. As saias e as calças, também não. O futebol feminino e masculino pode facilmente tornar-se misto, sem prejuízo de continuar a ser de um e de outro.
O que me parece irracional é querer reforçar o que está instituído, porque sim, porque a evolução ditou diferenças que a cultura foi cultivando.
De resto, espanta-me que ainda não tenha aparecido investimento em equipas mistas, não porque acredite que as melhores atletas femininas ombreassem com os melhores masculinos, mas porque acredito, ainda assim, que as melhores femininas suplantariam um grande número dos masculinos.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Mitologias antigas


Ainda vivemos num mundo dominado por mitologias antigas e são elas que ditam as reformas "impossíveis", porque nada se reforma a si mesmo. 
Abstrações como "aluno" "professor" "perfectibilidade" "progresso" "crescimento económico"... impedem uma autêntica desmontagem e reconsideração dos problemas que precisamos de resolver e dos que queremos resolver.
Por ex., nem toda a gente está interessada na perfectibilidade da pessoa, o que que quer que isso signifique. Ou no progresso, o que quer que isso signifique. Ou no crescimento económico...
Mas toda a gente sabe que pensar custa muito, escrever não menos, ler talvez mais e que não basta pensar, escrever ou ler para resolver problemas triviais de sobrevivência.
A escola não pode ser um laboratório fora da sociedade e dos problemas reais.
Se os alunos, desde bebés, só conhecerem o espaço da escola, ou coisa parecida, não temos modo de ensinar-lhes quase nada do mundo, nem sobre os vegetais que comem, peixes ou carnes, e se saírem em passeio, não olham para lado nenhum senão para o telemóvel.
Mas se calhar é isto que interessa, preparar a humanidade do futuro, que viva em satélites, sem necessidade do contacto com a natureza (como em parte são já as grandes cidades).
Esta tendência parece estar a ser procurada e reforçada, deliberada ou por força das condições, por estruturas/dinâmicas/processos/mercados de massificação (aliás, muito realistas), que apostam no consumo mínimo, digno (?) e sustentável (?), retirando da mente aquele fantasma devastador de há muitos anos, do "american dream".
Neste aspeto, a tão criticada concentração de riqueza, ao afastar/excluir um grande número de consumidores, ironicamente, contribui para a preservação de recursos do planeta (um dos pontos críticos do nosso tempo).
Uma escola com a pretensão, por ex., de criar génios, seria uma aberração. Com a pretensão de fazer 80% dos alunos doutores em matemáticas, ou medicina, ou física, ou desporto...seria outra aberração. Todos temos a noção disto.
Mas ninguém tem a noção do que a escola pretende.
Em abstrato, sabemos que a escola pretende o ótimo, e o ótimo é tudo o que há de melhor.
E, para cada aluno, em concreto? O que o aluno pretende? Uma utopia?
Ou o ótimo é mesmo deixar que nos processos de ensino-aprendizagem professores e alunos tirem o melhor proveito do que há para aproveitar, de acordo com os seus objetivos, apostas, interesses, motivações, capacidades...?
A escola tem de estar preparada e atualizada para as solicitações do nosso tempo.
Não teria sentido que continuasse a ensinar e a preparar para funções que deixaram de existir (a não ser em cursos de conhecimento pelo conhecimento, ou de arte pela arte, que podem ter imenso interesse).

sábado, 15 de julho de 2017

A política, as teorias e as pessoas


Podemos teorizar ad infinitum sobre democracia, participação política dos cidadãos, vulcanos e marcianos, representatividade... Mas a política está para as teorias (sejamos benevolentes) como os partidos estão para as pessoas. As pessoas, transformadas em eleitores, são uma categoria da ordem política, que funciona como a moeda, são uma abstração. E todos sabemos disso, até o mais participativo (por omissão). Não é o representado que escolhe o estatuto de representado, etc. e tal. O representado é "brindado" com o dever, vejam só, de escolher quem o represente, quem represente a sua vontade. Ora, isto não é um brinde, nem é um direito, porque o chamado direito de voto é algo de muito perverso, como tantas outras perversidades com que vamos sendo aliciados nos negócios do mundo. 
A representatividade nem sequer é uma opção, é o que há. E nem sequer se apresenta como um típico contrato de adesão, que o cidadão subscreve ou não, porque ao cidadão não é dada a possibilidade de não contratar o sistema. 
Um cidadão que não tenha aceite, sequer tacitamente, ou que, expressamente, repudie os poderes instituídos, democráticos ou não, não deixa de estar sujeito aos mesmos, nas mesmas condições em que o estão aqueles que os aceitam.
Assim, até o significado e os efeitos da abstenção são estabelecidos ou convencionados pelo sistema, ou seja, não significam o que realmente são (não subscrição da representatividade de nenhum dos candidatos), mas o que o sistema assimila no seu interesse, ou seja, aceitação tácita dessa representatividade.
Um político, que faz disso profissão e, como tal, é remunerado, começa logo por viciar todo o sistema de representatividade. É alguém que, não só, está à porta do poder como ainda faz parte de uma máquina cuja lógica de funcionamento prevalece e sobreleva, intencionalmente, sobre qualquer hipótese de negociação desse poder, prévia e detalhadamente, desenhado.
Mas o que me faz saltar do banco é essa ideia, tão religiosamente devota, da participação dos cidadãos na vida política. É como se estivesse a assistir a um jogo de futebol e o clube de que fosse sócio, além da minha quota, da minha presença e ovação, do preço do meu bilhete, do meu culto clubista, com orações e tudo, lágrimas e sacrifícios, reuniões e hinos, caravanas e apitos, cachecóis e camisolas, cartazes e tempos de antena, estivesse à espera que eu jogasse...de borla.
A falta de cultura política em Portugal é de tal ordem que, desde o 25 de abril, democracia passou a significar que, se o povo se governar, os seus representantes governam-se.
Os políticos, que disso fazem profissão, que fazem profissão da angariação de votos, sabem muito bem o que é a representatividade e o poder do voto, para eles e para os eleitores. Os eleitores também sabem, mas os políticos estão sempre a lembrar-lhes o dever de participação e, se possível, que governem por eles, de borla.