quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A Verdade


A verdade que podemos encontrar numa enciclopédia sobre a Verdade não está na enciclopédia, nem nas bibliotecas e não é a Verdade. Esta é a verdade. Não depende de nós. Ou depende? E é banal. É? E depois? Continuamos a procurar a verdade, mesmo falando verdade e não a encontramos? E se a verdade for desagradável? Dolorosa? Insuportável? Queremos sempre a verdade? E se a verdade é contra nós? Que verdade, ou verdades, nos interessam?
Detestamos a mentira, mas há as meias verdades e a verdade das partes e a verdade do todo, mas a verdade não está nas partes e não está no todo.
A verdade, em última análise, é absoluta: ou é ou não é; se é, é para todos e para todas as inteligências. É ou devia ser? Devia? Porquê?
Um juiz disse-me que só o que está no processo é que está no mundo, a verdade dele é aquela.
Um tipo que eu tenho por cientista diz-me que só o que é verificável, mensurável, empiricamente, merece crédito. Esta é a sua verdade.
Um poeta proclamou que «quanto mais poético mais verdadeiro».
A verdade do filósofo com quem falei é um veredicto, são juízos sobre os próprios juízos, sobre a contenda entre falso e verdadeiro entre a ideia e a coisa, embora saliente que ao filósofo interessa uma interpretação cósmica da sua experiência interior e que essa interpretação, qualquer que ela seja, não é a verdade.
O meu pároco diz que Deus é a Verdade, que as verdades do cientista e do juiz e do filósofo são juízos sobre coisas, factos, acontecimentos, acções e ideias. A verdade não é conhecimento nem doutrinas teóricas que, como tais, se possam comunicar. A alma tende para a contemplação da verdade, para a pura contemplação, sem pensar anotar o que contempla para disso se separar e representar isso sob uma forma «válida em geral» com a qual todos pudessem enriquecer o seu saber. Cada pessoa permanece “fora” de interpretações e esquemas analíticos e nunca lhes está submetido; quando quer conhecer-se a si próprio, não é no homem em si, numa teoria da sua vida que se revê e o que lhe vem do íntimo não carece de explicação alguma. 


domingo, 24 de outubro de 2010

Deus não é uma filosofia



Desde tempos imemoriais que Deus está no centro das meditações e dos questionamentos do homem. Hoje, volvidos tantos séculos de pensamento e investigação e cultura e "contraditório" entre religiões diferentes e dentro das próprias religiões, entre culturas e concepções diferentes e até antagónicas, podemos reconhecer que todo o tipo de tentativas foram feitas (e continuam a ser) pelos homens de cultura e de ciência para "afirmar" ou "negar" Deus.

Mas Deus não é uma teoria, nem é uma hipótese. Deus não é uma filosofia. Nem é uma explicação. É certo que tudo pode ser teorizado e questionado sem limite. Se Deus fosse uma hipótese, ou uma teoria ou uma filosofia, não causaria mais dificuldades do que as questões sobre qualquer outro assunto. Nenhuma teoria, filosofia ou religião consegue transformar uma coisa naquilo que ela não é, ou fazer com que ela deixe de existir. Mesmo aqueles que (apenas) teorizam ou filosofam sobre Deus sabem que teorizam sobre um mistério, sobre o mais antigo e inesgotável dos mistérios. Os que acolhem Deus "revelado" nas suas vidas vivem numa relação construtiva e edificante com esse mistério, uma relação cujos termos são parte essencial da revelação.



segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O ateu é dogmático



O ateu, que invoca a necessidade de demonstração científica da existência de Deus para acreditar, está a incorrer num duplo vício: primeiro, declarando-se ateu, em vez de agnóstico e depois, porque supõe que o método científico tem a virtualidade e a aptidão para conhecer tudo, considerando que a natureza é tudo.

A questão é a seguinte: Deus, que as religiões proclamam como Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis (e as filosofias têm tentado racionalizar), não é sequer uma questão para o ateu.


