quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Valores, princípios e condutas


Os valores e os princípios,nomeadamente de direito, continuam e continuarão a ser o fundamento e a fonte de critérios normativos, não apenas para o que é permitido, ou proibido, mas também para avaliar e julgar os actos e, não menos importante, para escolher e determinar as sanções respectivas e, por outro lado, para avaliar e julgar acerca da justiça, quer do julgamento, quer das sanções.
Uma vez formulados, conhecidos, aceites, estabelecidos, dificilmente ou nunca serão postergados sob pena de se estar a infringi-los. Este poder, que não devemos confundir com o poder formal que a autoridade confere à lei, é o verdadeiro dever/poder ético-jurídico que serve de critério de justiça da própria lei.
Aliás, se julgarmos toda e qualquer ação, ou sanção, segundo a ideia de direito, segundo a qual toda e qualquer ação, ou sanção, deve respeitar e obedecer a algo, este dever pressupõe que esse algo seja a melhor das possibilidades.
O problema não surgiria se, por hipótese que não se verifica no reino dos humanos, as acções de uns não entrassem em conflito com as de outros. Infelizmente, a existência de normas que consagram os valores e os princípios de direito servem para indicar o que é direito, o que se deve ou não fazer, para advertir e prevenir para as sanções, mas não são como as vacinas que imunizam os organismos, neste caso, para fazerem o que devem, ou, pelo menos, para não fazerem nada que não devam.
Ainda não foi descoberta uma metodologia que preveja, garantidamente, quem e quando deve ser impedido de praticar actos proibidos.
Quanto aos métodos para fazer com que os indivíduos e os grupos e os exércitos façam o que devem e se abstenham de fazer o que não devem, eles existem mas têm uma eficácia que deixa muito a desejar.
Não quero deixar de concluir que, também neste cômputo, a medida da nossa frustração e da nossa incapacidade para alterar a realidade é dada pelos valores e princípios de direito que não conseguimos fazer valer como desejamos.

                Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Aproximações à verdade - XXX


Hilário: a poesia é o que te falta

Quando pensas que tens tudo

Amiga: e é o que te resta

Quando sentes

Que tudo o que tens

Não importa

Hilário: essa oxidação

Das dores e das agruras

E dos sangramentos

Amiga: que fermentam

Em vinhos inebriantes

Ou em divino vinagre

Hilário: que nem aos deuses

Nem ao diabo

Dispensas

Amiga: por mais que ergam as taças

Suspensas como uma maldição

Hilário: dos mortais vingados

Como cangaços no alambique

Amiga: libertam álcoois etéreos

Com que se enaltecem

Mais que perfeitos.

              Carlos Ricardo Soares 

sábado, 2 de novembro de 2024

Lina 6


Procurava impressões digitais

Na capa das revistas

Espalhadas pelo chão

Qualquer indício

De alguém furtivo

Como um sonho

Um espectro

Ou pégada ninfomaníaca

Naquele refúgio secreto

Sentia-a tão perto

Que quase tocava nela

Mas ela tocava em mim.

                       Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Lina 5


Nunca tinha visto coisa tão Lina

Nem lugar tão bom

Ali na estufa

Todas as coisas eram eróticas

Não sei se embriagado

Pela adrenalina

Que não sentia

Se pela fantasia

Dos teus seios palpitantes

Para onde quer que olhasse

Desejava avidamente

Podê-la encontrar

                                 Carlos Ricardo Soares


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Lina 4


Seguia-te sem pestanejar

Fascinado pela desenvoltura

Com que alçavas o saiote

Encantado pela censura

Com que punhas a mão

No decote

À portinhola da estufa

Dizias em surdina

Quase a pedir

Devagarinho que a Lina

Não nos pode descobrir

                         Carlos Ricardo Soares 


terça-feira, 29 de outubro de 2024

Lina 3


Sinto-a tão perto

Ouço-a a arfar

Vamos à socapa

Se ela nos vir

Nada nos pode salvar

        Carlos Ricardo Soares


Lina 2


Coisas de gaja libertina

Tarada por homem

Prometo contar

Se não tiveres vergonha

De deboches

Que fazem corar

Só de ouvir falar

Estou com medo

                    Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Lina 1

    

Está muito frio

Dizias-me ao ouvido

Calorosamente

Ali é a estufa

Só ela

Pode entrar ali

A Lina

A estouvada

Leviana de mil enigmas

                   Carlos Ricardo Soares


terça-feira, 22 de outubro de 2024

Penso que existo mas seria incapaz de prová-lo


Admito que, em grande parte, as questões do facto e da prova do mesmo não são redutíveis à questão da verdade. Esta é mais do que o facto e do que a prova. 
Não me custa admitir que ocorram mais factos do que aqueles que somos capazes de verificar e de provar. 
Eu penso que existo e, no entanto, não seria capaz de prová-lo, filosoficamente falando. 
Até para provar que nasci, frequentemente as autoridades me exigem uma certidão. Diante de mim, eles não se questionam sobre o facto da minha existência e do meu nascimento. Não lhes passa pela cabeça perguntar «prove-me que nasceu». E não importa se a certidão é um documento falso, o que interessa é que cumpre a sua função de representar a realidade de um indivíduo ter nascido. 
O mérito e a importância prática e teórica da filosofia têm a ver com o discurso sobre o ser (ou não ser).
Historicamente, os filósofos deram-se conta de que a linguagem, os sistemas de codificação e descodificação, tal como acontece atualmente com os sinais de rádio e de televisão, e dos sistemas de codificação informáticos, são por si mesmos uma realidade acerca da realidade que levanta problemas, não apenas práticos, mas também teóricos. 
A necessidade de justificar o que afirmamos sobre a realidade pode ser vista como a fonte da filosofia e do conhecimento, mormente científico.
As religiões tentaram resolver, ou contornar, ou responder ao problema do ser com «não sabemos o que é o ser mas sabemos aquilo que ele deve ser».
Os filósofos depararam com este problema maior e questionaram «o ser deve ser o que é ou o que sabemos que deve ser?». 
Mas, num certo sentido, é logicamente irrecusável que o conhecimento do ser deve ser como deve ser. Isto é o reconhecimento de que o conhecimento como ato humano que é não está fora da alçada da necessidade de escolha, neste caso, da escolha certa (verdade).

Carlos Ricardo Soares