E por que razões o não é? Por razões científicas? Não. As ciências da natureza não têm informação nem explicação para as origens da natureza, nem para o que ela virá a ser. Têm pretendido apresentar hipóteses, por exemplo, da origem do Universo, da origem da vida, de que houve e há evolução das espécies. Mas todas essas hipóteses não passam disso mesmo e, se continuam em aberto, é como tal.


O ateu é um dogmático. Desde logo, por não se declarar agnóstico. E por se declarar científico, quando não há ateísmo científico. O ateu arroga-se algo que, embora critique e impute, por exemplo, ao cristianismo, este nunca pretendeu: ser científico-naturalista.


Jesus Cristo não deixou dúvidas sobre a importância (necessidade) da Fé. O ateu, que se insurge contra esta condição, a qual diz ser “irracional”, não compreende o seguinte: o que Jesus nos propõe nem sequer é um conhecimento (de algo que não saibamos de acordo com as ciências da natureza). O que Jesus nos propõe é uma Fé e uma prática de vida, mais do que uma atitude (e não é uma filosofia), uma entrega da nossa vida pelos que sofrem, pelos necessitados, por amor aos inimigos.


Para Jesus Cristo, o conhecimento, os saberes, em si mesmos, nada são. São faculdades humanas, competências mentais e motoras, mais ou menos conscientes, mais ou menos voluntárias, mais ou menos inatas, através das quais o homem é chamado a realizar o Bem, o Amor, não como um comércio de interesses e de instintos, mas como imperativo da sua consciência. Consciência de si próprio, consciência do(s) que o rodeia(m), do significado e do sentido das próprias vivências e da História. Neste âmbito, por mais sábio e erudito que o homem seja, não terá realizado o essencial se e enquanto a sua consciência axiológico-normativa lho não ditar.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A ciência não acredita?

                                               
A ciência não acredita? A ciência acredita em si mesma enquanto não é convencida do contrário. Acredita na eficácia e na validade dos seus processos e métodos, como não podia deixar de ser. Não obstante ela não explica o conhecimento, nem o que é, nem como é originado. 
Todas as épocas tiveram as suas certezas e as suas dúvidas.
Mas o acreditar da ciência é um acreditar diferente do acreditar dos cientistas, e das pessoas em geral, naquilo para que não há explicações do tipo naturalista.              
                                              

sábado, 21 de agosto de 2010

As ideias e os ideais não brotam do nada



As ideias e os ideais não brotam do nada, derivam de percepções da realidade. Não são uma fotografia do que se vê ou outro registo sensorial, intelectual, etc., em forma de cópia. São uma elaboração complexa das percepções processadas na pessoa mas não necessariamente pela pessoa. Quer dizer, é um processo em que a vontade do sujeito normalmente não intervém e, quando intervém, é já numa fase de elaboração avançada.
Que representação podemos fazer, por exemplo, de uma coisa que nunca vimos?
Ou, que representação podemos fazer, por exemplo, de um cheiro?
De uma voz, ou de um som, ou de um paladar, ou de uma dor de dentes?
Que ideia poderia o homem fazer de Deus, antes de Jesus Cristo?
E Que ideia pode o homem fazer de Deus, depois de Jesus Cristo?


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Nas filosofias o ideal e os ideais ocupam lugar proeminente


Nas filosofias, o ideal e os ideais ocupam um lugar muito destacado de reflexão e análise, já no tempo de Platão.
Na religião, parece-me haver quem tenha uma visão do homem e do mundo a caminho de um ideal (de perfeição, questiono o que seja perfeição), como se Deus tivesse um plano ou projecto em realização e haver quem não sobrevalorize essa perspectiva, vivendo a sua fé no plano das coisas como elas são, sem preocupações ou interesse quanto ao que poderiam ou poderão ser, sem considerarem que, por exemplo, orar ou ajudar os que sofrem é cumprir algum tipo de ideal.
O ideal, entendido como a perfeição de uma forma ou de uma representação mental ou intelectual não passa disso e não substitui o real. Quando dizemos ideal=representação mental, não estamos a dizer ideal=representação gráfica(p.exemplo); esta representação gráfica é real.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Nas ciências os ideais não têm lugar



Na sociedade, na política, na religião, as ideias e os ideais estão constantemente postos em causa. O ser posto em causa, o estar em causa é-lhes essencial.
Na política, vai havendo consensos maioritários, ou conivências, relativamente às directrizes a seguir na governação. Subjacentes estão sempre formas, mais ou menos definidas / assumidas/provisórias, de ideais.
Nas ciências os ideais não têm lugar. O que sucede é que as ciências podem ser colocadas ao serviço de ideais. Podem ser instrumentos para a realização de ideais e objectivos. 


sábado, 31 de julho de 2010

Não se ama o que não existe




As ideias e os ideais (há que distinguir o que é ideal para mim do que seria o ideal universal e o ideal absoluto) funcionam como guias ou coordenadas da vontade, mas sabemos que esta é instável e, não raro, caprichosa, cedendo a veleidades, vícios e fraquezas.  Pelos ideais se aferem as realidades, físicas, sociais, comportamentais, epistemológicas, culturais... Muitas vezes não gostamos das coisas como elas se nos apresentam porque estamos “apaixonados” pelo que achamos que elas deviam ser.  Outras vezes, a realidade que se nos impõe é de tal modo adversa aos nossos desejos e à nossa vontade que nos sentimos profundamente frustrados e revoltados. Mas não se ama o que não existe. O amor é por aquilo que é, como é e não como devia ser. Quando amamos alguém não amamos a pessoa ideal (que não existe e nunca conheceremos) mas amamos uma pessoa como ela é e não como, em nosso entender, ela devia ser.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O homem não sabe o que quer





Eis o problema: o homem não sabe o que quer, nem para si próprio, quanto mais para os outros... E, supondo que as pessoas têm uma vontade e objectivos para os outros, para a história, para o mundo, para a Humanidade, um desejo, sonho (projecto é diferente e, certamente, não existe um projecto com essas características, individual ou colectivo) que as transcende, então aí o que sabemos é pouco e o que não sabemos é incomensurável (e que certeza temos disto?).                        




quinta-feira, 8 de julho de 2010

À frente de qualquer juízo de ciência



Quanto à nossa dependência do conhecimento, ou à primazia que damos (ou não) aos juízos de ciência, os nossos critérios são diversificados e complexos. Não nos regemos por meras racionalidades e verdades teoréticas. À frente de qualquer juízo de ciência colocamos, por exemplo, a nossa sobrevivência. E, normalmente, não precisamos de razões para nos confiarmos àquilo que, sem dúvida, nos interessa e nos agrada. Só que, também aqui estamos sujeitos a contingências de ignorância e de erro, senão numa perspectiva egoística, pelo menos, numa perspectiva do interesse e do agrado dos outros. Ao tentarmos compreender o que é a inteligência, deparamos com conceitos de inteligência conflituantes e contraditórios, consoante se trate de inteligência, por exemplo, do interesse individual imediato, inteligência do interesse colectivo, inteligência do imediato ou do eterno, etc..
Aquilo que cada um quer em função do seu interesse e do seu agrado não significa que seja o melhor ou o mais conveniente para os outros, ou que seja o melhor a médio/longo prazo.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

O conhecimento não ocupa lugar




O conhecimento só existe na medida em que existam pessoas. Pessoas capazes de o formular, de o comunicar e operacionalizar. Se as pessoas desaparecessem, o mundo, tal como está, com todos os registos, bibliotecas, bases de dados, artefactos, artes… seria um mundo não habitado pelo conhecimento. Um computador não tem conhecimento. Uma biblioteca não tem conhecimento. O conhecimento não está em lado nenhum. Nem no cérebro. Ou está? O conhecimento é uma função/actividade muito específica, complexa e dinâmica de descodificação/elaboração /codificação de informações de características muitas vezes difíceis de delimitar.
Dizer que o mundo não seria habitado pelo conhecimento, não quer dizer que no mundo, com todos os seres vivos, não abunde informação. Assim, a vida e os comportamentos dos animais, por exemplo, tendem a assegurar objectivos de conservação e de sobrevivência, não porque possuam conhecimento para tal e o façam em função desse conhecimento, mas porque estão “programados” para isso.


sexta-feira, 2 de julho de 2010

Indício de sabedoria


Vejo as reservas que podemos levantar face ao conhecimento, como um indício de sabedoria.
Quando dizemos que alguém tem conhecimento de algo, o que é que isso significa? Ou por outra, quando alguém tem conhecimento de algo, o que é que tem? Onde está o conhecimento? Ocupa lugar? Qual a relação entre o conhecimento e aquilo que se conhece? Pode falar-se em conhecimento falso e conhecimento verdadeiro? E os saberes? Também são sempre ou falsos ou verdadeiros?
Alguém me ajuda a responder a estas questões?
Quando falamos de sabedoria estamos a considerar que há diferenças entre saber, conhecimento, ciência e sabedoria. Por exemplo, transmitir conhecimento envolve linguagens que não são propriamente, nem necessariamente, semelhantes às que se usam para partilhar e comunicar sabedoria ou, em geral, saberes de vária ordem. Os gestos, os comportamentos, as expressões corporais, as artes, a literatura… E as prioridades da acção, os valores e as virtudes podem justificar-se na sabedoria antes de o serem ou de poderem ser justificados por alguma espécie de conhecimento.
Toda a sabedoria e todo o saber são formas de conhecimento?
E a inversa é verdadeira?

domingo, 27 de junho de 2010

Lutamos contra a ignorância e o erro



Não lutamos apenas contra a ignorância. Também lutamos contra o erro. E, por motivos muito diversos que aos interesses humanos dizem respeito, somos induzidos a ignorâncias e a erros contra os quais não estamos imunes e precisamos de nos precaver. Travamos estas lutas, intermináveis, com os instrumentos de que dispomos de observação e de análise e, na dúvida, com reservas, à defesa, advertidos da falibilidade das premissas, das conclusões e do próprio processo intelectual do conhecimento, para já não falar do reducionismo e das condições da comunicabilidade do conhecimento.



sábado, 26 de junho de 2010

Realidade e discurso (sobre a mesma)



Por um lado temos a realidade, os fenómenos observáveis. Por outro, temos as representações dessa realidade e o discurso sobre a mesma. As leis do pensamento e da linguagem e do intelecto mostram-se muito toscos instrumentos de análise e de compreensão dos fenómenos. Mas, ao mesmo tempo, são eles que nos permitem reflectir criticamente sobre os próprios limites e as contingências das linguagens. Em parte, será porque o acesso a essa realidade é condicionado à partida pelas características desses instrumentos. Noutra parte, o acesso à realidade é fortemente condicionado pelo nosso interesse na mesma.
A tendência para considerarmos que o que não observamos não existe ou que só existe o que conseguimos abarcar é por sua vez uma determinante. Noutra parte, ainda, o que observamos e o que podemos concluir sobre o que observamos não é mais do que aquilo que esses instrumentos alcançam. Um dos aspectos em que esses instrumentos se revelaram surpreendentes foi a capacidade de se observarem e analisarem a si mesmos e de produzirem e desenvolverem instrumentos com capacidades cada vez maiores de observação e de análise. 



quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ele disse «Deus não existe». Isto é uma contradição




Ele disse «Deus não existe». Isto é uma contradição. Ainda assim, encontrar o Deus filosófico ou cosmológico não é o encontro com o Deus Vivo e não resolve todos os problemas que Deus nos coloca. E os problemas que Deus nos coloca não são problemas teoréticos. Qualquer abordagem literal dos textos sagrados está condenada ao fracasso. Mas qualquer que seja a abordagem desses textos ela não nos dará respostas a qualquer tipo de perguntas. E coloca-nos sobretudo interrogações sobre nós próprios, sobre a nossa relação com os outros, sobre a nossa condição humana, sobre a vida, sobre Deus. Ao lê-los, a nossa inteligência, os processos de conhecimento, discursivos e não só e de comunicação, estão constantemente postos em causa.

domingo, 20 de junho de 2010

O Velha - X




A rádio local dedicou um programa especial à morte do Velha. O Amante de Catástrofes fez questão de prestar homenagem a esse homem de quem lhe disseram três coisas: que lhe chamavam Velha, que se apresentava como Alberto Caeiro e que era pastor de transístores. Abriu o programa com rajadas de metralhadora e, após um silêncio sepulcral, declarou, num tom declamatório «assalto e assassínio de um desconhecido».
Os dois repórteres, incumbidos de lhe trazerem notícias do Velha, foram as primeiras pessoas a ser informadas da sua morte, no hospital, onde se deslocaram para tentarem levá-lo ao estúdio para ser entrevistado.
Dois dias antes tê-lo-iam encontrado de perfeita saúde e teriam tido oportunidade de dar a conhecer um pouco da história da própria vida que ele fosse capaz de contar. Mas agora era tarde e ninguém poderia ajudá-los, nem com depoimentos. Por sua vez, as informações do hospital eram lacónicas. Até o nome que constava na ficha de internamento não era aquele pelo qual o Velha era conhecido. E diziam uma hora e uma data do falecimento, mas nenhuma referência ao nascimento, morada, naturalidade, ascendência…
Além disso, sabiam que tinha sido assaltado e agredido, depois das aulas à noite, a caminho de casa e que a polícia lavrou auto da ocorrência. As suas atenções, agora, estariam voltadas para a investigação e eventual descoberta do(s) autor(es) do(s) crime(s).

sábado, 12 de junho de 2010

O Velha - IX


O quadro clínico do Velha agravara-se e não havia ninguém referenciado como familiar ou amigo a quem o hospital pudesse comunicar a situação. A última pessoa com quem ele tinha vivido falecera dois dias antes dele se despedir da Serra Alta e de, ao chegar a Pérolas Falsas, chorar de inconsolável tristeza. E já tinha passado perto de um ano.
Era a tia-avó Anja, abandonada à solidão, numa aldeia de mais de cem casebres vazios, de portas e janelas escancaradas, cada vez menos visitados pelos fantasmas da memória enferma ao ponto de a ensurdecer e cegar a maior parte do tempo, desde que se levantava até que adormecia.
Com o seu rebanho de transístores, o Velha distraía-se de a ver, àquela que o criara de pequeno, que não conheceu pai nem mãe, nem lhe disseram alguma vez se eram vivos.
Com os anos, ele cresceu e a tia, envelhecendo, deixou, pouco a pouco, de o reconhecer. O Velha não saberia dizer a idade com que ela, arrastando o pesado corpo, no inverno, se deslocava para onde houvesse sol e, no verão, para onde a água fresca cantasse na fonte.
E não sendo capaz de, por si só, regressar a casa era ele quem, incerto de ser ouvido, a guiava, falando todo o tempo do doloroso e lento percurso sobre calhaus rolados, certamente pré-históricos, até aos cinco tormentos que era subirem cinco degraus de granito da escada desmantelada da entrada. A tia-avó, sem poder comentar, gemia e chorava, amparada ao sobrinho-neto e ao cajado cujas marcas da passagem do tempo haviam sido já por este apagadas. Quando, finalmente, chegavam à cozinha ela esperava que ele pusesse na mesa algum alimento para debicarem.
Também foram assim os derradeiros momentos da vida dessa mulher de quem não se sabe se chegou a pensar que o mundo existia para lá da Serra Alta. 

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O Velha - VIII



O Amante de Catástrofes, como era conhecido o director da rádio local, correu mundos e fundos para encontrar o Velha. Assim que soube do interesse do pastor por transístores, pela primeira vez, desde que se dedica a noticiar catástrofes, deixou de dormir por um motivo diferente, para poder pensar num programa de que o Velha fizesse parte. Antes, porém, era preciso encontrá-lo e convencê-lo a participar. Depois de cinco dias de buscas infrutíferas, só conseguiu saber que estava hospitalizado por ter sido assaltado e agredido, quando regressava das aulas no ensino nocturno. Entrou no estúdio, ainda de madrugada e, antes de ir para o ar, ordenou aos repórteres de serviço «desta vez suspendam as reportagens de catástrofes; com um pouco de sorte, haverá um dia sem que ocorra alguma, e tratem de encontrar o pastor alucinado por rádios. Procurem-no no hospital. Quero entrevistá-lo, se possível, em directo.» Um dos repórteres, impensadamente, retorquiu «mas, ó chefe, olhe que isso pode ser uma catástrofe!». Sem contemplações, o Amante de Catástrofes ripostou «Deixe-se de ironias e traga-me notícias desse homem». 


segunda-feira, 7 de junho de 2010

O Velha - VII



O Velha mexeu-se. Estava a acordar da anestesia geral. O cirurgião que o operou inclinou-se para ver-lhe os olhos. A médica anestesista perguntou-lhe «está bem? Como se chama? Qual é o seu nome?». «Fernando Pessoa», respondeu. O cirurgião arregalou os olhos e abanou negativamente a cabeça. A anestesista insistiu na pergunta «Como? Qual é o seu nome?». «Álvaro de Campos», voltou a responder. Desta vez ambos os médicos esboçaram um sorriso. E consultaram a ficha clínica. Ovelha era o nome que lá constava. «Não se levante, não se esforce. Está tudo bem, não está?».
O Dr. Pedrinho olhou para a Drª Água, tirou os óculos com uma das mãos e, com a outra, massajou suavemente os olhos cansados. «Não se esforce, deixe-se estar em repouso.»
O Velha pôs-se a falar com muita lentidão e alguma dificuldade. Os médicos ficaram à escuta. «Sobe ao pódio dos teus pés/Que o prémio te sinta /Mesmo que não sejas vencedor/Te diga que o és/Canta o hino /Que aprenderes/A olhar para longe /Do que fores/Capaz/Que o silêncio/No fim /Seja murmúrio/De paz.»

quinta-feira, 3 de junho de 2010

À vista do céu



Aprende-se a morrer
Sem ter vivido
Mas ninguém sabe

São muitas e belas e o poder
Das horas
Derrota as memórias
Como se não fossem
Vitórias

Vive-se de promessas
E de esperanças
Mas não de certezas
Enquanto cintilam
Estrelas

Do que é desejado
A alegria
De acreditar

Na plenitude da terra
À vista do céu.

sábado, 29 de maio de 2010

O Velha - VI



Depois das aulas, no regresso a casa, perdeu-se. Estava habituado a orientar-se pelas estrelas e, nessa noite, não havia estrelas. Os candeeiros da iluminação pública desorientaram-no. Deu voltas e voltas sem saber por onde e ao passar pela terceira vez na mesma ponte sobre um riacho convenceu-se de que devia seguir em frente, na direcção do pio dos mochos.  Quando parou de andar, vencido pelo cansaço, ao primeiro sol da manhã, viu que o lugar desconhecido em que se encontrava era o fim do mundo.
Incrível! – exclamou.
Uma regra de oiro dos montes penhascosos em que foi pastor durante vinte anos iluminou-lhe a mente «diante de um precipício, andar para trás é a única forma de andar para a frente». Mas não sentia vontade de retroceder.
Esses momentos ficariam na sua memória como os do primeiro encontro com aquela que viria a ser sua companheira inseparável até ao último dia de vida: a Insónia.
A sombra de uma árvore enorme que tinha sido arrancada pela mão de um gigante poderoso era um convite a que se abrigasse do sol para dormir.
Deteve-se diante daquele raizeiro ao ar, maior do que a casa dos sete anões.  Ao peso das pálpebras, fechou os olhos sem resistência, escutando rugidos rotundos que lhe lembravam trovões, mas eram as vagas do mar. Do mar que ele não via e nunca vira. A insónia não o largava. Quem dera rebanhos para contar.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O Velha - V



O primeiro texto que subscreveu como Alberto Caeiro levantou um problema ao professor Ruga. O Velha não compreendia onde estava o problema. Não estava a plagiar. Também não estava a usurpar a identidade de ninguém. Mas o professor não aceitou que ele se fizesse passar por um autor consagrado. Como é que alguém ousava atribuir os seus escritos a uma celebridade das letras?
Para o Velha não havia problema, porque as coisas não eram assim. Ele não atribuía a autoria dos seus escritos ao Alberto Caeiro que, aliás, nunca escreveu nada. Ele atribuía a autoria dos seus escritos a si próprio, verdadeiro Alberto Caeiro. De carne e osso, com larga experiência de pastoreio.
Cão tomara partido pelo Velha e dizia de cor os seguintes versos do poema “Observo”:
               A terra treme a água salta o vento arranca
               A bata branca
               A rã enxuta
               A bruxa manca
               A puta ama a ama puta.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O Velha - IV

                                                                                                                                                                       
Nem ele próprio sabe quando é que percebeu a origem da alcunha o Velha. Mas foi em casa que, carinhosamente, começaram a tratá-lo assim. Nas próprias palavras, quando nasceu, já tinha aspecto de velha. À medida que foi crescendo, esse aspecto acentuou-se e, como ele não dava por outro nome, porque nunca o baptizaram e não saberia dizer outro nome por que fosse tratado ou conhecido, um colega da escola para adultos, zarolho e corcunda, identificava-o por Velha. E Velha continuou. O zarolho era a sua companhia preferida que o tratava assim, não por despeito, mas por genuína simpatia.
Por sua vez, tratava as pessoas por alcunhas que lhes atribuía por associá-las a animais, a coisas e a outras pessoas. Ao corcunda, que se tornou seu amigo, chamava Cão, honrando-o assim com a associação ao notável navegador português que explorou o rio Congo. Apesar de ser zarolho, nunca lhe ocorreu cognominá-lo de Camões. O Cão, como ele lhe chamava, não tinha nada que o pudesse associar ao grande vate, a não ser a deficiência ocular. A associação pelo mais, não pelo menos, anuiu o Velha consigo próprio.
Ao Antunes, um colega sisudo e pouco sociável, que ficava no fundo da sala de aula e se torturava ao computador, com jogos de justas medievais, enquanto fingia trabalhar nas fichas que o professor distribuía, o Velha chamava Lobo Sem Alcateia.
A sua descoberta gloriosa, no entanto, veio a ser que o Alberto Caeiro era ele e que Fernando Pessoa era um dos seus heterónimos.
Foi o começo de uma nova era.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Velha - III

                                                                                                                                                                Até ao dia em que foi à cidade, só tinha convivido com dez pessoas entre família e vizinhos. Habituara-se a falar e a cantarolar sozinho, para os animais, para as plantas e para as coisas. Lembrava-se de quando se mirou no espelho da água do rio pela primeira vez. Teve a sensação nítida de que se tratava de outra pessoa e, mesmo sozinho, sentia-se como se estivesse acompanhado por uma espécie de sombra.
Na cidade, tudo era intensamente novidade. Os seus olhos e o seu cérebro não tinham memória de nada do que viam. Anos mais tarde ainda estaria refém da memória desse encontro fabuloso com a cidade, dessa experiência tão marcante. Via as pessoas a entrar e a sair das casas e das lojas e imitava-as. Sorria para elas como se as conhecesse e achava graça às expressões delas. Entrou num café e não sabia o que fazer nem o que pedir. Era de tal modo o centro das atenções que sentiu algo parecido com felicidade, sentimento que ele praticamente nunca havia experimentado. Em nenhum rosto viu sinais de hostilidade ou desdém. E quando se riam dele, então é que ele gostava. E ria também. Com dificuldade, porque não tinha rido mais de duas vezes na vida. Uma, quando ouviu pela primeira vez a rádio. Outra, quando um missionário passou pela aldeia e o ensinou a fazer o sinal da cruz.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

sábado, 1 de maio de 2010

O Velha - II


Um dia teve uma ideia que o fez saltar. Deu um grito e as ovelhas pararam de mastigar. Se estivesse numa grande cidade teria um rebanho imenso de transístores.  Quando teve de ir ao médico, ao passar à porta dos estabelecimentos comerciais, que tinham, quase todos, um rádio a tocar, ficou encantado.  Achou tanta graça à cidade que perdeu o gosto de viver no monte. Assim que saiu do consultório com o diagnóstico de desnutrição crónica, em vez de ir comer, que já o não fazia há mais de cinco horas, deixou-se  perder pelas ruas da cidade de Pérolas Falsas enquanto pensava que todas as pérolas são falsas. 


segunda-feira, 26 de abril de 2010

O Velha - I

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           
O Velha apresentava-se sempre como Alberto Caeiro e dizia ser pastor de transístores. 

Para muitas pessoas isso correspondia ao anúncio de uma seita esotérica, religiosa ou política. Mas não era. 
O Velha não era pastor de uma seita, era mesmo pastor de rebanhos de ovelhas e de cabras. 
Com o tempo, foi-se tornando também pastor de transístores e, pouco a pouco, declarava-se a si próprio como pastor de transístores que deixara de ser pastor de gado. 
Na infância, foi pastor de gado. Nunca pertenceu a uma tribo. Aprendeu a viver sozinho e a lidar sozinho com os seus medos. Mais tarde, frequentou a escola para adultos e descobriu que era Alberto Caeiro e que tinha mais que um heterónimo, sendo um deles Fernando Pessoa. 
Mas a maior descoberta da sua vida foi o transístor. 
Desde o dia em que o descobriu que passou a fazer-se acompanhar dele para os montes com os rebanhos. Assim que pôde comprou mais alguns e levava-os todos para os sintonizar em estações diferentes. 
Enquanto as ovelhas pasciam, colocava os transístores em posições estratégicas no solo e ouvia de tudo em simultâneo. 
Se mais estações de rádio houvesse mais transístores teria comprado.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Escuto as dores do mar




É nessas dores que se banha a lua
Nem todas as janelas já estão fechadas
As dores do mar
O balançar das árvores ao alto

É nessas cores que a torda da alegria
Perde peso
E a alma de magreza voa
Do mar
A olímpica fantasia
Que atordoa
Quem poderá domar?


quinta-feira, 1 de abril de 2010

O pregador e o propagandista

                                                                                                                                                                        
Está sol num grande largo povoado de sombras um pregador sob uma árvore adverte em nome do bem como um sol que faz desaparecer sombras no canto de lá um propagandista reclama liberdade como um sol que faz sombras.       
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

quarta-feira, 31 de março de 2010

Aceito o teu convite



Aceito o teu convite para ir a tua casa
Tomar café
Mas como estarás vestida?
E não aparecerá ninguém
(a cantar numa voz de ópera?)
Já te vi subir o pano
Como o suave sol de Maio
Sobe a colina
Faz-me ver grandes nuvens brancas
E temer adormecer
Sem o desejar.
                                                                                                                                                                                                                                                                                     

domingo, 28 de março de 2010

Porque é que estou a lembrar estas coisas

                                                                        

                                                                                                                                                                Um caminho abandonado há tantos anos
Interrompido por uma estrada
A única coisa valiosa que possuo
Recordações da minha juventude
Como se as tivesse lido em livros
De aventuras que não li
Até ao fim
Por me aborrecer
De morte.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    

quinta-feira, 25 de março de 2010

Ao amor desconhecido


Se tivesses uma morada ou telefone
Que eu soubesse
Um telemóvel ou e-mail que
Provavelmente tens
É improvável que escrevesse esta carta sem endereço
Nem sequer a escreveria
Faço-o porque não te conheço
E sou fiel
Ao sonho e mais profundo desejo
Sem trair o anjo do meu cortejo
E sem temer
Vir-me a arrepender
Pelo menos enquanto não te encontrar
Se tivesse dúvidas sobre o ridículo das cartas de amor
Elas cessariam com esta
Não por ser simples carta de amor
Mas por ser ao amor desconhecido
Que confiança pode merecer-te alguém que viveu
Oitenta anos sem te ter tido
Ou que o afirma
Mais indigno de ti
Quem diz que amou sem te conhecer
Ou quem não amou à espera que isso acontecesse
Mas tu não vieste?